O assassinato de JK e o mito da imprensa isenta

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Por Maurício de Araújo Lima — Brasil 247

“Não pode ser a favor do Brasil quem é contra Brasília”, estampava o jornal a Folha do Oeste, de Itaúna, no dia 28 de fevereiro de 1959, numa crônica que previa que a nova capital ia causar um crescimento da população no interior do país que ia mudar a pasmaceira em que essas regiões viviam.

Para protagonizar as crônicas da vida em uma pequena cidade do interior de Minas, no antigo caminho de Goiás, seu autor, Péricles Gomide Júnior, criou um personagem que durante treze anos frequentou as páginas do mesmo jornal e deu origem ao livro Crônicas e Narrativas de Pancrácio Fidélis.

Pancrácio, segundo as más e as boas línguas da cidade, era fruto de uma escrita sem nenhuma pretensão, feito a título de ajudar o irmão, dono do quinzenário, e para “encher linguiça”, como modestamente justificava suas histórias. E hoje em que metade dos brasileiros vive distante do mar, os jornais e seus sucedâneos modernos entraram na vida cotidiana de toda essa massa de gente.

E essa é minha deixa pra parar de encher linguiça, usando essa história de Pancrácio, quando minha verdadeira intenção era falar de jornalismo. Quando fui professor de narrativa jornalística, um dos temas que abordava com meus alunos era a imagem que a imprensa brasileira passava de isenção total ao narrar os fatos do dia a dia.

Na história mundial, em seus primórdios, os jornais eram abertamente panfletários, opinativos e mantidos por partidos, governos ou grupos de interesse para defender causas ideológicas específicas. Com o surgimento da imprensa de massa e da publicidade no século passado, tornou-se comercialmente vantajoso vender jornais para o maior público possível. Criou-se a pseudocultura do jornalismo objetivo, pautado na separação entre fato e opinião e no dever de ouvir os dois lados.

Atualmente, entendeu-se que a escolha do enquadramento e da agenda já carrega viés. Surgem movimentos, como a imprensa alternativa e outros influencers, que assumem abertamente suas posições políticas, por considerarem a neutralidade uma ilusão ou apoio ao status quo.

Mas e a chamada mídia profissional de nossos dias? Não seria mais honesto que declarasse abertamente seu lado, em vez de fingir sempre reportar a verdade, nada mais que a verdade.

Prova disso aconteceu no último dia 22 de agosto, quando se completaram 50 anos da morte do presidente Juscelino Kubistchek. Em maio, a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos havia concluído que JK foi vítima de um atentado planejado pelo Estado brasileiro. Em que momento histórico vivemos para que se ignore esse fato que, a partir da agora, deve passar a constar nos livros de História do Brasil.

E a imprensa corporativa simplesmente ignorou.

JK foi morto pela ditadura no dia 22 de agosto de 1976. E por 50 anos os meios de comunicação sustentaram que foi um acidente banal quando, na verdade, o carro em que viajava foi adulterado pela linha dura do SNI sob o comando do futuro presidente João Figueiredo, que cumpria ordens do então presidente Ernesto Geisel. Consequência, o carro desgovernou, atravessou pra outra pista e se chocou com um ônibus.

Quando terminou a Segunda Guerra Mundial, logo após os países aliados devolverem o poder político para os alemães, esses se apressaram em frear as políticas de desnazificação em nome da reconciliação nacional e para reintegrar à vida pública os antigos nazistas e seus simpatizantes. Um esquecimento voluntário e programado que diz mais sobre aquela sociedade do que tudo o que apareceu nos jornais. Vide o renascimento dos partidos neonazistas na Alemanha.

Nem um pouco diferente do que aconteceu no Brasil com a anistia para os torturadores e assassinos. No próximo dia 6 de dezembro, a morte do ex-presidente João Goulart também completa 50 anos. E em 21 de maio do próximo ano, o mesmo se sucederá em relação à morte de Carlos Lacerda. JK, Jango e Lacerda haviam formado uma frente ampla que desafiava o poder e, tudo indica, os militares finalmente conseguiram neutralizar essa ameaça ao assassiná-los.

Enquanto isso, em lugar de reportar um fato histórico de tal relevância, a imprensa se ocupa em criar narrativas que, eles bem sabem, não se sustentarão após as eleições. Numa prova de que a isenção da imprensa é um mito e pouco de suas narrativas serão eternizadas pela História do Brasil.

O nome de JK faz parte da nossa História pela importância da mudança da capital para Brasília. Mas a confirmação de seu assassinato pela ditadura representa uma mudança na forma de contar a história de um tempo em que matar era um lugar comum na política do Estado brasileiro. E que podia ter voltado a ser se prevalecesse o desejo dos que invadiram e depredaram a praça dos 3 poderes em Brasília, em 2023.

Que velhinhas rezando o terço é que não foi, embora essa versão agrade tanto os meios de comunicação ditos profissionais. Se deixassemos aquela horda executaria sem dó os líderes políticos adversários, como fora planejado. Por isso um viva a democracia porque a democracia continua viva.

Até quando? Perguntaria Pancrácio.

Fonte: Brasil 247

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