Por Vijay PrashadBrasil de Fato

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Vijay Prashad é historiador e jornalista indiano. Diretor geral do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

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O capitalismo depende do trabalho migrante precarizado para disciplinar os trabalhadores, aprofundar a divisão e extrair riqueza, ao mesmo tempo que instrumentaliza a retórica anti-imigração para escamotear a destruição neoliberal dos serviços públicos e do bem-estar social.

Queridas amigas e amigos,

Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Em qualquer lugar do mundo hoje, do Norte ao Sul Global, somos inundados por uma crescente retórica anti-imigração. Parece ser uma parte inescapável do discurso público. Esse discurso é particularmente tóxico no Norte Global, onde se tornou um pilar central da extrema direita de um tipo especial. Em dezembro de 2025, o presidente dos EUA, Donald Trump, chamou os imigrantes somalis nos EUA de “lixo” e disse que eles deveriam ser mandados “de volta para o lugar de onde vieram”. O vice-presidente de Trump, JD Vance, afirmou que a imigração é a “maior ameaça” tanto para os Estados Unidos quanto para a Europa. Na Grã-Bretanha, o então primeiro-ministro Keir Starmer disse, em maio de 2025, que seu país corria o risco de “se tornar uma ilha de estranhos”, uma frase repetida mais tarde naquele ano por Andrew Hastie, então Ministro Sombra do Interior da Austrália (um tipo de ministro sem poder executivo): “Estamos começando a nos sentir como estranhos em nossa própria casa”.

O Sul Global não está imune a esse discurso. Na África do Sul, houve uma explosão de xenofobia, com grupos anti-imigrantes como a Operação Dudula (2021) e a March and March (2024) surgindo do nada com recursos para criar sérios distúrbios contra imigrantes. Esses grupos popularizaram o slogan Abahambe Makwerekwere [estrangeiros devem ir embora] entre setores da população sul-africana que foram marginalizados pelo sistema pós-apartheid. Esses setores projetaram suas ansiedades socioeconômicas em seus vizinhos – imigrantes empobrecidos que vieram para a África do Sul de países como Botsuana, Lesoto, Moçambique e Zimbábue. Esses grupos xenófobos emitiram ameaças e prazos para que os imigrantes deixassem o país, forçando pessoas desesperadas e vulneráveis ​​a buscar segurança ou a deixar a África do Sul por medo.

Esse aumento da xenofobia reflete um sentimento generalizado de que as péssimas condições de vida da classe trabalhadora se devem à competição por recursos escassos com os imigrantes, e não às características estruturais do capitalismo. Alega-se que os imigrantes empobrecidos e desempoderados, de alguma forma, enfraqueceram o Estado e saturaram o mercado de trabalho, deixando os trabalhadores nativos incapazes de levar vidas estáveis ​​e dignas.

O discurso sobre imigração está repleto de imprecisões factuais, exageros e rancor. Os defensores da xenofobia exageram a escala e a abrangência geográfica da migração e contaminam a discussão em torno do tema. Essa distorção opera de três maneiras:

As classes dominantes das nações mais ricas, principalmente no Norte Global, querem a mão de obra dos imigrantes, mas não suas vidas socioculturais ou sua participação política. Os principais setores econômicos do Norte Global – agricultura, construção, logística e trabalho de cuidado – dependem da mão de obra imigrante. A retórica xenófoba e os regimes legais restritivos criam um ambiente que facilita a disciplina e a exploração desses trabalhadores por meio da ameaça de deportação e da negação de direitos e de negociação coletiva. No entanto, é inegável que os imigrantes geram riqueza para a classe dominante onde vivem e trabalham. Suas remessas também sustentam famílias em seus países de origem. O discurso em torno da imigração e da economia é tão confuso e nebuloso quanto o debate político.

O neoliberalismo é o elefante na sala no discurso anti-imigração. Os imigrantes chegam a sociedades já devastadas pela austeridade e pela dívida. A crise habitacional, o desemprego crônico, os transtornos mentais e o abuso de drogas não são condições criadas pelos imigrantes. Esses são os efeitos sociais de sociedades capitalistas que priorizam o lucro de poucos em detrimento do bem-estar de muitos. A privatização dos serviços públicos, os cortes nos orçamentos municipais e o consequente colapso da capacidade estatal e do bem-estar social foram políticas neoliberais implementadas a serviço das classes ricas e proprietárias. Os mesmos partidos políticos que implementaram essas políticas neoliberais e, portanto, são responsáveis ​​pelo caos social que desencadearam, agora transformam os imigrantes em bodes expiatórios.

A retórica anti-imigração serve para ocultar as verdadeiras causas do sofrimento social enfrentado por bilhões de pessoas em todo o mundo. Os gastos militares obscenos e as guerras catastróficas de nossa época, as sanções cruéis contra os Estados que desafiam o bloco Otan+, a servidão por dívida imposta aos Estados que não conseguem romper o ciclo do subdesenvolvimento, o alto custo das mudanças climáticas, o desapossamento de terras e a destruição dos meios de subsistência não são causados ​​pela migração. São causados ​​pelo capitalismo e pelo imperialismo, que preferem destruir o mundo em busca de lucro a curá-lo. Aliás, a própria migração é resultado do imperialismo capitalista, que destrói as bases da vida no Sul Global por meio da guerra, da dívida, das sanções e da exploração.

Infelizmente, a natureza generalizada do discurso anti-imigração tornou mais fácil para um trabalhador alienado incendiar uma spaza [mercearia] em Soweto, na África do Sul, do que refletir sobre a brutal assimetria na posse de terras em seu país. Os sul-africanos brancos representam cerca de 7% da população, mas detêm 72% das terras agrícolas, enquanto os sul-africanos negros compõem quase 82% da população e possuem apenas 4%. Imaginar uma reforma agrária é infinitamente mais difícil e complexo do que incendiar a loja de um imigrante pobre do Botswana. Munir a classe trabalhadora com clareza contra a retórica desconcertante da xenofobia é uma das tarefas que a esquerda enfrenta hoje. Por sua vez, o Partido Comunista Sul-Africano assumiu uma posição firme e clara contra a xenofobia e a favor da solidariedade.

O grande poeta caribenho-britânico Benjamin Zephaniah passou grande parte da sua vida refletindo sobre a sua ancestralidade e o seu deslocamento. Vivendo entre dois mundos, ele compreendeu as lutas muito humanas e os sentimentos de solidão e isolamento que acompanham a condição de imigrante. No seu poema “Nós, Refugiados” (2000), Zephaniah capta, com sensibilidade e simplicidade, a irracionalidade e a desumanidade da xenofobia:

Todos podemos ser refugiados
Às vezes, basta um dia,
Às vezes, basta um aperto de mãos
Ou um documento assinado.
Todos viemos de refugiados,
Ninguém simplesmente apareceu,
Ninguém está aqui sem luta,
E por que deveríamos viver com medo
Do tempo ou dos problemas?
Todos viemos de algum lugar.

Cordialmente,

Vijay

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

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Fonte: Brasil de Fato

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