Crítica Street Fighter | Uma vitória no ringue e nos cinemas

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Por Diego Corumba — Canaltech

O filme Street Fighter estreia nos cinemas nesta quinta-feira (15) e, assim como Resident Evil, carrega diversas questões consigo. É a terceira vez que a Capcom tenta emplacar a franquia nas telonas — seguida de dois fracassos históricos, um nos anos 1990 e outro no fim dos anos 2000. 

Não é impossível contar a trama de Ryu, Ken e Chun-li apropriadamente, porém muitos diretores falharam nesta tarefa. Desta vez, o desafio foi entregue a Kitao Sakurai (Twisted Metal e The Passage) e uma coisa foi decidida logo de cara: o longa abraçaria de vez a galhofa que já existe nos games.

Ambientado em 1993, o longa-metragem busca homenagear o sucesso de Street Fighter II com seus personagens, temas musicais e toda uma geração de jogadores que enlouqueciam ao gastar todas suas economias em fichas de fliperamas. Na prática, este objetivo foi cumprido.

Seja pela farofada, seja para se divertir de forma descontraída, a adaptação Street Fighter consegue trazer a melhor representação que a franquia já viu nos cinemas. Com certeza não era o que você esperava, mas certamente é o que vai querer assistir durante a sua exibição na tela grande.

Uma homenagem a Street Fighter

Todo o enredo amarra perfeitamente o cânone que conhecemos de SF2. Após a vitória de Ryu no primeiro torneio de artes marciais, ele se isola da sociedade e deixa seu melhor amigo, Ken Masters, “sozinho” no mundo. A morte do mestre dos dois, Gouken, é uma cicatriz que eles carregam e os separou em definitivo.

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Contudo, M. Bison planeja organizar a segunda edição do campeonato icônico de Street Fighter para absorver os poderes de Ryu e elevar seu próprio patamar. Na sua cola está Chun-li, uma agente disfarçada da Interpol que deseja se vingar pelo assassinato de seu pai.

Primeiro, gostaria de destacar as atuações de Noah Centineo (Para Todos os Garotos que Já Amei e O Encontro Perfeito), Andrew Koji (Warrior e Trem-Bala) e Callina Liang (Presença e Gênios da Trapaça). Cada um representa tão bem Ken, Ryu e Chun-li, respectivamente, que se torna um prazer vê-los no filme.

Centineo convence muito no papel de um jovem playboy, convencido e que nutre um grande rancor pelas ações de seu maior aliado. Já Koji consegue passar com muita precisão a experiência, peso e o papel de um “campeão fracassado” que são apresentados dentro da trama.

Callina Liang surpreende por mostrar todas as camadas que a lutadora carrega — da sensualidade à jornada por vingança, assim como todo o seu potencial em lutas. Se há uma força que move todos dentro da trama é a interpretação destes atores sobre personagens que se tornaram figuras icônicas nos videogames.

“Não é segredo para ninguém que muitos irão ao cinema para ver Liang (que já foi muito exposta em trailers), mas ela se torna uma força grandiosa pelo seu mérito na atuação”, Diego Corumba

Também vale mencionar que Andrew Schulz (O Festim dos Sete Peixes e Upgrade: As Cores do Amor) brilha bastante como Dan Hibiki. Ele claramente é a visão ideal de um personagem que não promete nada, não entrega nada, mas no fim das contas traz carisma e uma bela participação dentro de toda a narrativa.

Atuação à parte, tudo em Street Fighter funciona muito bem. As coreografias de luta conseguem trazer movimentos clássicos sem que sejam esquisitos ou bregas. Os efeitos especiais não desapontam, apesar de sentir que poderia ter um carinho a mais da Legendary Pictures com seu investimento.

Porém, o grande diferencial fica ao redor do enredo. A Capcom já tentou trazer a marca aos cinemas duas vezes e apenas na terceira que um acerto veio — justamente quando não se tenta ignorar as inconsistências e o bom humor que ajudaram a estabelecer a saga nos videogames. 

