O Brasil no olho do furacão: o efeito do super El Niño em cada país da América Latina — e como afeta seus investimentos
Por Carolina Gama — Seu Dinheiro

O Pacífico está mais quente do que o normal, e o super El Niño deve trazer temperaturas mais altas e chuvas intensas para boa parte da América Latina, colocando de um lado países que perdem com o evento climático mais forte e um que ganha com ele.
O Goldman Sachs calculou quanto esse El Niño pode tirar do crescimento e quanto pode acrescentar à inflação da região. E o resultado é o de um clássico choque de oferta — atividade mais fraca e preços mais altos ao mesmo tempo —, só que distribuído de forma bem desigual entre os vizinhos latino-americanos.
E a notícia não é boa para o Brasil que, ao lado do Equador, está entre os mais penalizados.
Um fenômeno, efeitos diferentes
O banco simulou o impacto do super El Niño sobre sete das principais economias da região — Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México e Peru — usando duas décadas de dados. O resultado é uma espécie de mapa de vencedores e perdedores.
Na média da região, que o banco chama de LA7, o crescimento cai 0,36 ponto percentual (pp) ao longo dos quatro trimestres seguintes ao início do fenômeno. Olhando só para o grupo LA5, sem Equador e Peru, a queda é de 0,45 ponto.
O Equador é o mais penalizado, com uma contração estimada de 1,85 ponto percentual. O Brasil vem logo atrás, com queda estimada de 1,21pp do Produto Interno Bruto (PIB).
A Argentina é a grande exceção positiva: o Goldman estima uma expansão de 2,57 pps, puxada por condições hídricas mais favoráveis para a agricultura.
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Por que Brasil e Equador sofrem mais?
O relatório aponta o mesmo vilão nos dois casos: a hidrelétrica.
No Brasil, cerca de metade da geração de energia vem de hidrelétricas; no Equador, essa fatia é ainda maior.
Menos chuva nessas regiões significa menos água nos reservatórios — e isso se traduz em restrição energética e perdas agrícolas.
No caso equatoriano, o banco soma ainda o risco de enchentes costeiras e danos à infraestrutura.
A inflação escolhe seus alvos
Se o crescimento sofre de forma desigual, os preços seguem a mesma lógica. Segundo as estimativas do Goldman, um El Niño típico acelera a inflação cheia do LA7 em 1,04 pp e a inflação de alimentos em 1,40 pp — este último efeito é o único estatisticamente robusto entre os dois.
Os países que mais sentem a pressão nos preços, além da Argentina, são Brasil, Colômbia e Chile, com um efeito mais brando no Equador.
México e Peru, pelas contas do banco, praticamente não sentem o impacto na inflação.
El Niño Costero
O Peru quase não aparece nos números de um El Niño global — o impacto estimado no crescimento peruano é praticamente zero.
Mas o Goldman chama atenção para uma variante mais localizada do fenômeno, o El Niño Costero, que afeta especificamente o litoral do Peru e do Equador com chuvas e enchentes extremas — como ocorreu no episódio de 2017.
Nesse cenário mais específico, o efeito regional é ainda maior: o PIB do LA7 cairia 0,74 pp, um resultado estatisticamente significativo, ao contrário do choque global.
Para efeito de comparação, o próprio banco central peruano (BCRP) já incorporou um cenário extremo de El Niño Costero em suas contas, projetando um efeito de -0,9 ponto no crescimento, com revisão do PIB de 2026 para 3,2% (de 3,4%) e de 2027 para 3,0% (de 3,2%).
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A reação dos bancos centrais
Aqui está talvez o dado mais contraintuitivo apresentado pelo Goldman: apesar de o El Niño empurrar preços para cima, os juros da região não reagem de forma automática.
O banco estima uma resposta cumulativa de apenas 0,18 pp nas taxas de curto prazo do LA5 — e, na maior parte dos casos, essa resposta nem é estatisticamente diferente de zero.
Os economistas apontam reações um pouco mais hawkish (linha dura) do Copom, no Brasil, e do Banco da República, na Colômbia — justamente os dois países que, segundo o banco, já enfrentam inflação elevada, expectativas desancoradas e juros em terreno restritivo. Chile, México e Peru, por outro lado, tendem a reagir pouco.
O que vai determinar a resposta dos bancos centrais, segundo o Goldman, não é o clima em si, mas a credibilidade da política monetária e o ponto de partida da inflação em cada país.
Quando a inflação está sob controle e as expectativas ancoradas, dá para simplesmente olhar através do choque climático, como fez o Peru em 2017.
Quando não está, como hoje no Brasil e na Colômbia, o banco central provavelmente vai ficar mais na defensiva.
O que isso significa para a sua carteira
Se você investe em ativos brasileiros, vale ficar de olho: o Goldman cita o Brasil como um dos países mais expostos tanto pelo lado do crescimento mais fraco quanto da inflação mais elevada — justamente a pior combinação para quem monitora juros e câmbio.
Na Argentina, o cenário é oposto: o banco vê o El Niño como um vento a favor da safra agrícola, o que ajudaria a aliviar a pressão cambial e sustentar a recuperação em 2027 — ano que, não por acaso, tem eleições gerais em outubro por lá.
No Equador, o banco menciona um amortecedor: mesmo exposto a chuvas e apagões, o país pode se beneficiar de preços de petróleo mais altos e exportações não petrolíferas robustas, o que ajudaria as contas do governo.
Vale reforçar: os próprios economistas do Goldman classificam essas estimativas como ruidosas, ou seja, cercadas de incerteza estatística, já que a amostra conta com apenas oito episódios de El Niño desde 2000.
Mas a mensagem do banco é clara: com uma probabilidade de 98% de um episódio muito forte, este é um momento para os bancos centrais latino-americanos redobrarem a cautela, mesmo sem apertar o gatilho dos juros de imediato.
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Fonte: Seu Dinheiro