Minerais críticos atraem R$ 39,4 bilhões em investimentos no Brasil
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – O Brasil reúne investimentos de R$ 39,4 bilhões em seus dez principais projetos de minerais críticos, recursos considerados estratégicos para a transição energética, a indústria de alta tecnologia, a produção de fertilizantes e a soberania nacional. Segundo levantamento do jornal Valor Econômico, realizado com informações do Ministério de Minas e Energia (MME) e de empresas do setor, os empreendimentos estão em diferentes estágios de desenvolvimento, desde a implantação até a produção, e poderão ganhar novo impulso com o marco legal aprovado em setembro de 2026.
A expansão desse segmento representa uma oportunidade para o Brasil ampliar sua participação nas cadeias globais de valor, especialmente em setores como baterias, veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa. O principal desafio, entretanto, é transformar a riqueza mineral brasileira em desenvolvimento industrial, evitando que o país se limite à exportação de matérias-primas.
A nova legislação define como críticos os minerais considerados essenciais à economia nacional cuja oferta seja insuficiente ou instável, seja por limitações da produção doméstica, seja pela dependência de fornecedores externos. Também estão incluídos recursos concentrados em poucos países ou regiões sujeitas a riscos geopolíticos, especialmente quando sua escassez pode comprometer a segurança alimentar, a transição energética e a autonomia tecnológica.
Potássio e terras raras lideram investimentos
Entre os maiores empreendimentos está o projeto Autazes, desenvolvido pela Potássio do Brasil no Amazonas. Com investimento previsto de R$ 12,4 bilhões, a iniciativa pretende alcançar uma produção anual de 2,4 milhões de toneladas de cloreto de potássio, insumo fundamental para a fabricação de fertilizantes.
O projeto encontra-se na fase de requerimento de lavra junto à Agência Nacional de Mineração (ANM).
A produção nacional de potássio é considerada estratégica para reduzir a dependência brasileira de matérias-primas importadas, especialmente diante da importância do agronegócio para a economia do país.
Outro destaque é o projeto Caldeira, localizado em Caldas, Minas Gerais, voltado à produção de carbonato misto de terras raras. O empreendimento pertencia à Meteoric Resources, adquirida integralmente pela australiana Lynas Rare Earths por aproximadamente R$ 3,5 bilhões.
A operação foi realizada após a aprovação do novo marco legal e reforçou o interesse internacional pelo potencial mineral brasileiro.
A Lynas, produtora comercial de óxidos separados de terras raras leves e pesadas fora da China, também avalia oportunidades de instalação de atividades de refino no Brasil.
“Pretendemos avaliar diversas opções de financiamento para apoiar o desenvolvimento futuro do projeto Caldeira, incluindo financiamento estratégico no país conforme disponível, financiamento de projeto, o caixa atual da Lynas e o caixa gerado pelas operações existentes”, informou a companhia.
BNDES quer transformar riqueza mineral em desenvolvimento industrial
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) desempenha papel central na estratégia de financiamento dos projetos de minerais críticos, com o objetivo de estimular não apenas a extração, mas também o processamento e a transformação industrial dos recursos.
O banco dispõe de linhas de crédito específicas e participa de um fundo de investimento em minerais críticos estruturado em parceria com a Vale, que começa a realizar seus primeiros aportes.
Em conjunto com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o BNDES também selecionou 56 planos de negócios em uma chamada pública voltada ao setor. As negociações estão em estágio mais avançado com 12 empresas.
José Luis Gordon, diretor de desenvolvimento produtivo, inovação e comércio exterior do BNDES, destacou ao Valor Econômico que o objetivo é ampliar a participação brasileira nas etapas industriais das cadeias produtivas.
“Não queremos apenas exportar os minerais, mas gerar agregação de valor. O BNDES tem esse papel. Isso está totalmente ligado com a Nova Indústria Brasil. Uma das prioridades é a transição energética”, afirmou.
O executivo ressaltou que os projetos financiados pelo banco precisam contemplar alguma etapa de transformação dos minerais.
“Todos os projetos financiados são de transformação mineral. Nenhum é só mineração. Alguns estão mais para frente, outros mais no início, mas todos envolvem algum tipo de beneficiamento”, explicou.
A estratégia está alinhada à política de reindustrialização do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca ampliar a capacidade produtiva nacional em setores tecnológicos e de maior valor agregado.
Petrobras acompanha oportunidades na cadeia de baterias
A Petrobras também participa das discussões sobre o desenvolvimento da cadeia produtiva de minerais críticos, especialmente em segmentos relacionados ao armazenamento de energia e à fabricação de baterias.
A estatal mantém conversas com o BNDES e acompanha oportunidades envolvendo minerais como o lítio, considerado fundamental para tecnologias de eletrificação e armazenamento energético.
