Meta recebeu R$ 2 mi por anúncios eleitorais ilegais pagos no exterior, aponta estudo
Por Paulo Emilio — Brasil 247
247 – Um levantamento do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NetLab/UFRJ) identificou pelo menos 1.613 anúncios políticos irregulares veiculados nas plataformas da Meta durante o período eleitoral de 2026. As publicações, financiadas com recursos provenientes do exterior, movimentaram aproximadamente R$ 2 milhões e alcançaram 171,1 milhões de impressões, número que representa a quantidade de vezes em que os conteúdos foram exibidos aos usuários.
Segundo a Folha de São Paulo, os anúncios circularam entre julho e setembro no Facebook e no Instagram, plataformas controladas pela Meta. Ao todo, 187 anunciantes foram responsáveis pelas peças publicitárias, que mencionaram 70 candidatos. Entre as irregularidades identificadas estão o financiamento estrangeiro, a propaganda negativa impulsionada contra candidatos e a ausência de informações obrigatórias sobre os responsáveis pelos pagamentos.
A investigação constatou que 98,1% dos anúncios com localização informada tinham os Estados Unidos como origem dos pagamentos. Além disso, 99,5% das peças analisadas foram financiadas em dólares americanos. A maior parte das publicações foi divulgada por páginas sem identificação clara de seus responsáveis.
A legislação eleitoral brasileira proíbe o financiamento estrangeiro de campanhas e restringe o impulsionamento de propaganda eleitoral a candidatos, partidos, federações e coligações. Também veda a contratação de anúncios para promover propaganda eleitoral negativa contra adversários.
Gastos equivalem aos de grandes campanhas eleitorais
O montante identificado pelos pesquisadores é comparável aos investimentos realizados por candidatos de destaque nas eleições de 2026. Caso os R$ 2 milhões provenientes do exterior fossem contabilizados como gastos de um único candidato, esse valor ocuparia a 11ª posição no ranking dos maiores investidores em publicidade política nas plataformas da Meta durante o período analisado.
Na comparação apresentada pela pesquisa, Fernando Haddad (PT), candidato ao governo de São Paulo, destinou R$ 2,4 milhões à publicidade na empresa entre 5 de julho e 3 de outubro, ficando na sexta posição. Tarcísio de Freitas (Republicanos) investiu R$ 3 milhões.
Entre os presidenciáveis, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) liderou os gastos, com R$ 9,4 milhões, seguido por Flávio Bolsonaro (PL), com R$ 6,8 milhões.
Os pesquisadores converteram os valores originalmente pagos em moedas estrangeiras para reais utilizando as cotações de 1º de outubro de 2026.
Empresa identificada concentrou a maior parte dos anúncios
A principal fonte pagadora encontrada pelo NetLab foi a Corporativo Lam, LCC, responsável por 1.076 anúncios, equivalentes a 97,3% das peças que apresentavam identificação do financiador.
De acordo com o estudo, a empresa pode ter destinado até R$ 1,6 milhão à publicidade eleitoral nas plataformas da Meta, o maior volume atribuído a uma única fonte pagadora identificada na investigação.
Os pesquisadores não conseguiram determinar a quem a Corporativo Lam está vinculada. Também observaram que suas campanhas apresentavam posicionamentos políticos distintos, incluindo conteúdos favoráveis e contrários a diferentes candidatos.
O relatório afirma que a empresa promoveu ou atacou “diferentes candidatos, muitas vezes de forma contraditória, dificultando a compreensão dos objetivos e das estratégias políticas dessas campanhas”.
Diretora do NetLab critica atuação da Meta
A diretora do NetLab/UFRJ, Marie Santini, criticou a circulação das propagandas e o faturamento obtido pela plataforma com conteúdos considerados irregulares.
“É escandaloso que a Meta ganhe R$ 2 milhões veiculando anúncio absolutamente ilegal durante as eleições brasileiras. Isso aponta falhas sistêmicas problemáticas e que podem afetar o pleito”, afirmou a pesquisadora à Folha.
O levantamento foi realizado a partir de buscas na biblioteca de anúncios da Meta, utilizando termos relacionados aos candidatos e ao processo eleitoral. A equipe selecionou publicações pagas em moedas diferentes do real e que inicialmente circularam sem classificação como conteúdo político, sendo posteriormente reclassificadas ou removidas.
Essa metodologia, segundo os pesquisadores, pode não ter captado todas as propagandas irregulares. Por isso, tanto o número de anúncios quanto os valores recebidos pela empresa podem ser superiores aos identificados.
Santini também apontou limitações no acesso às informações disponibilizadas pela plataforma.
“Para ter noção do nível do problema, teria que haver transparência da totalidade de publicidade de anúncio que acontece na Meta, seja marcado como político ou não. Porque eu só consigo ver o que a plataforma diz que é político”, explicou.
“A gente só vai ter condições de entender o tamanho desse problema se houver transparência total da publicidade que circula na Meta.”
Meta afirma que anúncios foram identificados e retirados
Procurada pela Folha, a Meta declarou que os anúncios examinados pelos pesquisadores passaram por processos de revisão e foram reclassificados ou removidos quando identificadas violações às regras da empresa.
“Como o próprio estudo reconhece, os anúncios analisados foram identificados e posteriormente recategorizados ou, quando aplicável, retirados de circulação por violarem nossas políticas”, informou a companhia.
A empresa também destacou que parte das publicações foi divulgada antes do início oficial da campanha eleitoral.
“Além disso, o estudo engloba anúncios veiculados a partir de julho, antes do período oficial de campanha. Nosso processo de análise possui diversas camadas de revisão e detecção, antes e durante a veiculação.”
Os pesquisadores contestam a eficácia desses mecanismos. Para o NetLab, a retirada ou reclassificação das publicações somente depois de sua circulação demonstra uma “deficiência sistêmica da governança de publicidade da Meta, baseada em um controle reativo do conteúdo impulsionado, que busca combatê-lo apenas após sua veiculação, sem mecanismos robustos de verificação e aprovação prévia, como a empresa afirma oferecer”.
Especialistas também questionaram a falta de informações suficientes para identificar os interesses políticos associados aos anúncios. Segundo eles, a veiculação das peças antes da identificação das irregularidades permitiu que a plataforma recebesse recursos por publicidade potencialmente capaz de interferir no processo eleitoral brasileiro.
Fonte: Brasil 247