O BRICS enfrenta Trump: a construção difícil de uma ordem multipolar
Por Maria Luiza Falcão Silva — Brasil 247
247 – O mundo que criou o BRICS já não existe. E o mundo que o BRICS pretende construir ainda não nasceu. Entre essas duas realidades desenvolve-se uma das experiências políticas mais importantes — e também mais contraditórias — do nosso tempo.
Reunidos em Nova Délhi, nos dias 12 e 13 de setembro, os integrantes do bloco deram mais um passo na construção de uma ordem internacional menos subordinada aos Estados Unidos e às instituições concebidas sob a hegemonia ocidental. Ao mesmo tempo, mostraram que peso econômico, dimensão populacional e insatisfação compartilhada não produzem automaticamente unidade política.
A 18ª Cúpula do BRICS ocorreu em um cenário internacional particularmente tenso. Guerras, sanções, disputas comerciais, bloqueios tecnológicos e ataques à soberania dos países transformaram o sistema internacional em espaço de confronto permanente. As promessas de uma globalização baseada na abertura dos mercados e em regras universais cederam lugar à utilização explícita do poder econômico como instrumento de coerção.
A Declaração de Nova Délhi precisa ser lida nesse contexto. Ao condenar tarifas unilaterais, barreiras não tarifárias, protecionismo e sanções econômicas não autorizadas pelas Nações Unidas, o BRICS não fez apenas uma defesa genérica do multilateralismo. Respondeu diretamente às práticas do governo de Donald Trump. O presidente norte-americano não foi mencionado. Mas poucas vezes o destinatário de uma mensagem diplomática esteve tão evidente.
Trump, o adversário que não precisou ser nomeado
Donald Trump transformou as tarifas comerciais em armas de intimidação política. Países que não se alinham aos interesses de Washington passaram a ser ameaçados com restrições de acesso ao mercado norte-americano, punições financeiras, bloqueios tecnológicos e sanções aplicadas segundo critérios definidos unilateralmente pela Casa Branca.
Não se trata mais da velha discussão sobre proteção de setores industriais ou correção de desequilíbrios comerciais. A tarifa, sob Trump, tornou-se instrumento de poder. Seu objetivo não é apenas alterar preços relativos ou proteger empregos dentro dos Estados Unidos, mas obrigar outros governos a modificar suas decisões soberanas.
A declaração aprovada em Nova Délhi confrontou essa lógica. Sem adotar uma retórica ostensivamente antiamericana, o BRICS questionou a pretensão de Washington de decidir quais países podem comercializar entre si, quais moedas devem utilizar, quais tecnologias podem compartilhar e quais governos têm o direito de escolher seus próprios parceiros.
O documento defendeu o fortalecimento do sistema multilateral de comércio e criticou medidas incompatíveis com as regras da Organização Mundial do Comércio. Também condenou sanções econômicas que não tenham sido aprovadas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas. O recado é politicamente significativo: nenhum país deve possuir autoridade para transformar sua legislação nacional em norma obrigatória para o restante do planeta.
Os Estados Unidos continuam sendo a maior potência militar e conservam enorme influência financeira, tecnológica e diplomática. Mas sua capacidade de apresentar os próprios interesses como expressão natural dos interesses universais está se desgastando. Trump acelera esse processo ao substituir a construção de consensos pela ameaça e a liderança pela coerção.
Existe uma contradição evidente no discurso norte-americano. Washington afirma defender a liberdade econômica, mas ameaça punir os países que exercem a liberdade de diversificar parceiros comerciais, utilizar suas moedas nacionais e criar mecanismos financeiros alternativos. Afirma defender uma ordem baseada em regras, mas reserva para si o direito de mudar essas regras sempre que seus privilégios são questionados.
O confronto ocorrido em Nova Délhi foi, portanto, mais profundo do que uma simples controvérsia sobre tarifas. O que esteve em discussão foi o direito dos países do Sul Global de conduzirem suas políticas econômicas e externas sem pedir autorização aos Estados Unidos.
Quando a coerção acelera a resistência
Trump pode estar produzindo o efeito contrário ao que pretende. Ao ameaçar países que procuram maior autonomia, estimula a construção de mecanismos capazes de protegê-los do poder norte-americano. Ao utilizar o dólar e o sistema financeiro como instrumentos de pressão, oferece argumentos aos defensores da redução da dependência monetária. Ao tratar qualquer tentativa de multipolaridade como uma manifestação de hostilidade, aproxima governos que possuem diferenças profundas entre si.
