Nem esperar de braços cruzados, nem apostar nas eleições: é preciso construir o movimento a partir da base
Por Anasse Kazib — Esquerda Diário

Neste momento em que a mobilização da juventude abriu possibilidades importantes de retomar o enfrentamento ao governo, Anasse Kazib analisa o impasse da política da Intersindical e os limites da perspectiva institucional da LFI (França Insubmissa). Chegou a hora de levar o movimento dos trabalhadores para a batalha!
Confira abaixo o editorial político escrito por Anasse Kazib, trabalhador ferroviário que é militante do Révolution Permanente, partido-irmão do MRT na França, e candidato à eleição presidencial de 2027. Texto publicado originalmente em Révolution Permanente em 10/10/2026.
Recebi o relato da reunião da Intersindical [1] nacional, e é estarrecedor ver, mais uma vez, como as decisões da burocracia sindical desempenham um papel determinante para salvar o governo. As centrais sindicais CGT (Confederação Geral do Trabalho), FSU (Federação Sindical Unitária), Solidaires e FO (Força Operária) haviam proposto uma greve unificada para o dia 15 de outubro. Essa data poderia ter dado um verdadeiro impulso à mobilização estudantil, dois dias antes da jornada de lutas de 17 de outubro, e contribuído para ampliar a contestação. Mas a CFDT (Confederação Frances Democrática do Trabalho), a UNSA (União Nacional dos Sindicatos Autônomos) e a CFTC (Confederação Francesa dos Trabalhadores Cristãos) preferiram o dia 5 de novembro. Falando em nome da unidade sindical, quase todas as demais organizações, com exceção da Solidaires, acabaram aceitando essa proposta. Apesar de seu enorme peso, a CGT justificou esse recuo alegando a busca por um consenso…
É assim que a unidade sindical se transforma em uma armadilha: em vez de construir a correlação de forças necessária para vencer, alinhamos-nos à estratégia menos combativa para preservar a unidade entre as siglas. Pior ainda, o comunicado final da Intersindical sequer menciona o dia 17 de outubro, e a FO e a CFTC se opuseram à denúncia das “violências policiais” contra os estudantes do ensino médio. Assim, até mesmo a repressão foi retirada do comunicado, embora esteja no centro da mobilização. Isso é um escândalo.
Há vários dias, colegas ferroviários vêm me perguntando se existe um aviso prévio de greve para o dia 17 de outubro. Eles trabalham nos fins de semana e querem se mobilizar. Existe disposição para lutar. Mas as direções sindicais não fazem nada para criar as condições necessárias para que essa disposição convirja com a de outros setores. O problema não é que os trabalhadores não queiram lutar, mas que lhes sejam negados os meios para decidir coletivamente sobre a batalha a ser travada. É também assim que seria possível convencer os colegas que ainda não estão prontos para lutar.
Se os sindicalizados tivessem podido debater democraticamente a escolha entre 15 de outubro e 5 de novembro, quem teria optado por esperar mais três semanas? Ao tomar todas as decisões de cima para baixo, as direções colocam os trabalhadores diante de fatos consumados e, depois, virão dizer que a mobilização não avança porque as pessoas não querem lutar. No entanto, é justamente a estratégia delas que contribui para impedir a construção da correlação de forças necessária. Precisamos acabar com essa concepção de unidade sindical a qualquer preço e retomar o controle de nossas organizações. A unidade sindical não será construída pela aceitação das decisões das direções, mas pela imposição, a partir da base, de uma verdadeira estratégia de luta, debatida e decidida democraticamente pelos próprios trabalhadores. Isso é condição indispensável para construir uma mobilização capaz de vencer.
Mas a questão estratégica que se coloca hoje também diz respeito à esquerda institucional, especialmente à LFI (França Insubmissa). A LFI apoia a mobilização, e seus deputados estão presentes nas ruas e nos locais de luta. Mas qual estratégia ela propõe para ampliar concretamente o movimento? Onde estão os grupos de ação nas portas das fábricas e das empresas, para convencer os trabalhadores a aderir à luta? Onde está o enfrentamento político com as direções sindicais que promovem a espera passiva e desarmam o movimento? Existe uma enorme diferença entre a presença da LFI ao lado dos estudantes do ensino médio e a ausência de uma estratégia clara para resolver os problemas estratégicos pelos quais o movimento é confrontado.
Mas não se trata simplesmente de falta de iniciativa. Isso é resultado de um projeto fundamentalmente institucional. A LFI quer se apresentar como uma saída política para a revolta, na esperança de que se traduza em uma saída eleitoral. Sua estratégia e seus métodos são adequados para apoiar a luta, mas não para construir ativamente as condições de uma mobilização capaz de alterar a correlação de forças a partir da base. Porque, para vencer, é preciso atuar ativamente para ampliar a greve, organizar a convergência entre os setores mobilizados e os trabalhadores, contestar as escolhas das direções sindicais e contribuir para a organização independente daqueles e daquelas que lutam, tanto nos locais de estudo quanto nos locais de trabalho. A LFI dispõe de militantes, grupos de ação e está presente em todo o território nacional, recursos que poderiam ser mobilizados nesse sentido, mas esse não é o seu projeto.
Maio de 1968, no entanto, nos lembra o que pode acontecer quando o mundo do trabalho entra massivamente na luta ao lado da juventude. Naquela época, milhões de trabalhadores em greve aderiram ao movimento e abriram uma crise política de proporções históricas. Essa questão é ainda mais urgente porque o RN (Reunião Nacional, partido de extrema direita de Marine Le Pen) está às portas do poder. Não faremos a extrema direita recuar de maneira duradoura esperando pelas próximas eleições, mas sim construindo uma correlação de forças que demonstre que é a nossa mobilização que pode melhorar a vida de todas e todos. Basta observar como a extrema direita já está desconfortável diante da situação, com seu programa de seleção escolar por desempenho já desde os 11 anos de idade e sua rejeição a um movimento apoiado pela maioria da população. A mobilização em curso pode contribuir para enfraquecer o RN, mas, para isso, precisa servir à reconstrução de uma capacidade coletiva de luta, à conquista de vitórias e à demonstração concreta de que os trabalhadores podem transformar suas condições de vida por meio de sua própria ação. Esse é um dos limites da esquerda institucional, que oferece poucas perspectivas para organizar a revolta a partir da base, tanto durante a mobilização quanto depois dela.
Em suma, é porque as direções sindicais procuram conter as mobilizações, e porque setores da esquerda como a LFI as subordinam a uma perspectiva institucional, que temos necessidade de outra estratégia. Uma estratégia que parta dos trabalhadores, da juventude e de sua força; que desenvolva a auto-organização na base, permitindo que o movimento controle seu próprio rumo, se amplie, coordene os diferentes setores e construa uma correlação de forças até a vitória. É isso que defendemos desde o Révolution Permanente, pois esse é o papel de uma organização revolucionária: defender uma estratégia revolucionária que procure levar ao máximo o potencial do movimento, devolver à nossa classe e à juventude a confiança em sua capacidade de lutar e avançar ainda mais, e oferecer-lhes uma perspectiva independente do Estado, que permita articular a luta em curso com o horizonte de um confronto com o sistema capitalista e com a necessidade da revolução para oferecer outro futuro à juventude!
[1] A Intersindical (em francês, “Intersyndicale”) é o principal organismo de coordenação entre os diferentes sindicatos e centrais sindicais francesas.
Fonte: Esquerda Diário