Mulheres negras cobram poder, reparação e Bem Viver nas eleições de 2026

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Por NINJAMídia NINJA

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Manifesto leva para a disputa eleitoral reivindicações sobre representação política, saúde, educação, combate às violências, orçamento público, cultura, clima e reparação histórica

Por Vinicius Francisco

Nas eleições de 2026, organizações do movimento de mulheres negras colocam uma cobrança mais profunda no debate: não basta ajudar a escolher quem governa, é preciso também ocupar os espaços onde as decisões são tomadas.

Essa é uma das ideias centrais do manifesto apresentado em 26 de agosto pela Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB). O “Manifesto Político das Mulheres Negras do Brasil: Pacto do Bem Viver e as Eleições 2026” foi construído a partir do acúmulo político dos movimentos e das mobilizações em torno da Marcha Global das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, e reúne propostas para o presente e para o país que vai chegar a 2030.

O documento critica a falta de recursos para candidaturas negras, especialmente de mulheres, a concentração de poder nas mãos de oligarquias políticas e a ausência de mulheres negras nas principais disputas estaduais. Para o movimento, aumentar o número de candidaturas não resolve o problema se essas mulheres continuarem sem estrutura, financiamento e condições reais de disputar o poder.

A reivindicação é por presença efetiva tanto no Legislativo quanto no Executivo, não apenas como eleitoras ou destinatárias de políticas públicas, mas como lideranças capazes de formulá-las, administrá-las e ajudar a decidir os rumos do país.

Segundo o manifesto, mulheres negras representam 28% da população brasileira, cerca de 58 milhões de pessoas. É nesse ponto que entra outra palavra central no documento: reparação. A proposta parte do reconhecimento de que os efeitos da escravidão não terminaram com a abolição. A escravidão acabou, mas a população negra foi desassistida no pós-abolição, as desigualdades atravessaram gerações e continuam aparecendo no acesso ao poder, à renda, à educação, à saúde e a outros direitos. Por isso, fazer reparação é enfrentar os desafios do presente.

Essa perspectiva conecta reivindicações que muitas vezes aparecem separadas durante uma campanha. Na educação, o manifesto cobra acesso, permanência e ampliação das ações afirmativas, como as políticas de cotas. Na saúde, defende atendimento universal. Também reivindica segurança alimentar e o enfrentamento às violências que atingem de forma desproporcional as mulheres negras, entre elas o feminicídio, a violência obstétrica, praticada durante a gestação, o parto ou o pós-parto, e a violência simbólica, que naturaliza discriminações e desigualdades.

A lista passa ainda pelo combate ao racismo religioso, justiça climática, maior participação nos espaços de visibilidade pública e presença das mulheres negras na gestão da cadeia cultural, não apenas produzindo arte e cultura, mas participando das decisões sobre financiamento, circulação e gestão desse setor.

“Colocar as mulheres negras no centro do processo político […] é precondição para a formulação de políticas públicas efetivas”, afirma Janira Sodré, coordenadora executiva da AMNB.

E ocupar o poder, para o movimento, significa também discutir quem decide para onde vai o dinheiro público. O manifesto propõe novas formas de relação entre Executivo e Legislativo, mudanças na definição das prioridades nacionais e critica o chamado orçamento impositivo, mecanismo que torna obrigatória a execução de determinadas emendas parlamentares. A Articulação defende que esse modelo deixe de existir.

O documento também coloca em discussão o pacto fiscal e os rumos da reforma tributária, mas argumenta que é preciso ir além das contas públicas. Questiona os limites da democracia representativa e propõe ampliar a imaginação política sobre outras formas de participação e construção coletiva das decisões.

Essa discussão chega à emergência climática. Para a AMNB, pensar o Brasil passa necessariamente por reconhecer que os impactos ambientais não são distribuídos de maneira igual. A crise climática se soma a um cenário internacional marcado, segundo a carta, pelo crescimento da extrema direita, do populismo e do tecnoautoritarismo, quando tecnologias e grandes estruturas de dados passam a ser usadas para concentrar e ampliar poder. O manifesto também chama atenção para guerras híbridas, novas formas de pressão internacional sobre países latino-americanos e para o avanço de um modelo econômico cada vez mais orientado pelo poder financeiro e pelos algoritmos.

É diante desse cenário que aparece o Bem Viver, conceito que dá nome ao pacto. A ideia propõe que uma sociedade não seja avaliada apenas pelo crescimento da economia, mas também pela capacidade de garantir justiça, equidade, cuidado, relação sustentável com a natureza e qualidade de vida.

Na prática, significa olhar para uma grande obra, por exemplo, e não perguntar somente quanto dinheiro ou quantos empregos ela pode gerar. É perguntar também quem será beneficiado, quem poderá ser deslocado de seu território, qual será o impacto ambiental e se aquela decisão realmente melhora a vida de quem vive ali.

O documento defende, por fim, um pacto federativo capaz de reconhecer a pluralidade do Brasil e ampliar o protagonismo de mulheres negras e de outros grupos historicamente discriminados. Para a AMNB, enfrentar desigualdades históricas é parte indispensável de qualquer projeto que pretenda discutir o futuro do país.

Mais do que apresentar uma lista de demandas para candidatas e candidatos, o documento reivindica uma mudança de lugar para as mulheres negras na democracia brasileira.

Não apenas votar em quem decide, mas estar entre quem decide.

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Fonte: Mídia NINJA

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