Por Murillo Ferreira PintoCarta Capital

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Candidatas do PT recebem ameaças de violência sexual e morte

Quando Juliana Garcia sobreviveu a uma tentativa de feminicídio em julho de 2025 e as cenas dos 61 socos desferidos contra ela dentro de um elevador em Natal pelo ex-jogador de basquete Igor Eduardo Pereira Cabral – seu então namorado – tomaram o País, seu caso gerou comoção geral. A carioca passou a receber milhares de mensagens de apoio, enquanto era submetida a uma cirurgia de reconstrução da face e se recuperava do trauma. Meses depois, porém, muitos dos novos seguidores das suas redes sociais que rezavam pela sua recuperação não hesitaram em deixar Deus de lado assim que identificaram sua aproximação com o PT. “Faltaram os meus 22 na tua cara”, “apanhou foi pouco” e “vamos libertá-lo para ele terminar o serviço” é o tipo de mensagem que chega para Garcia desde então. Hoje candidata a deputada estadual pelo Rio ­Grande do Norte, o medo não permitia que ela saísse de casa para uma agenda de campanha no domingo 13. “Pânico”, ela escreveu para CartaCapital. Meia hora depois, uma nova mensagem informava que ela tinha conseguido contratar um PM para acompanhá-la. O que aterrorizava Garcia eram as notícias de um ataque coordenado que ameaçava diversas das suas companheiras de partido desde o começo do mês.

Em comum, todos os e-mails, exceto o primeiro, têm o mesmo remetente – Sociedade Secreta Carbonária – e um narrador que se diz da Ku Klux Klan brasileira, demonstrando uma confusão histórica, já que a primeira nasceu na Itália, em 1800, contra o absolutismo, com ideias liberais, apesar da base machista e misógina, e a segunda foi criada nos Estados Unidos por ex-militares confederados e tinha como objetivo manter a supremacia branca e impedir os direitos civis e a inclusão social da população negra. Todas dirigiam-se às vítimas pelo nome e incluíam ameaças de violência sexual e morte, com descrição gráfica dos crimes, além de um texto extremamente violento. Uma segunda mensagem chegava com uma lista de dados pessoais, em alguns casos incluindo informações sobre familiares.

Tudo começou com a vereadora de Natal e candidata a deputada estadual Brisa Bracchi na terça-feira, dia 1º. A primeira mensagem chegou às 16h38 em quatro endereços eletrônicos – dois oficiais da Câmara e dois pessoais – e trazia a promessa de transmitir a violência ao vivo. Na quarta pela manhã, um segundo e-mail foi enviado contendo os dados pessoais da petista e seus familiares. “Endereços, telefones, cartões e até login e senha do ­Facebook”, conta Bracchi em entrevista a CartaCapital. “Meu assessor leu, a advogada leu, a chefe de gabinete leu, só então me informaram e achamos melhor que eu não lesse a íntegra do conteúdo.”

No sábado, às 4h50 da manhã, a candidata a deputada federal por Minas Ana Elisa acordava em um hotel no Rio de Janeiro. Sentada na beira da cama, abriu na pressa, sem reparar no assunto – que dizia “A sua trajetória como deputada termina comigo”. Diferentemente de Bracchi, leu no susto o e-mail inteiro, que trazia ainda ataques racistas. “Eu pensei: ‘Caramba’− e falei para o meu namorado −, ‘acabei de receber uma ameaça de morte’.” O casal pegou o avião de volta para Minas, onde Ana Elisa registrou a ocorrência e agora aguarda para representar.

Algumas horas depois, perto das 6 horas, o alvo foram diversas caixas-postais de Bella Gonçalves, também candidata a deputada federal por Minas. Ela conta que um grupo com quem trabalha acessou e ela só passou o olho. “É um gatilho, já passei por isso três anos atrás, o mesmo conteúdo, igual, uma ação coordenada.” Em 2023, um grupo de parlamentares mineiras foi vítima do mesmo crime. Um homem foi preso na Operação Di@na, em 2024, e solto no ano seguinte, mas não foi provado que as mensagens de Gonçalves estavam ligadas a ele e seu inquérito acabou ficando inconcluso. “Eu fiquei muito brava quando vi a mensagem”, diz a mineira a CartaCapital. “Me deixa revoltada porque, de novo, estávamos discutindo propostas para o País, e tem de parar tudo para cuidar da segurança, de novo cobrar as instituições, que nada fazem.”

“Precisamos entender de uma vez por todas que o discurso de ódio causa o ódio aplicado”, diz Bella Gonçalves

No começo da tarde de sábado, Brisa Bracchi decidiu publicar uma nota nas redes sociais informando o fato e afirmando que não recuaria diante das ameaças. Entre as centenas de mensagens de apoio recebidas estava a da conterrânea Natália Bonavides, candidata à reeleição como ­deputada federal. Às 3 da tarde, Bonavides postou uma foto com Bracchi e uma manifestação de solidariedade. Cerca de cinco horas depois, era a vez de a própria deputada avisar que tinha sido ameaçada e postar: “Não recuaremos”. Bracchi recebeu a última mensagem já na madrugada de segunda-feira, afirmando que a publicidade não iria intimidar os agressores. A sua equipe já tinha acionado a Ouvidoria da Mulher no TRE-RN, que procurou as autoridades competentes e o caso passou a ser investigado pela Polícia Civil do estado em conjunto com a Polícia Federal. Os ataques continuam acontecendo a outras candidatas pelo país. “É uma sensação de horror sentir minha vida ameaçada por estar disputando um lugar na política e por ser uma mulher LGTBQIA+”, diz Bracchi. Para ela, os ataques não acontecem em um contexto qualquer. “Estamos no ápice do feminicídio, da desvalorização da vida da mulher. Temos que garantir o direito de a mulher participar do processo político. É tudo muito novo, até dez anos atrás não tinha banheiro feminino nas Câmaras, estamos construindo uma ruptura histórica e a reação é a violência política de gênero, que não é um ataque pessoal, mas à democracia.”

Para Bella Gonçalves, é necessário que a sociedade pare de tratar o assunto com vitimismo. “A Polícia Civil precisa enfrentar seriamente os grupos masculinistas, inclusive em nível internacional. Temos de aprovar o PL da Misoginia, para termos uma tipificação criminal. E entender de uma vez por todas que o discurso de ódio causa o ódio aplicado. Eles odeiam que a gente entre na política porque vamos combatê-los. Temos de nos manter firmes.”

Mazé Morais, Secretária Nacional de Mulheres do PT, conta que o partido dá apoio jurídico, além de buscar fazer pontes para tentar garantir a segurança, nem sempre com sucesso, o que obriga as candidatas a recorrer à segurança particular. “Sei que o recurso delas não é suficiente, não dá nem para cuidar do material. E perde-se muito tempo,adoece. Mas é muito bom ouvir delas que seguirão, apesar de tudo. Pois sabemos que, se a gente não estiver nesses espaços, será ainda pior.” •

Publicado na edição n° 1431 de CartaCapital, em 23 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Ação coordenada’


Bruna Monteiro de Barros

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Fonte: Carta Capital

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