Martelo feito com madeiras brasileiras vai marcar a passagem da presidência da COP30 para a Turquia
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O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, vai encerrar o ciclo da presidência brasileira das conferências do clima da ONU com um objeto feito no Brasil. Um malhete cerimonial, desenvolvido em alta marcenaria pela ETEL a partir de madeiras de diferentes origens do território brasileiro, será usado no ato oficial de transferência da presidência para a Turquia, que sedia a conferência do clima da ONU deste ano, a COP31, em Antalya, com a Austrália como parceira na condução das negociações. A peça foi apresentada nesta quinta-feira (1º), em evento organizado pela marca em São Paulo, na Casa Zalszupin, antiga moradia do arquiteto e designer Jorge Zalszupin em São Paulo, mantida pela ETEL como espaço cultural e sede do Instituto Jorge Zalszupin.
“Eu vou dar isso com o maior orgulho na COP31, na cerimônia de abertura. Vou entregar isso para o turco, que eu acho que vai apreciar imensamente”, disse Corrêa do Lago.
Segundo a ETEL, o martelo reúne madeiras provenientes de comunidades indígenas da Amazônia e da Mata Atlântica, de áreas de manejo sustentável certificadas, como pelo FSC, e de iniciativas de restauração ecológica e plantios produtivos. A proposta é traduzir em um único objeto o conceito de “contínuo florestal”, abordagem que integra conservação, restauração e silvicultura como partes complementares de um mesmo território.
Na apresentação da peça, Lissa Carmona, CEO e diretora criativa da ETEL, contou ainda que o martelo reúne madeiras de quatro tipologias florestais: conservação, unidade de conservação florestal, área indígena e restauração florestal. Entre elas estão roxinho, freijó e jequitibá. “Juntas, mostram que é possível fazer da floresta em pé uma ponte de trabalho, de conhecimento e de excelência”, disse. A confecção passou pelas mãos de pelo menos cinco artesãos, entre eles Edson, responsável pelos encaixes, que chegou à ETEL há mais de 30 anos, aos 16, como aprendiz, vindo de Pernambuco. O desenho final é de Etel Carmona, mineira que há cinco décadas se dedica ao design e às madeiras brasileiras.
“Não é apenas um martelo. É o saber manual brasileiro, na sua forma mais precisa, feito para atravessar o mundo”, afirmou Lissa. “Em novembro, o embaixador André entregará o martelo à Turquia. O presidente da COP31 levará consigo nossas florestas, nossas mãos e nosso desenho.” Segundo ela, durante a confecção, brincou que o martelo precisaria ter “a complexidade e a sofisticação, mas a beleza e a simplicidade de uma canção de João Gilberto”.
A construção da peça contou com a contribuição de Roberto Waack, presidente do conselho do Instituto Arapyaú e cofundador da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. “Nós atuamos, como nenhum outro país do mundo, de uma forma super competitiva em todas essas frentes”, afirmou Waack, ao se referir à conservação, à restauração e ao plantio de florestas. Segundo ele, a ideia foi colocar esse contínuo florestal num objeto que tem relação com o impacto, com a arte e, principalmente, com a transferência de autoridade. “É um momento de ação, um momento de implementação, um momento que depende menos de toda uma concertação global, mas depende de vontades, depende de ações muito concretas.”
“Transformar essa matéria em um objeto de passagem de liderança, dentro de um dos momentos mais importantes da agenda climática global, dá à marcenaria uma dimensão diplomática e simbólica muito especial”, afirmou Lissa .
A relação de Corrêa do Lago com a marca começou no início dos anos 2000, quando ele trabalhava na preparação da Rio+10, conferência realizada em Joanesburgo, na África do Sul, dez anos depois da Rio-92. Na ocasião, explica o embaixador, a diplomacia brasileira precisou de um objeto simbólico e encomendou à ETEL um prato, entregue aos sul-africanos. O embaixador contou ainda que o martelo tem um significado especial para sua família, uma vez que seu avô, Oswaldo Aranha, presidiu a Assembleia Geral da ONU que aprovou, em 1947, a partilha da Palestina, com a decisão de criar dois Estados. O martelo usado naquela votação foi doado pela família ao primeiro kibutz a receber brasileiros em Israel, onde está preservado.
Segundo a ETEL, o martelo reúne madeiras provenientes de comunidades indígenas da Amazônia e da Mata Atlântica, de áreas de manejo sustentável certificadas, como pelo FSC, e de iniciativas de restauração ecológica e plantios produtivos.
