Nobel de Economia prova que Keynes está mais vivo do que nunca, e que os neoliberais já eram
Por Paulo Henrique Arantes — Brasil 247
Poucas rivalidades moldaram tanto a sociedade moderna quanto a guerra intelectual entre o britânico John Maynard Keynes e o austríaco Friedrich Hayek na primeira metade do Século XX. Durante a década de 1980, com a ascensão de Margaret Thatcher, no Reino Unido, e Ronald Reagan, nos Estados Unidos, e a louvação à Escola de Chicago de Milton Friedman, pareceu que a cartilha do Estado Mínimo dominara as mentes em definitivo. O mercado sem freios seria o regulador absoluto da vida humana.
O Século XXI implodiu esse dogma.
A concessão do Prêmio Nobel de Economia de 2026 aos americanos Robert E. Hall e Michael Woodford não é apenas uma honraria acadêmica. É o atestado de óbito do laissez-faire puro e a coroação definitiva de Keynes. O britânico não apenas sobreviveu ao teste do tempo – tornou-se o maestro indispensável das economias globais. A premiação de Hall e Woodford em Estocolmo joga luz sobre uma realidade que os defensores do livre mercado tentaram ignorar por décadas: o capitalismo, sem a mão visível do Estado, é cronicamente instável.
Importante destacar: os autores não pregam um keynesianismo puro, mas o desenvolvimento argumentativo da obra deles não existiria sem as premissas keynesianas.
Os trabalhos de Hall e Woodford foram estruturados há mais de 20 anos, mas ainda hoje confirmam o que os neoliberais nunca aprenderam: o livre mercado puro gera recessões involuntárias e desemprego em massa. Os laureados com o Nobel deram fundamentos microeconômicos rigorosos ao velho coração do pensamento keynesiano: a necessidade de um Banco Central ativo, que utilize a taxa de juros e a manipulação das expectativas do público (forward guidance) para estabilizar os ciclos econômicos antes que o pior aconteça.
O Nobel de 2026 chancela que os governos abandonaram a fantasia da autorregulação. Diante de pandemias, guerras, quebras de cadeias globais de suprimentos ou crises energéticas, a primeira atitude de qualquer nação desenvolvida é abrir o manual keynesiano: injetar liquidez, socorrer setores estratégicos e expandir o gasto público para garantir a paz social.
O contraste entre a eficácia dessa intervenção e a aplicação prática do neoliberalismo de Chicago revela por que o pensamento de Keynes recuperou sua predominância ética e técnica. Quando a teoria de Hayek e Friedman foi levada às suas últimas consequências, o resultado foi a eclosão de profundas tragédias sociais. O caso histórico do Chile é emblemático.
Sob a ditadura de Augusto Pinochet, os Chicago Boys implementaram o laboratório perfeito do livre mercado, privatizando totalmente a previdência sob o sistema de capitalização individual. Embora tenha gerado sucesso contábil inicial e inflado o mercado de capitais, a ausência do Estado jogou milhões de idosos na miséria absoluta, recebendo menos de um terço do salário mínimo. O esgarçamento do tecido social foi o combustível para as revoltas populares que paralisaram o Chile a partir de 2019, obrigando o Estado a intervir para reconstruir uma rede de proteção pública.
O cenário de tragédia repete-se na Argentina de Javier Milei. Sob o dogma do déficit zero e da desregulamentação total, o governo obteve superávits fiscais e reduziu a inflação no papel, mas ao custo de uma recessão brutal na economia real. A taxa de pobreza urbana saltou para impressionantes 32,3% e a indigência atingiu 7,5%. O fechamento de mais de 32 mil empresas e o colapso do consumo mostram o perigo de tratar a economia como uma ciência puramente matemática, ignorando-se o fator humano.
É disso que Keynes falava na década de 1930 ao cunhar sua frase mais famosa: “No longo prazo, estaremos todos mortos”. Para os neoliberais, a miséria e o desemprego são meros remédios amargos necessários para limpar o mercado. Para o keynesianismo, se a sociedade for destruída no processo de ajuste, não restará país para desfrutar da estabilidade futura.
A obsessão pelo controle da inflação e o uso da matemática rigorosa na economia são heranças diretas de Milton Friedman e dos críticos de Keynes dos anos 1970, alguns dos quais sobrevivem no Brasil e redigem editoriais para jornalões ultrapassados. No entanto, nessa teimosia teórica, houve uma capitulação forçada. O mundo atual pode até ser considerado hayekiano em sua base microeconômica — em que indivíduos consomem livremente e empresas competem —, mas é estritamente keynesiano no topo de sua governança.
O livre mercado provou ser um excelente motor para gerar riqueza para alguns, mas um péssimo piloto para guiar a sociedade em momentos de tempestade e promover justiça social. Ao consagrar a modelagem neokeynesiana de Woodford e Hall, a Real Academia Sueca de Ciências não premiou apenas o passado, mas reconheceu a única ferramenta capaz de sustentar o capitalismo no futuro.
O veredito do Século XXI é incontestável: os mercados precisam da alguma dose de liberdade para funcionar, mas os cidadãos precisam de Keynes para sobreviverem à cegueira social dos mercados. O pensamento do dândi britânico, se não reina intacto e absoluto, ainda serve de norte para quem enxerga a economia como uma ciência humana, não exata.
Fonte: Brasil 247