Toda a construção ao redor de M. Bison, Akuma e do lado maligno de Ryu, que aqui desempenha um papel importantíssimo, funciona tão bem que me fez ficar “preso” na história. Você compreende as motivações, ações e até o que poderia ser forçado em qualquer obra, mas aqui possui uma razão.

Profundidade sem dramas

Porém, o que realmente me surpreendeu foi a profundidade que Street Fighter apresenta à audiência. Não entenda errado, o filme é muito bem humorado e cheio de momentos descontraídos, contudo isso não impediu o roteiro, atores e toda a construção de ousar e dar um passo adiante.

Ken é famoso e cheio de energia, mas se sente solitário sem o seu maior parceiro. A vida de festas proporciona alegrias, mas Noah Centineo consegue mostrar a dor que carrega por trás de tudo isso. Já o Ryu de Andrew Koji tenta conter a sua agressividade, o que é muito bem representado por suas falas e ações “contidas”.

“Enquanto não há espaço para nuances nos jogos, o filme faz esse papel muito bem e traz várias camadas sobre personagens tão emblemáticos”, Diego Corumba

O M. Bison de David Dastmalchian (Oppenheimer e Duna) é um vilão sem tantas nuances, mas também é apresentado que sua ambição por poder deve ser melhor explorada em todas as mídias. O conflito entre Akuma e Gouken, o treinamento dos heróis, o novo torneio e tudo vira um palco para explorar os sentimentos de todos eles.

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Isso não significa que o longa-metragem é focado em drama e em cavar o passado traumático de todos eles. Apenas que a construção foi tão boa que deu espaço para tudo: as lutas, personagens, humor, explicações e também para explorar um pouco do que move cada um dos heróis e vilões no meio disso.

Posso ver que Street Fighter não será a produção favorita de muita gente, mas o esforço que investiram para construir tudo adequadamente merece reconhecimento. Só vi tanto respeito e consideração por uma franquia recentemente com Resident Evil, também da Capcom. 

Inclusive, um acerto e tanto foi trazer os flashbacks em formato de animação. Com uma qualidade vista apenas no emblemático desenho dos anos 1990 (você se lembra disso?), o carinho foi tanto que seria um imenso desperdício mantê-lo preso apenas aos longas-metragens. 

O saldo final é que a experiência se saiu muito melhor do que o esperado, no geral. Porém, a “mão invisível” de Hollywood já fez questão de deixar claro que investem em uma sequência: o longa encerra de forma inconclusiva, com diversas pontas soltas que serão desenvolvidas em uma segunda obra.

Isso incomoda bastante e prejudica o ritmo do filme. Mesmo no Universo Cinematográfico Marvel (MCU), as tramas iniciadas nos longas e séries são encerradas ali — enquanto algo maior é construído ao seu redor. Street Fighter não faz nem isso e o que você sente é que assistiu a uma “Parte 1”. 

Devo assistir a Street Fighter?

Se você é fã da série e cresceu com os games, o filme é obrigatório. É o primeiro que respeita o seu material original, sem temer entrar na “farofada” ou ressignificar ataques e personagens emblemáticos pelo bem de um enredo mal redigido. 

É possível se desapontar com o final aberto e com o pouco tempo de tela de alguns personagens que são os favoritos de muita gente, mas ainda assim toda a produção expressa seu amor aos jogos de luta em tudo e vale cada segundo do seu tempo.

Comparar com Mortal Kombat 2, que estreou neste ano também, chega a ser incabível. Street Fighter, sem dúvidas, leva a melhor e mostra que é possível montar algo que mantenha a fidelidade e ainda assim tenha uma ótima apresentação como mídia adaptada.

Caso espere boas coreografias de luta, uma das melhores representações da saga e a presença de personagens e atores carismáticos, vai encontrar isso no longa-metragem. Ele não é perfeito, mas cumpre com louvores a sua missão de apresentar o seu universo e a cultura dos anos 1990 para um novo público.

Não é possível prever se eles manterão a qualidade no próximo filme, mas Street Fighter é um excelente primeiro passo que a franquia dá pela 3ª vez. Finalmente acertaram e a obra consegue entrar no hall de melhores adaptações deste ano.

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Fonte: Canaltech

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