Mulher denuncia ter sido infectada intencionalmente com HIV pelo namorado em RO

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Por Laís GouveiaBrasil 247

247 – Uma mulher de Porto Velho relatou ter sido infectada intencionalmente com HIV pelo então namorado, o dentista Jean José Dunga, de 41 anos. O caso resultou na condenação do acusado a cinco anos de prisão em regime semiaberto e ao pagamento de R$ 50 mil de indenização. Ele ainda responde a outros processos relacionados à transmissão do vírus a outras mulheres.

Em entrevista ao, que revelou o relato nesta quinta-feira (10), a vítima, identificada pelo nome fictício de Maria para preservar sua identidade, contou que a descoberta da infecção ocorreu depois de uma sequência de problemas de saúde, incluindo febre, dores intensas e cansaço.

“Com certeza posso afirmar que foi o momento mais triste e mais difícil da minha vida”, lamenta.

Maria conheceu Jean por meio de um site de relacionamentos. Segundo ela, os dois começaram a namorar rapidamente e passaram a conviver com frequência. Após algum tempo, porém, ela começou a apresentar infecções persistentes, dores pelo corpo, vermelhidão, coceira, dor de cabeça e forte cansaço.

A vítima relatou que o próprio namorado chegou a oferecer tratamento para os sintomas e sugeriu que ela não informasse a família sobre a persistência da infecção.

“O Jean falou que ele poderia me prescrever o antibiótico, que não precisava contar pra ninguém da minha família que a infecção não havia passado, mas isso me acendeu uma pequena luz”, relata a vítima.

Com a piora do quadro, Maria decidiu realizar exames para descartar infecções sexualmente transmissíveis. O resultado apontou que ela havia contraído HIV. Ao procurar atendimento com uma infectologista, descobriu que Jean já era investigado pelo Ministério Público de Rondônia havia aproximadamente quatro meses.

“Ao me perguntarem o nome do meu antigo parceiro, correspondia ao do suspeito; se tratava da mesma pessoa. Eu era mais uma vítima do Jean”, relembra.

Segundo o Ministério Público de Rondônia, Jean é acusado de ter transmitido intencionalmente HIV a pelo menos quatro mulheres. As investigações tiveram origem em atendimentos realizados pelo Núcleo de Atendimento às Vítimas (Navit), estrutura do MP destinada a acolher pessoas em situação de violência. O órgão considera possível que outras vítimas ainda não tenham sido identificadas.

A denúncia apresentada pelo MP-RO sustenta que Jean sabia de seu diagnóstico de HIV havia cerca de dez anos e que teria optado por não aderir ao tratamento antirretroviral. Segundo a acusação, a ausência de tratamento teria ocorrido justamente com o objetivo de transmitir o vírus às pessoas com quem ele mantinha relacionamentos.

“Além de eu estar com uma doença incurável, fui contaminada de forma intencional, ou seja, de forma criminosa, por uma pessoa que havia usufruído de toda intimidade da minha casa e família, e pessoa que conhecia todas as minhas comorbidades e problemas emocionais”, lamenta.

“Quando fui infectada pelo Jean, ele não adoeceu somente a mim, ele adoeceu uma família inteira. Há um luto, ele atingiu todas as pessoas que me amam e estão ao meu lado”, complementa.

Maria procurou o Navit em 28 de maio. Segundo seu relato, a decisão de denunciar o então namorado ocorreu apesar do impacto emocional provocado pelo diagnóstico e pelo medo de exposição.

“Estava doendo, mas eu iria fazer o que tivesse que fazer. Ele poderia enfrentar a impunidade de outras pessoas e de outras vítimas, mas da minha parte jamais ele terá impunidade”, afirma Maria sobre a decisão de buscar as autoridades.

Jean foi preso em 10 de junho. Segundo o MP-RO, o pedido de prisão foi apresentado porque, apesar de já responder a uma ação penal, ele continuava mantendo contato com outras mulheres. Maria afirmou que, depois do fim do relacionamento, chegou a vê-lo acompanhado por outras pessoas.

“Terminei o namoro com ele no dia 30 de abril e a prisão ocorreu somente em 10 de junho. Nesse lapso temporal, ele foi visto saindo com duas moças diferentes. Não posso afirmar que eram namoradas, mas infelizmente ele teve tempo suficiente pra fazer novas vítimas”, alerta Maria.

O Ministério Público denunciou Jean pelos crimes de lesão corporal gravíssima e perigo de contágio de doença grave. Em relação a duas mulheres, ele também foi acusado de estupro. O órgão pediu ainda que o acusado seja responsabilizado pelos custos médicos e psicológicos das vítimas e ressarça o Sistema Único de Saúde pelos gastos com os tratamentos.

O primeiro processo julgado foi justamente o relacionado a Maria. Em 24 de agosto, Jean recebeu pena de cinco anos de prisão em regime semiaberto e foi condenado a pagar indenização de R$ 50 mil. Outros dois processos ainda tramitam na Justiça.

Após a condenação, o Ministério Público pediu uma nova prisão preventiva, sob o argumento de que havia risco de novas vítimas. A Justiça acatou o pedido na quarta-feira (9), e Jean voltou a ser preso.

Antes da condenação, a defesa de Jean afirmou ao g1 que prestava solidariedade às vítimas e sustentou que o acusado fazia tratamento antirretroviral e acreditava não haver risco de transmissão sexual do HIV. Depois da sentença, o advogado foi novamente procurado pela reportagem, mas não se manifestou.

A infectologista Mariana Vasconcelos destacou que os avanços no tratamento permitem que pessoas com HIV tenham expectativa de vida semelhante à da população em geral quando recebem diagnóstico precoce e seguem corretamente a medicação.

“Hoje em dia, o tratamento base no Brasil é feito com apenas dois comprimidos diários, que praticamente não têm efeitos colaterais. O paciente que faz o diagnóstico de forma precoce e toma a medicação direitinho tem uma expectativa de vida que se assemelha à da população geral”, tranquiliza a médica.

O tratamento adequado também pode reduzir a carga viral a níveis indetectáveis, condição em que o HIV não é transmitido sexualmente. Para Maria, no entanto, além das consequências médicas, permanece o impacto provocado pelo estigma associado à doença.

“Não posso me identificar sem sofrer prejuízos ou expor familiares a prejuízo social. Infelizmente, a sociedade ainda cobra um preço para esse tipo de contágio, ainda há um grande tabu social e as pessoas são muito cruéis com comentários às vítimas”, reforça Maria.

O Ministério Público de Rondônia afirma que possíveis vítimas podem procurar o Navit, delegacias especializadas de atendimento à mulher ou outras unidades policiais. Pessoas que suspeitem de exposição ao HIV também podem procurar unidades básicas de saúde e UPAs para realizar testes gratuitos e sigilosos.

“Não se sinta culpada. Parece o fim do mundo, mas não é. Procure ajuda no Navit ou nas delegacias especializadas. Que vocês saibam que não estão sozinhas nessa luta; tem muita gente nos bastidores que faz a justiça acontecer”.

Fonte: Brasil 247

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