Milheto ganha força como arma contra a fome e a crise climática no Sul Global
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – O milheto pode desempenhar um papel estratégico no fortalecimento da segurança alimentar e da resiliência climática nos países do Sul Global. Resistente à seca e adaptado a regiões áridas e semiáridas, o cereal oferece uma alternativa para sistemas agrícolas cada vez mais pressionados pelas mudanças climáticas. A avaliação consta de análise publicada por pesquisadoras do Observer Research Foundation (ORF).
Segundo as autoras, a insegurança alimentar não decorre de um único fator. Pobreza, eventos climáticos extremos, urbanização acelerada, inflação, infraestrutura deficiente e dificuldades de acesso a alimentos nutritivos formam um conjunto de problemas interligados que afeta especialmente comunidades vulneráveis da África, Ásia e América Latina.
Nesse contexto, a diversificação das culturas agrícolas ganha importância. A dependência excessiva de poucos cereais torna os sistemas alimentares mais vulneráveis a secas, oscilações de preços e interrupções nas cadeias de abastecimento.
O milheto apresenta uma vantagem importante: consegue se desenvolver em ambientes nos quais outras culturas enfrentam dificuldades por causa da escassez de água e das condições do solo.
Valor nutricional
Além da resistência climática, o cereal possui características nutricionais relevantes. O milheto é fonte de proteínas, fibras, vitaminas e minerais como ferro e zinco.
Seu baixo índice glicêmico também amplia seu potencial como componente de uma alimentação diversificada.
As pesquisadoras destacam que a incorporação do cereal às dietas pode contribuir para combater deficiências nutricionais, especialmente em regiões nas quais parcelas significativas da população têm dificuldade de acesso regular a alimentos variados e nutritivos.
A expansão, entretanto, não pode ocorrer simplesmente pela substituição de culturas tradicionais.
Desafio da produtividade
Um dos principais obstáculos está na produtividade. Muitas variedades de milheto ainda apresentam rendimento inferior ao de culturas como arroz e trigo.
Uma estratégia de diversificação mal planejada poderia, portanto, produzir efeitos indesejados sobre a quantidade total de alimentos disponível.
Por isso, as pesquisadoras defendem investimentos em pesquisa, melhoramento das variedades, tecnologia agrícola e práticas de cultivo adaptadas às mudanças climáticas.
O objetivo deve ser aumentar a produtividade sem eliminar uma das principais vantagens do cereal: sua capacidade de crescer em condições ambientais difíceis.
Sete frentes de ação
A análise propõe um modelo denominado SOW/REAP, organizado em sete frentes para transformar o potencial do milheto em resultados concretos para agricultores e consumidores.
As prioridades envolvem investimento, otimização da produção, ampliação do acesso, reposicionamento do cereal no mercado, intercâmbio de conhecimentos, pesquisa e desenvolvimento e construção de parcerias institucionais.
Não basta, portanto, incentivar agricultores a plantar.
É necessário desenvolver toda a cadeia produtiva.
Isso inclui acesso a sementes de qualidade, assistência técnica, armazenamento adequado, capacidade de processamento e sistemas eficientes de transporte e distribuição.
A falta dessa infraestrutura aumenta perdas, reduz a renda dos agricultores e encarece os alimentos para os consumidores.
Estado pode estimular demanda
As compras públicas também podem ter papel importante. Governos podem incorporar o milheto a programas de alimentação escolar e outras políticas de segurança alimentar, criando demanda estável e estimulando a produção local.
Mas a expansão precisa ser acompanhada de mecanismos que evitem a concentração dos benefícios.
Subsídios, crédito e programas governamentais devem alcançar pequenos agricultores, especialmente aqueles que vivem nas regiões mais vulneráveis às mudanças climáticas.
As autoras também destacam a necessidade de monitoramento transparente dos programas para avaliar produtividade, preços, renda dos produtores e impactos nutricionais.
Do campo para a mesa
Existe ainda um desafio cultural.
Para que o aumento da produção resulte em maior consumo, o milheto precisa ser percebido não apenas como uma cultura resistente ou um alimento associado à pobreza rural, mas como ingrediente nutritivo e versátil.
Campanhas de comunicação, educação nutricional e valorização de receitas tradicionais podem contribuir para ampliar sua aceitação.
A recuperação de conhecimentos culinários locais também pode ajudar a construir mercados para produtos derivados do cereal, criando novas oportunidades econômicas.
Cooperação no Sul Global
A expansão do milheto abre ainda espaço para maior cooperação entre países do Sul Global.
Governos, universidades, centros de pesquisa, organizações internacionais e empresas podem compartilhar variedades, técnicas de cultivo, tecnologias de processamento e experiências em políticas públicas.
Esse intercâmbio pode beneficiar principalmente regiões que enfrentam condições climáticas semelhantes.
Para as pesquisadoras do ORF, o potencial do milheto vai além da produção de alimentos. Uma cadeia produtiva bem estruturada pode ampliar a renda rural, fortalecer pequenos agricultores, melhorar a nutrição e aumentar a capacidade das comunidades de enfrentar secas e outros efeitos da crise climática.
O cereal, sozinho, não resolverá a insegurança alimentar.
Mas, combinado com ciência, infraestrutura, políticas públicas e cooperação, pode se tornar uma peça importante na construção de sistemas alimentares mais diversificados e resistentes no Sul Global.
Fonte: Brasil 247