A companhia desenvolve linhas próprias de pesquisa e inscreveu projetos individuais e em parceria no leilão de reserva de capacidade por armazenamento de energia, previsto para dezembro.
O interesse da Petrobras demonstra a crescente aproximação entre a indústria mineral, o setor energético e as novas tecnologias necessárias à transição para uma economia de menor intensidade de carbono.
Viridis investe em terras raras e prepara produção para 2028
Entre as empresas que desenvolvem projetos de terras raras no Brasil está a Viridis, que obteve aprovação de financiamento de R$ 77,5 milhões do BNDES para seu Centro de Pesquisa e Processamento de Terras Raras.
A unidade, inaugurada em maio de 2026, deverá produzir carbonato misto de terras raras em escala-piloto, contribuindo para o desenvolvimento de tecnologias de processamento mineral no país.
A empresa também conduz o projeto Colossus, em Poços de Caldas, Minas Gerais, com investimento estimado em R$ 2,3 bilhões.
O empreendimento está em fase de implantação, e a companhia pretende iniciar a produção em 2028, dependendo do avanço do licenciamento.
A Viridis também prepara um acordo comercial com a Solvay, que deverá adquirir aproximadamente 70% da produção e processar parte do material em uma unidade industrial na França.
Segundo Klaus Petersen, diretor-executivo da Viridis, a empresa pretende aproveitar a parcela restante para desenvolver oportunidades de mercado no Brasil, incluindo a produção de lantânio.
“Vamos ter 30% para explorar oportunidades. Não existe o consumo de carbonato de terras raras no Brasil, mas estamos trazendo uma separação de um elemento de terras raras, que é o lantânio. Ele vai ser extraído aqui, e estamos nos propondo a abastecer o mercado brasileiro”, afirmou.
O lantânio possui aplicações em baterias, vidros especiais e processos industriais relacionados ao setor de petróleo, entre outras atividades.
Novo marco legal cria instrumentos para estimular investimentos
A legislação aprovada em setembro estabelece mecanismos de incentivo ao desenvolvimento da indústria de minerais críticos, incluindo créditos fiscais, garantias para operações de financiamento e estímulos ao processamento industrial em território brasileiro.
Um dos principais instrumentos previstos é o Fundo Garantidor da Atividade Mineral (FGAM), que poderá receber até R$ 2 bilhões em recursos da União.
O objetivo é reduzir os riscos associados aos projetos de mineração e transformação mineral, facilitando o acesso das empresas a crédito de longo prazo.
Para João Gustavo Morais, CEO da Ore Minerals, o novo marco representa um avanço, embora seus efeitos concretos ainda dependam de regulamentação.
“A gente vai ter mais oportunidades de obter esses créditos no país. Hoje, o financiamento é todo externo. Esse é o grande gargalo. O fundo garantidor é uma inovação. Tende a alavancar o setor”, afirmou.
A Ore Minerals desenvolve o projeto Rio Negro, no Paraná, voltado à exploração de terras raras. A previsão é investir aproximadamente US$ 100 milhões ao longo de seis anos, distribuídos em três fases, com início da produção-piloto estimado para 2028.
Financiamento e mão de obra especializada são desafios
Apesar do crescimento dos investimentos e das expectativas positivas em relação ao novo marco regulatório, o setor enfrenta obstáculos importantes.
Entre eles estão a dificuldade de obtenção de financiamento para empreendimentos de longo prazo, os riscos tecnológicos associados ao processamento mineral e a escassez de profissionais especializados.
O presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Pablo Cesário, considera a estrutura de financiamento um dos principais desafios para o avanço da indústria.
Ele aponta experiências internacionais, como as do Canadá e da Austrália, que utilizam mecanismos tributários para estimular investimentos em projetos minerais de maturação prolongada.
A formação de mão de obra qualificada também será decisiva para que o Brasil desenvolva capacidade própria de processamento, refino e transformação industrial.
Minerais críticos ganham dimensão estratégica para o Brasil
A expansão dos investimentos ocorre em um cenário internacional de crescente disputa por recursos necessários à produção de tecnologias avançadas, à segurança energética e à modernização industrial.
Com reservas minerais relevantes e uma base industrial que pode ser ampliada, o Brasil tem a oportunidade de ocupar posições mais importantes nas cadeias produtivas globais.
A combinação de investimentos privados, financiamento público, pesquisa tecnológica e políticas de agregação de valor poderá determinar quanto da riqueza gerada por esses recursos permanecerá no país.
Os R$ 39,4 bilhões identificados nos dez principais projetos representam, assim, não apenas uma expansão da atividade mineral, mas também uma oportunidade de fortalecer a indústria nacional, desenvolver novas tecnologias e ampliar a autonomia econômica brasileira.
Fonte: Brasil 247