Naiara Bertão/ Um Só Planeta
“Uma coisa que a gente sempre tem que levar é a qualidade do Brasil. O Brasil é visto com várias dimensões, mas a qualidade do que é produzido no Brasil, do que pode ser produzido no Brasil, é subestimada”, disse. “É a gente dar para os turcos, que têm alguns anos de civilização, como todos nós sabemos, algo para mostrar que nós temos não só a madeira maravilhosa, mas a capacidade de desenhar uma coisa maravilhosa e de produzir um objeto com essas mãos.”
Da negociação à implementação
No balanço de Corrêa do Lago, o principal resultado da conferência de Belém foi a mudança de fase do regime climático. “Eu acredito que a COP30 realmente fez uma grande diferença porque a gente conseguiu que os países concordassem, pela primeira vez, que nós tínhamos que passar da parte de negociar documentos para executar aquilo que a gente já tinha decidido nos anos anteriores”, disse. Segundo ele, a mudança atendia a uma orientação do presidente Lula, que questionava o resultado de negociações centradas em vírgulas de textos.
“Quando sai da mão dos negociadores, você não precisa mais de consenso”, afirmou. Nas negociações, lembrou, os textos dependem da concordância de 194 países e costumam ficar no nível do denominador comum,. Na implementação, “os atores são muito mais livres”, reforma. Ou seja, na prática, é possível fazer acordos entre sete, 28 ou 130 países e avançar em direções diferentes, com a participação de cidades, governos nacionais, setor privado e academia. Para o embaixador, esse desenho também mantém os Estados Unidos na agenda. “Os governadores, os prefeitos, as empresas, as universidades, todos os Estados Unidos podem participar da COP. É apenas o governo que não participa das decisões.”
Ao falar sobre um balanço da COP30, realizada em Belém, no Pará, em novembro passado, e a influência para a conferência deste ano, Corrêa do Lago explica que a agenda de ação da COP30 foi estruturada em seis eixos e 30 setores prioritários, ligados ao balanço global do Acordo de Paris, e deu origem a mais de 130 programas de aceleração de soluções. “A nossa forma de estruturar a agenda de ação passou a ser a forma oficial de tratamento dos temas em todas as semanas de clima do mundo”, disse. Ele citou também o exemplo da organização do setor privada, como o caso da SB COP, iniciativa empresarial criada pela Confederação Nacional da In´dustria (CNI) para a COP30 e que hoje reúne 130 países e, segundo ele, está orientando os turcos sobre como organizar a participação empresarial em Antalya.
Ainda que no início de sua presidência a Turquia considerava que a agenda de ação era uma atribuição sua e que seguiria apenas as próprias prioridades, logo percebeu que aquela estrutura tinha vindo para ficar. A divisão final entre os dois países também ajudou, na avaliação dele. “Eu acho que, involuntariamente, Turquia e Austrália fortaleceram o legado por terem brigado muito para presidirem a COP”, afirmou. No arranjo híbrido, a Turquia preside a conferência em Antalya, cuida da agenda de ação e é quem vai bater o martelo, enquanto a Austrália preside a negociação. “Essa separação que a gente fez em Belém se simboliza pelo fato de que tem duas presidências agora.”
Belém e Antalya
Questionado se levar a conferência para a Amazônia fez diferença, Corrêa do Lago respondeu: “Sim, definitivamente sim”. Ele reconheceu, porém, que algumas pessoas deixaram de ir por causa da percepção de que seria complicado. A desconfiança, disse, não o impressionou, porque o mesmo aconteceu na preparação da Rio-92, quando o cônsul de Portugal no Rio de Janeiro, ao visitar as instalações, afirmou que nada ficaria pronto.
Para o embaixador, a capital paraense mostrou um país real. “É uma cidade barbaramente brasileira. Qualquer esquina que você está em Belém, você se sente no Brasil”, disse. Ele avalia que a coragem e o simbolismo de fazer a COP na Amazônia ainda estão sendo percebidos aos poucos. “Eu acho que quando as pessoas chegarem em Antalya e virem um ambiente completamente sanitizado, de repente as pessoas vão dizer: nossa, cadê a participação? Cadê uma cidade-cidade?”
