O Brasil não é quintal de Trump nem dos Bolsonaro

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Por Gustavo Tapioca — Brasil 247

Faltam seis dias para a eleição presidencial. Na capa de sua revista de fim de semana, o Financial Times publicou uma reportagem sobre os escândalos e a sucessão na família Bolsonaro. O jornal britânico aponta o que uma vitória de Flávio significaria: depois do pai, o filho chegaria ao Planalto, consolidando o clã como uma dinastia política. 

O retrato interessa ao mundo. Ao Brasil, interessa sobretudo saber o que essa família faria com o poder. Quem governaria? Trump e Rubio? Quais compromissos Flávio já assumiu? E quem decidiria sobre nossas riquezas e nossa política externa? 

Jair Bolsonaro tentou impedir a posse de Lula e Geraldo Alckmin após a eleição de 2022. A trama golpista que liderou chegou a planejar a morte dos dois eleitos e do ministro Alexandre de Moraes. 

Lula e Alckmin tomaram posse em 1º de janeiro de 2023. No oitavo dia do novo governo, bolsonaristas invadiram e depredaram o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. 

Foi a última tentativa da organização criminosa liderada por Jair Bolsonaro de ruptura de uma trama iniciada antes da eleição de 2022. Condenado pelo STF por liderar a organização golpista, Jair e os militares de alta patente que o seguiam cumprem penas de até 27 anos e três meses por tentativas de golpe de Estado e outros crimes. 

Agora é Flávio 

Flávio disputa agora a Presidência com o mesmo Lula cuja posse seu pai tentou impedir e matar. A eleição pode devolver o comando do país à família de Jair Bolsonaro. Mas o sobrenome, por si só, não explica o alcance dessa escolha. É preciso olhar para o que o candidato Bolsonaro da vez tem dito e feito. 

Em março, numa conferência da direita nos Estados Unidos, Flávio apresentou o Brasil como solução para reduzir a dependência norte-americana da China em minerais críticos, especialmente terras raras. Falou desses recursos como componentes da inteligência artificial e do equipamento militar dos Estados Unidos. Não explicou que parte do processamento, da tecnologia e dos ganhos industriais ficaria no Brasil. 

Em junho, Flávio Bolsonaro escreveu a Marco Rubio que, se eleito, colocaria imediatamente sua equipe de transição à disposição do secretário de Estado norte-americano para concluir um acordo de comércio e investimentos. Rubio agradeceu a oferta. Os eleitores brasileiros ainda não conhecem os termos do acordo prometido. 

Há poucos dias, Flávio também prometeu aderir ao Escudo das Américas, coalizão liderada por Trump da qual o Brasil não participa. A iniciativa trata do combate ao crime organizado e alcança assuntos estratégicos, como minerais e infraestrutura digital. Cooperar contra facções criminosas é necessário. Cabe ao candidato dizer até onde iria a cooperação que oferece e quem conservaria o poder de decidir em território brasileiro. 

Essas declarações não são uma profecia sobre o que ocorrerá depois da eleição. São atos públicos de um candidato à Presidência. Revelam suas prioridades e exigem respostas antes do voto, quando ainda cabe aos brasileiros decidir. 

“O Brasil não cabe no quintal de ninguém” 

Lula apresentou outra posição na Assembleia Geral da ONU, em 22 de setembro. “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, afirmou. Disse que o país precisa de parceiros e de cooperação para interromper o fluxo de armas e dinheiro que sustenta o crime organizado. Acrescentou que não precisamos de porta-aviões estrangeiros vigiando nossas águas. Ao falar do Pix, rejeitou pressões de multinacionais para privatizar uma infraestrutura pública de pagamentos. 

Há uma linha que liga essas posições. O Brasil pode negociar com os Estados Unidos, a China e qualquer outro país. Pode receber investimentos, vender minerais e combater o crime em cooperação com seus vizinhos. Precisa estabelecer as condições dessas relações e preservar o direito de dizer não quando uma proposta contrariar seus interesses. 

Foi isso que o discurso de Lula defendeu na ONU. Flávio, até agora, oferece os recursos brasileiros como resposta a necessidades estratégicas de Washington e se dispõe a negociar com Rubio antes de explicar aos eleitores o conteúdo do acordo. Seu alinhamento a Trump é uma escolha política. Os brasileiros têm o direito de saber quanto ela lhes custaria. 

O Financial Times chamou a atenção do mundo para a possibilidade de uma dinastia Bolsonaro se consolidar no Brasil. A decisão, porém, pertence exclusivamente ao povo brasileiro. A seis dias das urnas, sabemos o bastante para fazer a pergunta decisiva: o futuro do Brasil será definido aqui ou negociado como parte do projeto de Trump para a América Latina? 

No dia 4 de outubro, meu voto será em Lula.  

O Brasil não é herança da família Bolsonaro nem quintal de potência estrangeira. 

Fonte: Brasil 247

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