MPGO denuncia médico por morte de paciente asmático em UPA de Caldas Novas

0

Por Giovanna CamposJornal Opção

MPGO denuncia médico por morte de paciente asmático em UPA de Caldas Novas

O Ministério Público de Goiás (MPGO) denunciou um médico por homicídio culposo pela morte de Francisco Guilherme da Costa Silva, de 24 anos, na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Caldas Novas. A denúncia, apresentada pela 7ª Promotoria de Justiça do município, já foi recebida pela Justiça.

Segundo o MPGO, o paciente tinha asma desde a infância e usava diariamente o medicamento salbutamol, um broncodilatador utilizado para aliviar dificuldades respiratórias. Em 15 de fevereiro de 2025, ele começou a apresentar sintomas de uma crise asmática e foi levado à UPA pela mãe.

Na unidade, Francisco passou pela triagem e foi classificado como caso de “urgência menor”. Ele permaneceu cerca de uma hora e 40 minutos aguardando atendimento, enquanto, segundo a denúncia, seu estado de saúde piorava.

Diante da situação, a mãe pediu ajuda a um médico que passava pelo corredor. Francisco foi levado para a sala vermelha, destinada a casos mais graves. O atendimento ficou sob responsabilidade do médico denunciado, que fazia seu primeiro plantão na unidade.

Intubação e complicações

De acordo com a denúncia apresentada pela promotora de Justiça Ariane Patrícia Gonçalves, o médico iniciou o atendimento com oxigênio e acesso venoso. Como o quadro respiratório piorou, foram utilizados procedimentos para manter as vias aéreas abertas.

Primeiro, o paciente recebeu ventilação com uma bolsa ligada a uma máscara. Depois, foi colocada uma máscara laríngea, com uso de medicamentos para sedação. Houve uma melhora inicial na oxigenação, mas o quadro voltou a se agravar.

O médico decidiu então realizar uma intubação orotraqueal, procedimento usado para colocar um tubo na traqueia e auxiliar a respiração. Segundo a denúncia, foram necessárias duas tentativas para conseguir realizar o procedimento.

Posteriormente, uma médica do Samu identificou que o tubo estava fora da traqueia e dobrado na região da epiglote. Com isso, o ar utilizado na ventilação mecânica não chegava adequadamente aos pulmões e era direcionado para o abdômen.

Ainda segundo a investigação, o paciente continuou recebendo ventilação mecânica com pressão elevada. A situação provocou lesões graves nos pulmões e outras complicações, entre elas pneumotórax, hemotórax e enfisema subcutâneo.

Em termos simples, o excesso de pressão causado pela ventilação provocou lesões no sistema respiratório e permitiu o acúmulo de ar e sangue na região do tórax.

Paciente sofreu parada cardiorrespiratória

Com o agravamento do quadro, Francisco sofreu uma parada cardiorrespiratória. A equipe iniciou as manobras de reanimação e administrou doses de adrenalina.

Durante o atendimento, foi identificado o pneumotórax, e os profissionais realizaram uma drenagem nos dois lados do tórax. A médica do Samu também substituiu o tubo de intubação e confirmou que o dispositivo utilizado anteriormente estava mal posicionado.

Apesar das tentativas de reanimação, Francisco não resistiu e morreu.

O Serviço de Verificação de Óbito (SVO) chegou a ser acionado, mas não realizou o procedimento após identificar a possibilidade de uma perfuração na traqueia. O corpo foi então encaminhado ao Instituto Médico-Legal (IML) para exame cadavérico.

Perícia aponta falhas no atendimento

O laudo do exame cadavérico apontou uma relação entre as complicações respiratórias e a conduta adotada durante o atendimento. O documento identificou diversas lesões nos pulmões, presença de sangue na cavidade torácica e ar infiltrado na pele, entre outras alterações.

Para o perito responsável pelo exame, houve falhas na condução do atendimento médico. O documento também aponta que o prontuário não apresentava informações detalhadas sobre o estado clínico do paciente.

Segundo o laudo, faltavam registros completos de exame físico, ausculta dos pulmões e do coração, frequência respiratória e evolução do quadro. O prontuário apresentava apenas registros genéricos sobre a piora do paciente.

A perícia também apontou que os dados iniciais de saturação de oxigênio e frequência cardíaca não indicavam, naquele momento, uma falência respiratória iminente. O documento destacou ainda a ausência de uma gasometria arterial, exame que verifica os níveis de oxigênio e gás carbônico no sangue.

O perito considerou que a intubação pode ter sido realizada de forma precipitada e sem que fossem suficientemente avaliadas alternativas menos invasivas. O laudo também apontou que a piora apresentada pelo paciente poderia estar relacionada aos efeitos dos medicamentos utilizados durante o atendimento, e não necessariamente apenas à evolução da crise de asma.

Causa da morte

Segundo o exame cadavérico, Francisco morreu em decorrência de complicações respiratórias provocadas por barotrauma durante a ventilação mecânica invasiva.

O barotrauma ocorre quando a pressão utilizada para ajudar na respiração provoca lesões nos pulmões. No caso analisado pela perícia, o problema teria sido agravado pelo posicionamento incorreto do tubo utilizado na intubação.

O laudo concluiu que a forma como o suporte respiratório foi conduzido contribuiu para a dificuldade de estabilização do paciente e para o resultado fatal.

Médico recusou acordos propostos pelo MPGO

Antes de apresentar a denúncia à Justiça, o Ministério Público ofereceu ao médico a possibilidade de um Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) e também a suspensão condicional do processo. O médico recusou as duas alternativas.

Com isso, o MPGO decidiu seguir com a ação penal.

Na denúncia, o Ministério Público pede que o médico seja condenado pelo crime de homicídio culposo, previsto no artigo 121, parágrafos 3º e 4º, do Código Penal.

A promotoria também solicita que a Justiça fixe uma indenização mínima de R$ 200 mil à família de Francisco Guilherme, sem prejuízo de eventual definição de outro valor posteriormente.

O post MPGO denuncia médico por morte de paciente asmático em UPA de Caldas Novas apareceu primeiro em Jornal Opção.

Fonte: Jornal Opção

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *