Mega rali de ativos no Brasil: o mercado já precifica novo governo, mas a dúvida agora é o crescimento
Por Paulo Gala — Brasil 247
O mercado brasileiro viveu hoje um rali impressionante. A bolsa sobe quase 8% a 9%, rompendo com folga a barreira dos 200 mil pontos, enquanto os juros longos derretem: o contrato de janeiro de 2035, que chegou a ser negociado entre 14% e 15%, está agora abaixo de 13%, uma queda de mais de 100 pontos-base na abertura. O EWZ, que combina Bovespa e dólar, avança quase 10%. O câmbio chegou a furar os R$ 5 e oscila agora perto desse patamar. Há uma compra maciça de ativos brasileiros.
O movimento é resultado direto do primeiro turno das eleições. Nada está definido, mas, pelo andar da carruagem, a grande probabilidade é de vitória de Flávio Bolsonaro. A direita saiu vitoriosa no Senado e nos governos estaduais. Na disputa presidencial, a diferença foi de cerca de 2 milhões de votos, e quase 30 milhões de eleitores não compareceram. Ainda assim, desde a redemocratização, nenhum candidato que liderou o primeiro turno deixou de vencer o segundo. A Faria Lima trabalha, obviamente, com esse cenário.
Pensando apenas em ativos financeiros, esse rali deve continuar nos próximos meses. O que se sabe do programa de Flávio Bolsonaro é que prevê um grande corte de gastos, de algo entre R$ 200 bilhões e R$ 250 bilhões por ano, talvez até R$ 300 bilhões. Não se sabe exatamente quanto nem como. Há muitas travas legais, mas, com uma bancada expressiva no Congresso e especialmente no Senado, o novo governo não deve ter maior dificuldade em aprovar novas legislações.
O pacote inclui de tudo: desindexação do salário mínimo, medidas semelhantes ao teto de gastos e o fim das vinculações, como a das aposentadorias de quem ganha até um salário mínimo, hoje corrigidas por crescimento mais inflação. A própria regra do salário mínimo é um indexador muito poderoso, e seu fim significaria uma economia enorme. É preciso dizer com clareza: o peso desse ajuste vai cair sobre os mais pobres. Estamos falando de cortes em políticas sociais, Bolsa Família, BPC, transferências de renda e salário mínimo.
Com a retirada dessa pressão de demanda, os juros recuam. Já há apostas de corte de meio ponto na Selic, e ganha força o cenário de taxa básica em 12% no ano que vem e até abaixo de 10% entre o fim de 2027 e o início de 2028. O mercado reage à ideia de que a pressão inflacionária vai se dissipar porque a economia vai desacelerar.
E é justamente aí que está a grande pergunta: o que acontece com o crescimento? Nos últimos anos, o motor da economia brasileira tem sido o gasto público via transferências de renda. O governo transfere, as famílias mais pobres gastam e a economia anda. Foi o que se viu nos governos Lula 1, 2 e 3. Nos governos Temer e Bolsonaro, quando essas transferências foram cortadas, a economia praticamente parou: o crescimento médio ficou em torno de 1,5% ao ano, metade do registrado na era Lula.
Isso não significa que a economia não vá crescer. Mas, se o consumo das famílias estancar por causa do corte de gastos e o investimento, hoje em apenas 16,5% do PIB, não responder, o país pode desacelerar bastante. O setor externo também não deve ajudar: a tendência é de apreciação do real e, salvo um boom de commodities ou de petróleo, as exportações industriais devem sofrer nos próximos anos. O risco maior é uma sobrevalorização cambial, com o dólar caindo a R$ 4,50, o que seria devastador para a indústria e pioraria as contas externas.
O cenário, portanto, é de juros curtos e longos mais baixos e de um rali do real. A variável-chave é o investimento. Se ele reagir, a economia cresce. Se não reagir, sem o motor fiscal, a economia desacelera e pode parar. É isso que vamos acompanhar nos próximos anos.
Fonte: Brasil 247