Rússia e Irã convivem diretamente com sanções norte-americanas. A China enfrenta restrições comerciais e tecnológicas. A Índia procura preservar sua autonomia estratégica diante das pressões de Washington. O Brasil sofreu os efeitos de tarifas politicamente orientadas. Mesmo países que mantêm relações próximas com os Estados Unidos começam a perceber que a utilização arbitrária do comércio como arma poderá, em algum momento, voltar-se contra eles.
O BRICS ampliado reúne Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Indonésia. Não é uma aliança ideológica nem um bloco militar. Seus integrantes possuem regimes políticos, interesses econômicos, alianças internacionais e projetos nacionais muito diferentes.
Essa diversidade limita sua capacidade de ação conjunta, mas também revela a dimensão do deslocamento em curso. O que aproxima esses países não é uma visão uniforme do mundo. É a percepção de que a ordem internacional existente não representa adequadamente seus interesses e de que as instituições criadas sob a liderança ocidental já não correspondem à atual distribuição do poder econômico e demográfico.
O BRICS não surgiu para substituir uma hegemonia por outra. Sua existência expressa uma demanda por maior pluralidade, representação e autonomia. Essa característica ajuda a explicar tanto sua expansão quanto suas dificuldades para alcançar consensos em temas mais sensíveis.
A aproximação entre China e Índia durante a cúpula teve, por isso, grande relevância. A reunião entre Xi Jinping e Narendra Modi sinalizou uma tentativa de estabilizar uma relação marcada por disputas territoriais, competição econômica e desconfiança estratégica. Seria precipitado falar em reconciliação. Entretanto, o diálogo entre as duas maiores potências asiáticas é indispensável para que o BRICS avance além das declarações diplomáticas.
A desdolarização possível
Um dos resultados mais importantes da cúpula foi o compromisso de aprofundar a utilização de moedas nacionais no comércio e nos investimentos realizados entre os países do bloco. Não foi criada uma moeda comum do BRICS. Também não se decretou o fim do dólar, que continua ocupando posição central nas reservas internacionais, nos mercados financeiros e na precificação das principais mercadorias. Anunciar sua substituição imediata seria confundir vontade política com realidade econômica.
O caminho escolhido é mais gradual e, exatamente por isso, mais consistente: ampliar operações em moedas locais, aproximar os sistemas nacionais de pagamento, reduzir custos nas transações e fortalecer instituições de financiamento que não estejam integralmente submetidas aos centros financeiros ocidentais. Cada transação realizada sem a intermediação do dólar reduz, ainda que modestamente, a vulnerabilidade dos países às decisões de Washington. O objetivo não precisa ser eliminar a moeda norte-americana, mas impedir que sua centralidade possa continuar sendo utilizada como licença para bloquear reservas, interromper pagamentos e impor sanções extraterritoriais.
Nesse processo, o Novo Banco de Desenvolvimento desempenha papel estratégico. Presidido por Dilma Rousseff, o chamado Banco do BRICS representa uma das realizações institucionais mais concretas do bloco. Seu potencial está em financiar infraestrutura, transição energética e projetos de desenvolvimento segundo prioridades definidas pelos próprios países do Sul Global.
Para cumprir plenamente essa função, entretanto, o banco precisará ampliar sua capacidade financeira, elevar a participação dos empréstimos em moedas locais e demonstrar que pode oferecer uma alternativa efetiva às instituições de Bretton Woods. O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional continuam operando dentro de uma estrutura de poder que concede influência desproporcional aos países ricos, principalmente aos Estados Unidos.
O BRICS não pretende abandonar essas instituições. Defende sua reforma. Mas a resistência histórica dos países centrais a qualquer redistribuição significativa de poder torna necessária a construção paralela de novos instrumentos.
A multipolaridade não nascerá de um grande anúncio nem de uma moeda criada por decreto. Será construída por meio de bancos, sistemas de pagamento, acordos comerciais, cooperação tecnológica e instituições capazes de diminuir a dependência estrutural dos países em desenvolvimento.
A força e os limites do BRICS
Se o enfrentamento às práticas econômicas de Trump foi relativamente claro, a posição do BRICS sobre as guerras e tensões no Oriente Médio revelou os limites de sua unidade.
A Declaração de Nova Délhi manifestou preocupação com a escalada dos conflitos, pediu contenção, condenou ataques contra infraestruturas civis e instalações nucleares e reafirmou a necessidade de soluções diplomáticas. Também se posicionou contra o deslocamento forçado dos palestinos e contra mudanças na geografia ou na composição demográfica dos territórios ocupados.
