Muito paradigma para pouca ciência: a universidade dos autoproclamados inovadores
Por Marcos Pędłowski — Blog do Pedlowski
Há algo se disseminando pelas universidades brasileiras que merece ser examinado com mais cuidado: a retórica da autoexcepcionalidade. Trata-se de uma forma de apresentar a atividade acadêmica na qual já não basta pesquisar, ensinar, publicar ou desenvolver uma tecnologia. É preciso apresentar cada iniciativa como ruptura, cada projeto como inovação, cada conceito como descoberta e cada experiência pessoal como demonstração de uma capacidade singular de enxergar aquilo que os outros ainda não conseguiram perceber.
Nesse universo discursivo, expressões como “pensar fora da caixa”, “romper paradigmas”, “construir novas possibilidades”, “produzir inovação” e “abrir caminhos onde antes não havia passagem” aparecem com frequência crescente. O problema não está propriamente nessas expressões, algumas das quais podem descrever processos intelectuais reais. A questão começa quando a grandiosidade da linguagem passa a substituir a demonstração da qualidade do que efetivamente foi produzido.
A ciência funciona exatamente ao contrário. Uma contribuição intelectual não se torna relevante porque seu autor declara que rompeu paradigmas ou porque uma plateia se emocionou diante de sua apresentação. Ela precisa sobreviver ao escrutínio dos pares, demonstrar consistência teórica e metodológica, dialogar seriamente com aquilo que já foi produzido e, sobretudo, apresentar evidências que permitam aos outros avaliar o alcance de suas conclusões. A relevância científica não deveria ser proclamada pelo próprio autor; deveria emergir da capacidade de seu trabalho resistir à crítica. A cultura da autoexcepcionalidade embaralha essa lógica. O pesquisador deixa progressivamente de apresentar apenas aquilo que fez e passa também a construir uma narrativa sobre sua própria excepcionalidade. Ele aparece como alguém que desafia estruturas rígidas, enfrenta resistências, pensa diferentemente e finalmente obtém o reconhecimento que confirmaria a originalidade de sua trajetória. A produção acadêmica transforma-se, assim, também em produção de personagem.
Esse fenômeno encontra terreno particularmente fértil numa universidade cada vez mais submetida à lógica da visibilidade. Redes sociais, assessorias de comunicação, eventos institucionais, rankings, indicadores, editais e métricas de produtividade criaram um ambiente no qual comunicar o impacto pode se tornar quase tão importante quanto demonstrá-lo. Em situações mais extremas, ocorre uma inversão preocupante: primeiro se proclama a excelência; depois se procura alguma evidência que possa sustentá-la. É nesse ambiente que produção intelectual de qualidade duvidosa pode circular revestida por uma linguagem de grande sofisticação. Conceitos complexos são mobilizados sem o necessário rigor teórico, palavras importadas do vocabulário empresarial são incorporadas ao discurso acadêmico e experiências relativamente banais passam a ser descritas como grandes rupturas epistemológicas. Quanto mais frágil é o conteúdo, maior pode ser a tentação de compensá-lo com uma retórica grandiosa.
Há ainda um problema adicional: a autoexcepcionalidade tende a apagar a natureza coletiva da produção do conhecimento. Universidades não funcionam graças a indivíduos iluminados que encontram sozinhos “linhas de fuga” onde ninguém mais percebeu passagem. Ciência depende de laboratórios, estudantes, técnicos, bibliotecas, financiamento público, debates, críticas, erros, revisões e de uma comunidade intelectual que acumula conhecimento ao longo do tempo. Mesmo as contribuições verdadeiramente originais surgem dentro dessa infraestrutura coletiva.
Talvez por isso uma das virtudes acadêmicas mais importantes seja justamente aquela que parece estar perdendo espaço: a modéstia intelectual. Não a falsa modéstia performática, mas a consciência de que qualquer trabalho possui limites, de que nossas ideias podem estar erradas e de que conceitos sofisticados não dispensam evidências sólidas.
A universidade deveria ser um dos lugares onde afirmações extraordinárias encontram as perguntas mais difíceis. Quando acontece o contrário, e a grandiosidade da narrativa passa a proteger a fragilidade do conteúdo, surge uma espécie de inflação acadêmica: multiplicam-se as “inovações”, as “rupturas”, os “novos paradigmas” e as experiências supostamente transformadoras, enquanto se torna cada vez mais difícil identificar onde está efetivamente a contribuição original. Talvez esteja aí um dos paradoxos da universidade contemporânea: nunca se falou tanto em excelência, inovação e transformação, mas a repetição incessante dessas palavras não necessariamente veio acompanhada de igual crescimento da qualidade intelectual.
No fim, existe um teste bastante simples. Quem realmente produz conhecimento novo não precisa anunciar a cada parágrafo que pensa fora da caixa. Pode simplesmente abrir a caixa, colocar o trabalho sobre a mesa e deixar que os outros examinem o que há dentro.
Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental. Pesquisador principal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, Fase III (2008-2028).
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Fonte: Blog do Pedlowski
