Motta pediu para falar com Vorcaro horas antes de reunião no Banco Central, aponta PF
Por Paulo Emilio — Brasil 247
247 – Um contato entre o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e Daniel Vorcaro ocorreu na manhã de 19 de julho de 2025, pouco antes de o então controlador do Banco Master participar de uma reunião com a cúpula do Banco Central para discutir a operação envolvendo a instituição financeira e o Banco de Brasília (BRB).
Segundo a coluna da jornalista Malu Gaspar, de O Globo, mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro mostram que Motta procurou o banqueiro por volta das 7h daquele sábado e disse que gostaria de conversar com ele “antes da reunião”. A audiência no Banco Central estava prevista para começar às 9h. Logo depois o presidente da Câmara escreveu: “me liga quando puder”.
Vorcaro telefonou para Motta no mesmo minuto. A chamada durou 1 minuto e 48 segundos. As informações divulgadas não revelam o conteúdo da conversa, portanto não é possível determinar, apenas a partir dos registros telefônicos, quais assuntos foram tratados pelos dois.
Ligação ocorreu antes de encontro com Galípolo
Naquela manhã, Vorcaro e seu sócio, Augusto Lima, encontraram-se com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, o diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino, e Gilneu Vivan, então responsável pela área de Regulação.
Segundo O Globo, a audiência ocorreu das 9h às 10h no edifício-sede do BC, em Brasília. Oficialmente, o encontro trataria de dúvidas relacionadas à documentação necessária para a operação envolvendo o Banco Master e o BRB.
O contato entre Motta e Vorcaro ocorreu em um momento particularmente sensível para o Master. Naquele período, o Banco Central examinava operações envolvendo carteiras de crédito negociadas entre as duas instituições.
O próprio BC informou posteriormente que sua área de Supervisão identificou inconsistências nessas operações e iniciou investigações que, segundo a autoridade monetária, demonstraram a “insubsistência dos ativos” integrantes das carteiras.
A instituição também informou que os indícios de ilícitos criminais foram comunicados ao Ministério Público Federal, acompanhados de documentação e análises técnicas. A autoridade monetária afirmou ainda ter adotado medida prudencial preventiva para impedir novas operações com impacto sobre a liquidez do BRB.
Segundo a reportagem, quatro dias antes da conversa entre Motta e Vorcaro, em 15 de julho, o BC havia notificado o MPF sobre indícios de crime no sistema financeiro relacionados às operações.
Segundo telefonema ocorreu no fim do dia
Os registros indicam que o diálogo entre os dois não ficou restrito à conversa realizada antes da audiência.
No fim da tarde de 19 de julho, Motta teria telefonado para Vorcaro. Desta vez, a chamada durou 2 minutos e 24 segundos. Assim como no primeiro telefonema, não foi divulgado o conteúdo da conversa.
Mensagens mostram como Vorcaro descrevia relação com Motta
Outros dados extraídos pela Polícia Federal do celular do ex-banqueiro mostram que Vorcaro descrevia sua relação com o presidente da Câmara como próxima.
Em 2 de fevereiro de 2025, durante uma conversa com seu diretor jurídico, Luiz Rennó, Vorcaro afirmou que estava em Brasília “com Davi e Hugo”, referências ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e a Hugo Motta.
Questionado pelo advogado se “transita bem” com o presidente da Câmara, Vorcaro respondeu: “transito bem? Kkkk. Sou ‘number 1’. Amigo irmão”
A conversa aconteceu um dia depois da eleição de Motta para a presidência da Câmara. O deputado paraibano venceu a disputa em primeiro turno com 444 votos e apoio de uma ampla coalizão partidária.
Alcolumbre também havia sido eleito presidente do Senado, com 73 dos 81 votos possíveis.
Operações entre Master e BRB entraram na mira do BC
A relevância dos contatos registrados em julho aumentou à medida que avançaram as apurações sobre as carteiras negociadas entre Master e BRB.
Em manifestação posterior, o Banco Central confirmou que sua área de Supervisão havia identificado inconsistências nas cessões de carteiras de crédito do Master ao banco de Brasília.
Segundo a autoridade monetária, as investigações internas levaram à identificação da insubsistência dos ativos envolvidos e à comunicação de indícios criminais ao Ministério Público Federal. O BC também ressaltou que cabe a cada instituição financeira analisar a qualidade dos créditos adquiridos e manter controles adequados para administrar os riscos dessas operações.
O Banco Central acabou vetando, em setembro de 2025, a operação que permitiria ao BRB adquirir participação no Banco Master.
Fonte: Brasil 247