O apito para cachorro de Flávio Bolsonaro: barulho contra o STF, silêncio sobre o ataque planejado aos direitos dos trabalhadores

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Por Marcos Pędłowski — Blog do Pedlowski

Flávio Bolsonaro e o comando de sua campanha continuam investindo nas promessas de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. Segundo informações divulgadas pelo UOL, o afastamento de integrantes da Corte já é apresentado por membros da campanha como um marco de um eventual governo. Enquanto isso, Rogério Marinho, coordenador da candidatura, defende uma mudança nas regras do Senado para facilitar o encaminhamento desses pedidos. O confronto institucional ocupa, assim, o lugar que deveria ser destinado à explicação de como pretendem governar o país.

Considero que essa insistência funciona como um “apito para cachorro”: uma mensagem que mobiliza a base bolsonarista, reativa ressentimentos e transforma o STF no inimigo em torno do qual todos devem cerrar fileiras. O conflito também cumpre uma função eleitoral conveniente: desvia a atenção das consequências materiais do programa econômico. A Folha de S.Paulo noticiou justamente que a campanha explora a crise do Supremo enquanto evita detalhar suas propostas econômicas. Minha leitura é que o barulho ajuda a dispensar explicações sobre quem pagará a conta do ajuste prometido.

É nesse terreno que os trabalhadores precisam concentrar sua atenção. A desvinculação dos reajustes das aposentadorias dos aumentos reais do salário mínimo foi atribuída a integrantes da campanha em publicação da CUT. Posteriormente, Adolfo Sachsida afirmou, conforme noticiou a Reuters, que a vinculação seria preservada. Essa negativa precisa ser registrada, mas também confrontada com compromissos claros: quais despesas serão cortadas, quais direitos serão preservados e como pretendem realizar o ajuste fiscal anunciado? O eleitor merece conhecer essas respostas antes de entregar seu voto.

O mesmo cuidado vale para a Previdência. Rogério Marinho sinalizou a intenção de promover outra revisão do sistema, mas os parâmetros dessa mudança permanecem sem esclarecimento suficiente. Não há confirmação sólida, nas fontes consultadas, de que aposentadorias aos 65 anos para mulheres e aos 70 para homens constituam uma proposta oficial da candidatura. Há, contudo, motivo para cobrar uma resposta inequívoca sobre o aumento das idades e o endurecimento das condições de acesso ao benefício. Deixar esse debate para depois da eleição significa pedir autorização para governar sem apresentar previamente o tamanho do sacrifício exigido.

Retirar dos benefícios os ganhos reais associados à valorização do salário mínimo significaria excluir aposentados dessa melhoria de renda. Elevar a idade de aposentadoria, por sua vez, imporia mais anos de trabalho a pessoas que já enfrentam desgaste físico, desemprego e dificuldade de permanecer no mercado formal. Para as mulheres, seria preciso considerar ainda a sobrecarga do trabalho doméstico e de cuidado. Aquilo que aparece nas planilhas como contenção de despesas se traduz, na vida cotidiana, em menos proteção e mais insegurança.

Por isso, a resposta ao apito precisa trazer a discussão de volta ao salário, à aposentadoria, à jornada e aos serviços públicos. O STF deve estar sujeito ao escrutínio público, como qualquer instituição, mas transformar o impeachment de seus ministros em promessa central de campanha favorece uma eleição movida pelo ressentimento e esvazia o debate sobre direitos. Enquanto Flávio Bolsonaro aponta para o Supremo, cabe aos trabalhadores conferir o que seu grupo pretende fazer com o bolso e com o futuro de quem vive do próprio trabalho. O entusiasmo com a revanche pode acabar servindo de autorização para um novo ataque às condições de vida da maioria.

Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental. Pesquisador principal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, Fase III (2008-2028).


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Fonte: Blog do Pedlowski

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