25 anos depois do 11 de setembro, o que mudou no Oriente Médio?
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 — Vinte e cinco anos depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, poucas regiões do planeta foram tão profundamente transformadas por suas consequências quanto o Oriente Médio. Os ataques da Al-Qaeda contra os Estados Unidos mataram quase 3 mil pessoas, produziram um trauma histórico na sociedade norte-americana e deram início a uma resposta militar que ultrapassaria em muito a perseguição aos responsáveis pela tragédia.
Nascia a chamada “Guerra ao Terror”. Sob o governo de George W. Bush, os Estados Unidos invadiram o Afeganistão ainda em 2001, com o objetivo declarado de destruir a Al-Qaeda e derrubar o regime Talibã que abrigava Osama bin Laden. Dois anos depois, em março de 2003, tropas norte-americanas e de seus aliados invadiram o Iraque e derrubaram Saddam Hussein.
A partir daquele momento, uma sucessão de guerras, ocupações, insurgências, atentados, intervenções estrangeiras e conflitos internos transformaria profundamente o mapa político do Oriente Médio e de regiões vizinhas.
A guerra do Iraque e as armas que nunca apareceram
Poucos episódios ilustram melhor as contradições da era inaugurada pelo 11 de setembro do que a invasão do Iraque.
O governo Bush sustentou que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa e que o regime iraquiano representava uma ameaça à segurança internacional. Essa alegação tornou-se um dos argumentos centrais utilizados para justificar a guerra.
Depois da invasão, porém, as armas que deveriam comprovar a principal acusação jamais foram encontradas. As extensas investigações conduzidas no território iraquiano não localizaram os estoques clandestinos de armas químicas e biológicas que haviam sido apresentados como ameaça imediata antes da guerra.
O fato tornou-se uma das maiores crises de credibilidade da política externa norte-americana contemporânea.
Saddam Hussein foi derrubado rapidamente, mas a vitória militar abriu um problema muito maior. A dissolução de estruturas do Estado e das Forças Armadas iraquianas contribuiu para produzir um enorme vazio de poder. O país mergulhou em uma insurgência, seguida por violência sectária entre sunitas e xiitas.
O Iraque nunca mais seria o mesmo.
Uma guerra que fortaleceu o Irã
A invasão produziu ainda uma consequência geopolítica que dificilmente fazia parte dos objetivos de Washington: o fortalecimento do Irã.
Saddam Hussein havia sido durante décadas um dos principais adversários de Teerã. Iraque e Irã travaram entre 1980 e 1988 uma das guerras mais sangrentas da segunda metade do século XX. Quando os Estados Unidos derrubaram Saddam e destruíram a estrutura política que sustentava seu regime, eliminaram também um dos principais contrapesos regionais ao poder iraniano.
A ascensão política de forças xiitas no novo Iraque aproximou parcelas importantes da estrutura de poder iraquiana de Teerã. Organizações e milícias apoiadas pelo Irã passaram a exercer influência significativa no país.
Assim, uma guerra concebida em Washington para ampliar a segurança e a influência norte-americanas acabou contribuindo, paradoxalmente, para aumentar o peso estratégico de seu principal adversário regional.
Da Al-Qaeda ao Estado Islâmico
Outra consequência dramática foi a transformação do próprio terrorismo jihadista.
A Al-Qaeda sofreu golpes profundos nas décadas seguintes ao 11 de setembro. Osama bin Laden foi morto por forças norte-americanas no Paquistão em 2011. Sua organização perdeu parte significativa da capacidade centralizada que possuía no início do século.
Mas o jihadismo não desapareceu.
O caos produzido pela guerra do Iraque favoreceu o surgimento e a expansão de organizações ainda mais violentas. A Al-Qaeda no Iraque, comandada inicialmente por Abu Musab al-Zarqawi, foi uma das matrizes do grupo que posteriormente se transformaria no Estado Islâmico.
Em 2014, o Estado Islâmico conquistou extensas áreas do Iraque e da Síria e chegou a proclamar um “califado” com capital em Raqqa. Sua ascensão mostrou uma das grandes ironias da Guerra ao Terror: a destruição de determinadas organizações não eliminou as condições políticas e sociais que permitiam o surgimento de outras.
O chamado califado territorial acabou derrotado, mas organizações jihadistas sobreviveram e se fragmentaram em redes que hoje operam em diferentes partes da Ásia, do Oriente Médio e, cada vez mais, da África.
O preço humano das guerras
O custo dessa transformação foi gigantesco.
O projeto Costs of War, da Universidade Brown, estima que as guerras conduzidas pelos Estados Unidos depois do 11 de setembro provocaram entre 905 mil e 940 mil mortes diretas por violência até 2023, considerando militares, combatentes, jornalistas, trabalhadores humanitários e civis em diferentes zonas de conflito.
