Murilo Hidalgo, do Paraná Pesquisas: “Lula só vira se tirar votos de Flávio”

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Por Redação Brasil 247 — Brasil 247

247 – Em análise detalhada concedida ao jornalista Leonardo Attuch na TV 247, Murilo Hidalgo, diretor do instituto Paraná Pesquisas, avaliou os números do primeiro turno das eleições presidenciais e os caminhos estratégicos para a rodada final da disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Para o especialista, embora o senador largue na frente com certa vantagem após uma arrancada nas últimas 24 horas antes da votação, a eleição segue completamente aberta — mas exige do petista uma estratégia ofensiva de conversão direta de votos.

“A tarefa não é fácil: ao meu ver, Lula vai ter que tirar voto do Flávio. Não basta conquistar novos eleitores, vai ter que tirar”, afirmou Hidalgo, sintetizando a matemática necessária para uma virada eleitoral.

A arrancada do voto útil na reta final

Explicando a dinâmica do primeiro turno, Hidalgo revelou que o instituto havia fechado contrato de exclusividade com uma instituição financeira e vinha monitorando de perto o estreitamento da margem. Segundo ele, a consolidação de Flávio Bolsonaro cerca de dois pontos percentuais à frente de Lula decorreu de uma migração abrupta de votos na véspera do pleito:

  • Esvaziamento da terceira via: Candidatos alternativos, que somavam cerca de 14% das intenções cinco dias antes do pleito, desidrataram para a faixa de 8% nas urnas.
  • Destino do voto útil: Cerca de 65% desses eleitores migraram diretamente para o senador Flávio Bolsonaro nas últimas horas de campanha.
  • Distribuição entre candidaturas: Levantamentos internos apontavam que aproximadamente 70% dos eleitores de Ronaldo Caiado declaravam voto em Flávio num eventual segundo turno (contra cerca de 15% para Lula), cenário semelhante aos votantes de Renan Santos, enquanto o eleitorado de Augusto Cury mostrava-se ligeiramente mais equilibrado (60% pró-Flávio e 40% pró-Lula).

Expectativa das primeiras pesquisas de segundo turno

Com a inércia do resultado das urnas e a campanha momentaneamente parada antes do início do horário eleitoral no rádio e na televisão, Hidalgo projetou que os primeiros levantamentos mostrem Flávio Bolsonaro liderando acima da margem de erro:

“A expectativa que se tem no mercado é que o Flávio venha acima da margem de erro em cima do Lula nesse segundo turno — algo na linha de 52% a 48% ou 53% a 47% em votos válidos. Mas é o começo de uma eleição, não é o final.”

O pesquisador também recordou o desempenho do Paraná Pesquisas em eleições passadas e estaduais, pontuando que o instituto previu a vitória de Sergio Moro no Paraná em primeiro turno e alcançou a marca exata de 50,1% nas projeções.

O mito da abstenção: por que mobilizar faltosos pode não ajudar o governo

Derrubando uma das teses mais ventiladas pela coordenação de campanha governista, Hidalgo alertou que apostar na redução da abstenção para alcançar a virada é uma estratégia de alto risco e provavelmente ineficaz:

  1. Estabilidade histórica: A abstenção no Brasil gira de modo estático em torno de 20% a 21% dos eleitores.
  2. Distribuição regional: Na comparação com a eleição anterior, a abstenção subiu nas praças mais favoráveis à oposição — aumentando 0,8 ponto no Sudeste, 0,4 ponto no Centro-Oeste e 1 ponto no Sul.
  3. Nordeste já mobilizado: As regiões onde a taxa de abstenção caiu foram o Norte e o Nordeste, bases consolidadas de Lula.

“Se tiver uma campanha maciça para diminuir a abstenção, isso ajudaria Flávio Bolsonaro, porque os eleitores do Sul e do Sudeste que não compareceram iriam às urnas. Não acredito que uma virada venha pela abstenção”, explicou.

Os três nós centrais que Lula precisa desatar

De acordo com as pesquisas qualitativas e quantitativas do instituto, temas tradicionais de disputa política, como acusações mútuas de corrupção, perderam poder de atração popular por estarem generalizados no imaginário do eleitorado. Por outro lado, três vulnerabilidades pesam fortemente contra o governo federal:

  • Economia do bolso e endividamento: O dinheiro não tem chegado ao fim do mês. A pressão contínua nos preços de alimentos nos supermercados e a escalada das dívidas familiares corroem o poder de compra e alimentam a frustração popular.
  • Segurança Pública: Embora a competência administrativa direta seja dos governos estaduais, a população cobra respostas práticas do Planalto diante da sensação crônica de insegurança.
  • O impacto da crise no STF: Para Hidalgo, o desgaste do Supremo Tribunal Federal foi decisivo na reta final. A indisposição de parte expressiva da sociedade com a atuação de ministros da Corte respingou diretamente na imagem do presidente, fortalecendo discursos da oposição e pavimentando votações conservadoras no Congresso.

A polêmica das “bets”: “Tiro no pé” da articulação governista

Questionado sobre a investida governamental contra os sites de apostas esportivas, Murilo Hidalgo avaliou a iniciativa como precipitada e contraproducente:

“Foi um tiro no pé. Venderam a ideia de que a dívida do brasileiro é culpa das bets, mas as pesquisas mostram que 75% a 80% das pessoas apostam por diversão e lazer, não por vício compulsivo. O brasileiro se endivida porque as contas não fecham, com déficits de R$ 50 a R$ 80 todo mês, somados a juros abusivos. Além disso, a medida comprou briga com clubes e torcidas de futebol e acabou sendo abandonada logo em seguida.”

O analista apontou que o governo precisa apresentar soluções concretas de renegociação e alívio do custo do crédito, em vez de focar o discurso em restrições ao consumo ou à oferta de empréstimos.

A fórmula de 2006 e o papel dos debates

Para vencer a eleição, a campanha petista precisa repetir um movimento semelhante ao de 2006, quando Geraldo Alckmin terminou o segundo turno com menos votos nominais do que havia conquistado no primeiro. Isso demandará a desconstrução consistente de Flávio Bolsonaro, aproveitando o protagonismo de figuras de centro como o próprio vice-presidente Geraldo Alckmin para dialogar com quem votou na oposição por rejeição a Lula.

Por fim, Hidalgo enfatizou que uma diferença em torno de 1,9 a 2 pontos percentuais é plenamente reversível. Ele lembrou que, em 2022, Jair Bolsonaro cortou uma desvantagem de cinco pontos para apenas 1,7 ponto no desfecho.

“Quem disser que a eleição já acabou está completamente enganado. Ela começa de novo agora. Como não houve debates no primeiro turno, o confronto direto e os cortes para as redes sociais serão absolutamente decisivos. Há um favoritismo inicial para Flávio, mas afirmar que a fatura está liquidada é mera torcida”, concluiu.

Fonte: Brasil 247

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