Apesar disso, a linguagem permaneceu cautelosa. O documento evitou atribuir responsabilidades de maneira frontal. A presença simultânea do Irã e dos Emirados Árabes Unidos, país que mantém estreitas relações com os Estados Unidos, ajuda a explicar a busca por formulações aceitáveis para todos.
Essa cautela pode ser criticada. Um bloco que pretende influenciar a governança mundial precisa ser capaz de se posicionar diante das violações do direito internacional. Mas seria igualmente equivocado exigir do BRICS uma uniformidade que nem sequer existe entre os integrantes das tradicionais alianças ocidentais.
O BRICS ampliado abriga contradições reais. Há disputas entre China e Índia, diferentes relações com os Estados Unidos, divergências sobre guerras e concepções distintas de desenvolvimento. Seu futuro dependerá da capacidade de transformar a diversidade em negociação política, sem permitir que a exigência de consenso reduza todas as declarações a um mínimo denominador comum.
O bloco será relevante não apenas pelo número de países que reúne, mas por sua capacidade de transformar posições políticas em resultados concretos. A cooperação monetária, o financiamento ao desenvolvimento, a reforma das instituições multilaterais e a democratização da governança tecnológica serão testes mais decisivos do que qualquer fotografia oficial.
O Brasil e a ausência de Lula
O Brasil foi representado na cúpula pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. A ausência do presidente Lula, motivada por sua agenda eleitoral, não anulou a participação brasileira, mas diminuiu seu peso político.
É necessário reconhecer isso com franqueza. Tratava-se da cúpula que marcava os vinte anos do mecanismo iniciado em 2006, realizada em meio a uma grave crise internacional e num momento de confronto crescente entre Trump e os países que defendem maior autonomia. A presença de Lula teria dado maior projeção à posição brasileira e reforçado o papel do país como interlocutor entre diferentes integrantes do bloco.
A observação não diminui o protagonismo de Lula na reconstrução da política externa brasileira. Foi sob sua liderança que o Brasil recuperou presença no Sul Global, fortaleceu as relações com a África, participou da criação do Novo Banco de Desenvolvimento e transformou o BRICS em parte essencial de sua estratégia internacional.
A presidência brasileira do bloco em 2025 deixou contribuições importantes nas áreas de saúde, clima, inteligência artificial, financiamento ao desenvolvimento e reforma da governança global. Justamente por ocupar essa posição, o Brasil precisa estar presente no mais alto nível sempre que decisões estratégicas estiverem em discussão. Mauro Vieira é um diplomata experiente e assegurou a representação institucional do país. Mas cúpulas de chefes de Estado possuem uma dimensão política que não pode ser inteiramente delegada. A ausência brasileira tornou-se ainda mais visível porque Xi Jinping, Vladimir Putin e Narendra Modi utilizaram o encontro para demonstrar a centralidade atribuída ao bloco.
A velha ordem perdeu sua aparência de universalidade
A Cúpula de Nova Délhi não criou uma nova ordem mundial. Não superou as divergências internas do BRICS, não substituiu o dólar e não produziu uma arquitetura financeira inteiramente independente do Ocidente.
Mas demonstrou que a antiga ordem já não consegue governar o mundo sem recorrer cada vez mais à coerção.
Durante décadas, os Estados Unidos puderam apresentar suas decisões como se fossem a expressão natural de regras universais. Trump rompeu essa aparência. Ao utilizar tarifas, sanções e ameaças de maneira abertamente política, tornou visível que a ordem supostamente liberal sempre esteve sustentada por relações assimétricas de poder.
O BRICS cresce dentro dessa contradição. Ainda não é o centro de uma nova ordem, mas se tornou uma evidência incontornável de que a hegemonia ocidental perdeu sua capacidade de representar sozinha a comunidade internacional.
O confronto de Nova Délhi não opôs simplesmente o BRICS aos Estados Unidos. Colocou frente a frente duas concepções de mundo. De um lado, a tentativa de Trump de restaurar pela força uma supremacia que já não pode ser mantida apenas pelo consenso. De outro, a busca difícil, incompleta e contraditória por um sistema no qual diferentes centros de poder possam coexistir.
A multipolaridade não será necessariamente mais justa apenas por ser multipolar. Sua democratização dependerá das escolhas políticas dos países que a estão construindo. Mas um mundo no qual uma única potência decide quem pode comerciar, financiar, inovar e desenvolver-se deixou de ser aceitável para uma parcela crescente da humanidade.
Trump procura deter essa transformação por meio da ameaça. O resultado pode ser precisamente o oposto: acelerar a formação das alternativas que pretende impedir.
Fonte: Brasil 247