O caldo entorna
Por Sergio Lirio — Carta Capital
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A sessão para discutir o caso Moraes mantém acesa a chama da crise no STF
Nem é preciso recorrer a Freud para explicar a psique da ministra Cármen Lúcia. Ao antecipar o voto em relação à questão de ordem levantada por Gilmar Mendes, na sequência do pedido de vistas de Flávio Dino, a magistrada fez exatamente o que imaginava quem acompanha sua trajetória no Supremo Tribunal Federal. O preâmbulo foi uma tentativa malfadada de negar o óbvio. Cármen Lúcia afirmou viver um “estado de profunda consternação e tristeza, até um pouco envergonhada” e pediu “desculpas ao povo brasileiro”. Recorreu à escritora Clarice Lispector (“Eu não me perdi, mas provei a perdição”) e, antes de se alinhar ao presidente da Corte, Edson Fachin, na proposta de manter separadas as análises dos casos de Alexandre de Moraes e André Mendonça, negou ao menos três vezes não ceder a pressões externas ou internas. A “independente” juíza fez questão, no entanto, de citar o elogio de um cidadão com quem teria esbarrado em um voo e que a veria como uma mulher “avulsa”, sem lado.
Talvez Dino tenha intuído os rumos da prosa da colega. Minutos antes, o ministro havia lembrado uma frase de Nelson Jobim, ex-integrante do STF: “Aqui não é lugar para quem busca aplausos, para fazer biografia. É para fazer justiça”. Diante da quantidade de avatares com seu rosto que inundaram os perfis de cidadãos de bem nas redes sociais após a sessão, a ministra pode dormir tranquila, sua biografia permanece intacta. “Foi o pior momento de erosão da imagem do Supremo”, afirma Pedro Serrano, professor de Direito Constitucional da PUC de São Paulo e colunista desta revista. “O que vimos ontem se aproxima de um bate-boca em uma Câmara de Vereadores do interior. A forma de condução, em sessão aberta, pública, não foi adequada. Para recuperar a credibilidade, todos os ministros citados na investigação do Master, não só o Alexandre de Moraes, terão de ser submetidos ao mesmo tipo de verificação.”
O pedido de vistas apresentado por Flávio Dino adia o desfecho para depois das eleições
O pedido de vistas, anunciado em um dos tantos momentos tensos da sessão da terça-feira 15, não anuvia o clima. Ao contrário, mantém o tribunal sob suspeita a menos de 20 dias do primeiro turno. Por ora, o placar está 4 a 3 em favor da proposta de Fachin de manter em separado as análises dos dois casos. Quando devolver o assunto ao plenário, Dino irá se alinhar a Mendes, Moraes e Cristiano Zanin. O desempate caberá ao presidente do tribunal. Quando? Pelo regimento, o juiz tem até 90 dias para analisar os autos. O resultado desta semana influencia, por extensão, a reunião plenária da quarta-feira 23, pois é inviável analisar a situação de Mendonça antes de a Corte decidir se as citações a Moraes encontradas no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro merecem uma investigação ou, como defende a Procuradoria-Geral da República, o procedimento precisa ser considerado nulo diante de flagrantes irregularidades.
A guerra aberta entre os dois grupos do STF e o adiamento da decisão elevam a contaminação do processo eleitoral. Em entrevista à tevê Record, exibida na noite da terça 15, após o encerramento da sessão no tribunal, o presidente Lula tentou equilibrar-se na corda bamba. “O Fachin tem a faca e o queijo para saber quem fez o quê. É preciso investigar todos, sem distinção”, afirmou o candidato à reeleição. “Que se abra o sigilo telefônico de todo mundo. Aquilo que o André Mendonça tinha guardado como segredo de Estado e só soltando aquilo que interessava para ele agora pode ser aberto para toda a sociedade também.” Enquanto a propaganda eleitoral do adversário Flávio Bolsonaro insiste na relação entre o presidente e o ministro Moraes, como se os dois fossem uma coisa só, o QG petista se esforça para separar o embate nas urnas da queda de braço no tribunal. “Essa é uma crise do Poder Judiciário”, diz o advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador da campanha em São Paulo. “Temos o desafio de comunicar isso para a opinião pública de um modo geral. A relação direta ou indireta do presidente Lula com esse banco é muito clara e objetiva. No nosso governo o Master foi investigado e liquidado e o banqueiro foi preso. Esse banqueiro, por outro lado, estabeleceu uma relação de parceria com Bolsonaro e com o bolsonarismo.”
