O brasileiro cansou de baixar aplicativos? Veja o que revela a pesquisa
Por Marcelo Fischer — Canaltech
Mais da metade (53%) dos entrevistados de uma pesquisa da Consumoteca, sente que já tem aplicativos demais no celular. O incômodo também aparece nas tarefas interrompidas: 74% já desistiram de algo por precisar baixar outro app. O estudo, encomendado pela 99, foi apresentado nesta quinta-feira (15), no 99Tech Summit, no Rio de Janeiro.
O incômodo envolve o trabalho necessário para acessar serviços que prometem facilitar a rotina. Antes de concluir uma tarefa, o usuário precisa instalar programas, preencher cadastros e lembrar mais uma senha. Em alguns casos, ainda é necessário escolher o que apagar para liberar espaço.
Um depoimento reproduzido no levantamento resume essa sensação: “Meu celular tem tanta coisa acumulada que, às vezes, acho que precisava tirar um dia de folga só pra organizar tudo.”
Por que uma facilidade vira trabalho?
O antropólogo Michel Alcoforado, da Consumoteca, chama essa administração de “trabalho invisível”. O serviço pode economizar um deslocamento, mas exigir tempo e atenção para encontrar informações, recuperar acessos e repetir procedimentos.
“Você tem um trabalho que é administrar aquilo que teoricamente também ia poder te ajudar”, afirmou na apresentação. Segundo ele, o consumidor passa a avaliar também o esforço necessário para aproveitar os benefícios de cada ferramenta.
A recuperação de senhas é um exemplo: 49% dos entrevistados dizem se incomodar muito quando esquecem uma senha e precisam recuperá-la. A pesquisa também identifica atrito na repetição de cadastros e no preenchimento do mesmo endereço em diferentes aplicativos.
O custo aparece até no armazenamento. Alcoforado contou ter presenciado uma mulher tentando abrir um vídeo do neto dando os primeiros passos. Ao receber um aviso de falta de memória, ela apagou o aplicativo do banco para assistir.
Segundo o relato, a mulher pretendia baixar o app novamente quando precisasse consultar o saldo. O episódio foi narrado como uma experiência presenciada pelo antropólogo, sem identificação como caso da pesquisa. A utilidade de manter o serviço instalado perdeu prioridade diante de uma necessidade imediata.
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Menos aplicativos significa querer se desconectar?
A disposição para enxugar o celular aparece em dois resultados: 74% fazem limpezas frequentes no aparelho, excluindo apps, e 60% declaram usar apenas um terço dos aplicativos instalados.
Mesmo assim, 82% preferem resolver uma necessidade pelo celular quando a alternativa exige deslocamento presencial. Na pergunta sobre a rotina desejada para o futuro, 16% dizem querer menos dependência da tecnologia. O incômodo com a administração dos apps convive com a preferência pelas facilidades digitais.
O estudo aponta que 85% se descrevem como usuários com algum grau de autonomia no celular. É uma autoavaliação, sem teste de competência. Para Alcoforado, a familiaridade envolve também classe social e tempo de exposição às ferramentas, além da idade.
O tema se relaciona aos debates sobre excesso de telas, redes sociais e burnout digital. O levantamento, porém, investigou hábitos e percepções de conveniência; não diagnosticou dependência tecnológica nem transtornos de saúde mental.
Foram 2 mil entrevistas online com pessoas de 18 anos ou mais, donas de smartphone e usuárias regulares de apps, com base analítica de 1.982 respondentes após ponderação. As rotas incluíram usuários finais e motoristas. A etapa qualitativa teve quatro grupos online e mais de 20 participantes. Os resultados não abrangem quem não usa essas tecnologias.
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Fonte: Canaltech