O engajamento da população do país anfitrião, segundo ele, faz “uma diferença muito grande”, sobretudo para a continuidade da agenda. Corrêa do Lago lembrou a Agenda 21, que traduziu os compromissos da Rio-92 para prefeituras, estados e comunidades. “Essa participação da população é que deu enorme força ao quanto essa agenda foi incorporada no Brasil”, disse. Na avaliação da sociedade civil, acrescentou, o nível de participação registrado em Belém será difícil de repetir.
O que está em jogo na COP31
Na frente de negociação, Corrêa do Lago disse que a agenda ficou muito técnica, e por isso pouco compreensível para o público em geral, mas continua importante. A Transição Justa, aprovada em Belém, terá de ser mais bem definida em Antalya. Ele citou ainda a discussão sobre comércio, lançada pela primeira vez na COP30, e o debate sobre financiamento, que, segundo ele, não acontecia havia muito tempo.
Na agenda de ação, o tema mais importante, segundo ele, é a preparação do segundo balanço global do Acordo de Paris, o GST2. O primeiro balanço trouxe as decisões de transição para longe dos combustíveis fósseis e de acabar com o desmatamento. Para os temas que não avançaram, a presidência brasileira criou os mapas do caminho – no inglês, “roadmaps”. Corrêa do Lago disse estar finalizando dois deles, de alcance mundial: um sobre os esforços para acabar com o desmatamento até 2030 e outro sobre a transição para longe dos combustíveis fósseis. Os documentos serão divulgados em 3 de novembro.
“Os roadmaps não são para voltar para a negociação, porque nós consideramos que isso já foi aprovado. Os roadmaps são para alimentar o GST2, que vai ser o novo balanço, que tem que obrigatoriamente ser mais ambicioso do que o primeiro”, disse. “Mas, infelizmente, há vários obstáculos na estrada.” O embaixador não quis entrar em detalhes, mas indicou que há decisões aprovadas em Belém que só vai detalhar depois de entregar o martelo. “Vai ter certa surpresa”.
Estabilidade como missão
A ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, que dividiu o painel com Corrêa do Lago, afirmou que a crise climática deixou de ser um tema do futuro. “A crise climática é uma crise que veio para ficar. Nós negociamos o clima que está acontecendo no final do século, e a crise está no presente”, disse. “A missão do mundo hoje é uma missão por estabilidade. Não é só mitigação e adaptação.”
Para ela, o compromisso pelo fim do desmatamento, que a COP30 levou adiante, é um desafio particular para o Brasil, um país que, segundo ela, convive há 40 anos com o desmatamento da Amazônia como um ativo político.
“O conceito de fim do desmatamento no Brasil precisa ser um conceito nacional”, afirmou. Izabella defendeu que a sociedade brasileira compreenda o fim do desmatamento como “um ativo civilizatório” e associou o tema à segurança hídrica e alimentar do país.
A ex-ministra também afirmou que as soluções climáticas não podem ser construídas com base no medo provocado pelos eventos extremos. “Não se constrói nada com medo”, disse. Ela apontou a restauração florestal como resposta ao alcance do país. “Tem uma solução absolutamente da natureza nas nossas mãos, que é restaurar. E as florestas poderão ganhar esse espaço como uma atividade econômica, uma atividade de resiliência climática e de resfriamento do planeta.”
A ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, que dividiu o painel com Corrêa do Lago, afirmou que a crise climática deixou de ser um tema do futuro
Naiara Bertão/ Um Só Planeta
Izabella avaliou ainda que a governança do sistema multilateral não acompanhou a mudança provocada em Belém. “A governança climática do sistema multilateral me parece que está muito distante – eu faço parte do grupo que está promovendo a reforma – do entendimento do que a COP30 provocou no processo disruptivo da governança climática ao chamar novos players para a sala, para serem corresponsáveis na atuação das soluções climáticas”, disse.
Ela lembrou também que as guerras mudaram o contexto para a próxima conferência. “Nós deixamos de ter a transição energética influenciada pela segurança climática como carro-chefe. Nós voltamos a discutir segurança energética no velho modo que as guerras provocam.”
Corrêa do Lago, por sua vez, defendeu o papel do multilateralismo. “Eu continuo acreditando que o multilateralismo tem uma função essencial, que é criar a lei. A lei não é tudo, mas é a essência, é o começo, é o rumo, é o que orienta”, disse. Ao encerrar, ele resumiu a mudança que vê no papel do país: “O Brasil que, durante décadas, foi associado a um problema da natureza, [agora é associado] a uma natureza como solução.”
Fonte: umsoplaneta