Imagem: Pilar Velloso, iStockphoto, Gustavo Moreno/STF e Rosinei Coutinho/STF
Nos vários momentos de tensão, nos quais os confrontos entre Moraes e Mendonça foram raros, dois embates se sobressaíram. Quanto mais Fachin se revelava incapaz de conduzir uma sessão tão complexa e delicada, cujo próprio objeto de análise era confuso, mais Dino se mostrava impaciente. O ápice deu-se quase no fim, quando o presidente da Corte foi engolfado por um aparte de Mendes, o que justificou o pedido de vistas de Dino. Após chamar de “desastrada” a direção do plenário, o ministro fez um alerta: “Estamos em tempos que degradam a imagem do tribunal. Vossa excelência está assistindo a isso há horas. E está transformando o Supremo, nas próximas semanas, quiçá meses, neste debate. Se vossa excelência vai assistir a isso, eu não vou, porque sou funcionário público deste País e tenho respeito a ele. Esta situação está posta por conta da sua condução”.
O segundo confronto não chegou a ser exatamente um embate. Na verdade, Mendonça serviu de sparring de Mendes. A questão de ordem apresentada pelo mais antigo ministro da Corte partiu de um princípio lógico: se existem citações variadas a magistrados e parentes nas comunicações de Vorcaro, não há razão para analisar de forma exclusiva e individual as eventuais condutas de Moraes. Nos últimos dias, apareceram referências a um suposto pagamento mensal de 500 mil reais a Kevin Marques, filho de Kassio Nunes Marques, por meio da empresa Consult Inteligência Tributária. Aos 25 anos e detentor de uma carteira da Ordem dos Advogados do Brasil há pouco mais de dois anos, Kevin é um fenômeno no mundo do direito, com uma receita de quase 28 milhões de reais no período. Nunes Marques, assim como José Dias Toffoli, que manteve negócios com o Master, se absteve de votar na sessão da terça-feira 15. Os relatórios da Polícia Federal apontam ainda a intimidade de Rodrigo, filho de Luiz Fux, com o ex-banqueiro. Em uma conversa, em dezembro de 2024, Rodrigo convida Vorcaro para um café em seu escritório no Rio de Janeiro. Por conta de outros compromissos, o encontro foi remarcado. “Beleza. Vou remarcar uma aqui para te atender”, escreveu o filho do magistrado. “14hs. Marcado. Tapete vermelho irmão.”
“Pixuleco eleitoral (…) Pessoas decentes não fazem isso”, disse Gilmar Mendes sobre as manobras de André Mendonça
Confuso, titubeante, Mendonça sofreu para sustentar a lisura de suas decisões, viu-se obrigado a reconhecer o erro em relação ao procurador-geral, Paulo Gonet, colocado sob suspeição na esteira dos vazamentos seletivos, e reagiu de forma desconexa à sucessão de jabs de Mendes. “É evidente, até as pedras sabem, há um inequívoco viés político-eleitoral”, disparou o decano ao lembrar do timing da retirada do sigilo do relatório da PF com menções a Moraes, às vésperas das manifestações bolsonaristas no 7 de Setembro. “Pessoas decentes não fazem isso.” Ao pedir respeito, pela primeira vez, Mendonça teve de ouvir: “Quem não se dá ao respeito não merece respeito”. Mendes não se fez de rogado. Segundo ele, o colega tentou produzir um “pixuleco eleitoral”, enquanto escondia, “ao estilo da máfia”, em uma omertà, as citações a outros pares. No instante em que o magistrado “terrivelmente evangélico” admitiu não existirem evidências contra Gonet, próximo a Mendes, a temperatura atingiu o ponto de fervura.
“Isto, sim, é leviandade, um sujeito investido de um sentimento policialesco, junto com seus delegados”, interrompeu o veterano. “É impressionante a desfaçatez desse sujeito.”
“A desfaçatez é de vossa excelência. Me respeite”, vociferou Mendonça.
“Pode chorar”, provocou Mendes.
“Não tô chorando, não. Aqui não tem choro.”
O espetáculo chegou ao fim um pouco depois das 6 da tarde. Nos bastidores, a troca de ofensas varou a noite. (Quase) tudo foi dito, nada ficou definido. A crise no STF não tem data para acabar. •
Publicado na edição n° 1431 de CartaCapital, em 23 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O caldo entorna’
Sergio Lirio
Redator-chefe da revista CartaCapital
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Fonte: Carta Capital