Quando são consideradas também as mortes indiretas provocadas pela destruição de sistemas de saúde, infraestrutura, abastecimento, economias locais e segurança alimentar, pesquisadores estimam que o número total de mortos nas zonas das guerras pós-11 de setembro possa alcançar pelo menos 4,5 milhões de pessoas.
Milhões de outras foram obrigadas a abandonar suas casas.
O custo financeiro também alcançou uma escala extraordinária. As estimativas do mesmo projeto indicam que os Estados Unidos gastaram ou assumiram obrigações superiores a US$ 8 trilhões relacionadas às guerras iniciadas depois de 2001.
O Afeganistão fecha um círculo histórico
Se existe uma imagem capaz de sintetizar as contradições desses 25 anos, ela talvez esteja no Afeganistão.
A primeira grande guerra lançada pelos Estados Unidos depois dos atentados teve como objetivo derrubar o Talibã e impedir que o território afegão voltasse a servir como base para organizações terroristas internacionais.
Os Estados Unidos permaneceram no país durante duas décadas.
Em agosto de 2021, retiraram suas últimas tropas. Pouco antes da saída definitiva, o Talibã havia retomado Cabul.
Depois de milhares de mortos, centenas de bilhões de dólares gastos e vinte anos de ocupação, o movimento derrubado em 2001 estava novamente no poder.
Um Oriente Médio mais fragmentado
O 11 de setembro também inaugurou um período no qual intervenções externas e crises internas se combinaram com transformações que já estavam em curso na região.
A Primavera Árabe, iniciada em 2010, derrubou governos e abriu novas disputas políticas. Na Síria, a revolta contra Bashar al-Assad transformou-se numa guerra devastadora envolvendo potências regionais e internacionais. No Iêmen, outra guerra produziu uma grave crise humanitária. A Líbia mergulhou em fragmentação depois da intervenção ocidental de 2011 e da queda de Muammar Gaddafi.
Ao mesmo tempo, a disputa entre Irã, Israel, Arábia Saudita, Turquia e outras potências regionais ganhou novas dimensões.
O Oriente Médio que emergiu desse quarto de século é menos dominado por uma única potência externa e mais marcado pela disputa entre diversos centros de poder.
Os limites do poder americano
Talvez essa seja uma das maiores transformações geopolíticas ocorridas desde 2001.
Imediatamente depois do 11 de setembro, os Estados Unidos estavam no auge do chamado momento unipolar. A União Soviética havia desaparecido uma década antes, a China ainda não possuía o peso econômico e estratégico atual e Washington parecia dispor de capacidade praticamente incontestável para reorganizar regiões inteiras do planeta.
As guerras seguintes demonstraram os limites desse poder.
Os Estados Unidos conseguiram derrubar governos em semanas. Descobriram, porém, que construir novas ordens políticas era infinitamente mais difícil.
Afeganistão e Iraque tornaram-se demonstrações de uma diferença fundamental entre poder militar e poder político: vencer uma guerra convencional não significa necessariamente construir a paz que virá depois dela.
Um mundo diferente daquele de 2001
Vinte e cinco anos depois, os Estados Unidos continuam sendo uma potência decisiva no Oriente Médio, mas já não atuam num mundo unipolar. A China tornou-se uma potência econômica central e ampliou sua presença diplomática e comercial na região. A Rússia também voltou a desempenhar papel relevante nas disputas do Oriente Médio, enquanto países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Turquia e Irã procuram exercer políticas externas cada vez mais autônomas.
O terrorismo que desencadeou a Guerra ao Terror tampouco desapareceu. Transformou-se. A Al-Qaeda perdeu a centralidade que possuía em 2001, mas diferentes organizações e redes jihadistas continuam operando em várias regiões.
O balanço de um quarto de século, portanto, contém uma profunda contradição.
Os Estados Unidos destruíram grande parte da estrutura da Al-Qaeda responsável pelos ataques de 2001 e mataram Osama bin Laden. Mas as guerras desencadeadas naquele período custaram trilhões de dólares, produziram centenas de milhares de mortes diretas, deslocaram milhões de pessoas e contribuíram para desestabilizar Estados inteiros.
E uma das guerras mais importantes dessa era, a invasão do Iraque, foi apresentada ao mundo sob a alegação de uma ameaça que nunca seria demonstrada: os estoques de armas de destruição em massa atribuídos ao regime de Saddam Hussein jamais foram encontrados.
Vinte e cinco anos depois do 11 de setembro, talvez essa seja uma das principais lições daquele período: uma superpotência pode possuir força suficiente para derrubar governos e redesenhar fronteiras do poder, mas nem mesmo a maior máquina militar do planeta consegue controlar todas as consequências políticas, sociais e humanas desencadeadas por uma guerra.
Fonte: Brasil 247