Magda Chambriard: “A Petrobras está garantindo a segurança energética do país”

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Por Dafne AshtonBrasil 247

247 – A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou que a companhia pretende manter nas próximas décadas um papel central na segurança energética, no desenvolvimento econômico e na política industrial brasileira. Segundo ela, a estatal responde atualmente por cerca de um terço da energia primária consumida no país e terá de combinar a expansão da produção de petróleo e derivados com investimentos em fontes de baixo carbono para sustentar essa participação até 2050.

As declarações foram feitas durante a palestra “A Importância da Petrobras para o Brasil”, realizada no Clube de Engenharia do Brasil e transmitida pelo canal da entidade no YouTube. Em uma apresentação de mais de duas horas, Chambriard detalhou números de investimentos, produção, empregos, tributos e projetos da companhia, além de defender uma transição energética que considere simultaneamente a redução de emissões, a segurança do abastecimento e o custo da energia para a população.

“A Petrobras entrega para a sociedade brasileira um terço de toda a energia primária que a sociedade consome”, afirmou. De acordo com Chambriard, esse papel não se limita à extração de petróleo. A companhia participa do abastecimento por meio da produção de derivados, biocombustíveis, gás natural e geração termelétrica, além de manter investimentos em refino, fertilizantes e novas fontes energéticas.

A presidente da estatal sustentou que o tamanho da Petrobras permite que suas decisões de investimento tenham impacto direto sobre a atividade econômica. Segundo os dados apresentados por ela, a companhia investe mais de US$ 20 bilhões por ano e mantém aproximadamente 200 mil trabalhadores diretamente vinculados às suas operações, considerando empregados próprios, terceirizados e pessoas contratadas por empresas que executam obras para a estatal.

Ao incluir os empregos indiretos e induzidos, Chambriard estimou que aproximadamente 2 milhões de pessoas tenham sua renda relacionada às atividades da companhia. “É por isso que a Petrobras é importante, porque ela afeta diretamente a vida de todos”, declarou.

A executiva também apresentou os repasses feitos pela empresa ao poder público. Segundo ela, a Petrobras pagou R$ 278 bilhões em tributos e outras participações destinadas à União, estados e municípios em 2025. Até junho de 2026, acrescentou, o montante já havia chegado a R$ 161 bilhões.

 Para Chambriard, esses números demonstram como uma empresa estatal de grande porte pode funcionar como instrumento de desenvolvimento. Ela recordou uma orientação recebida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando assumiu o comando da companhia, em maio de 2024.

“Eu preciso que você me ajude a empurrar o PIB do país”, relatou, ao reproduzir a fala de Lula. Segundo ela, a resposta da Petrobras foi acelerar investimentos, ampliar a produção e recuperar projetos de infraestrutura.

Um dos principais eixos dessa estratégia é a expansão da produção de petróleo. Chambriard afirmou que a Petrobras opera cerca de 90% da produção brasileira e exporta atualmente cerca de 1 milhão de barris por dia de sua parcela de produção. A elevação da oferta, segundo ela, resulta da combinação entre melhor gerenciamento dos reservatórios, aumento da eficiência das unidades existentes, antecipação de plataformas e ampliação da capacidade de equipamentos já instalados.

A Petrobras, afirmou, conseguiu acrescentar aproximadamente 260 mil barris diários à capacidade de plataformas existentes e pretende incorporar outros 260 mil barris por dia em unidades futuras. Na avaliação apresentada pela executiva, os 520 mil barris adicionais de capacidade evitariam investimentos entre US$ 10 bilhões e US$ 12 bilhões em novas plataformas e permitiriam antecipar a produção.

“Além de economizar o capex desta plataforma, a gente também antecipa a produção em quatro anos”, disse.

A expansão da produção está associada, na estratégia defendida por Chambriard, à necessidade de recompor continuamente as reservas da companhia. “Não existe futuro para uma empresa de petróleo sem exploração”, afirmou.

Ela lembrou que, em 2022, a Petrobras não perfurou poços pioneiros e disse que a retomada da exploração está por trás da atuação da companhia na Margem Equatorial, da aquisição de dados sísmicos na Bacia de Pelotas e da expansão internacional na costa atlântica africana.

Chambriard citou projetos na Costa do Marfim, Namíbia e São Tomé e Príncipe e reiterou a aposta da companhia na Margem Equatorial brasileira. “Acabamos de fazer uma descoberta no Amapá. Acredito que aquela área é bastante promissora”, declarou. “Nós vamos seguir explorando a Margem Equatorial.”

Outro ponto central da apresentação foi o refino. Chambriard afirmou que as refinarias da companhia passaram a operar próximas ou mesmo acima de 100% de sua capacidade nominal em determinados períodos, aumentando a produção nacional de diesel, gasolina, querosene de aviação e GLP e reduzindo a necessidade de importações.

No caso do diesel, a Petrobras pretende elevar ainda mais sua participação no abastecimento doméstico. Segundo Chambriard, o plano empresarial 2026-2030 previa alcançar aproximadamente 90% da demanda brasileira em 2030. A companhia agora trabalha com a aspiração de chegar a 100%.

“Um país continental como o Brasil roda sobre rodas. A cesta básica anda sobre rodas. A lavoura é viabilizada com tratores que consomem diesel”, afirmou.

A presidente relacionou essa política ao cenário internacional e às consequências de conflitos sobre petróleo, derivados e inflação. Para ela, a capacidade nacional de produzir e refinar energia funciona como proteção diante de choques externos.

“Segurança energética é aquela garantia da gente fornecer tudo que ilumina, tudo que aquece e tudo que gera movimento que o país precisa”, resumiu.

Essa concepção foi ampliada para três dimensões: segurança energética, alimentar e territorial. Chambriard associou a primeira à produção de petróleo, gás, derivados e eletricidade; a segunda, à produção de diesel e fertilizantes; e a terceira, à recuperação da indústria naval e à capacidade brasileira de sustentar a infraestrutura necessária à exploração offshore.

Na área de fertilizantes, a presidente da Petrobras destacou a retomada de unidades que estavam paralisadas. Segundo ela, fábricas na Bahia e em Sergipe voltaram a produzir, enquanto a unidade do Paraná passa por intervenções e o projeto de Mato Grosso do Sul avança para a conclusão das obras. A expectativa apresentada é que, quando essas unidades estiverem plenamente operacionais, a Petrobras possa produzir o equivalente a 35% da demanda brasileira por fertilizantes nitrogenados.

Chambriard defendeu também a ampliação da oferta de gás natural como instrumento para reduzir preços. “Mudar o gás de mão não baixa preço”, declarou. “O que baixa preço, enquanto não revogarem a lei da oferta e da procura, é investir para produzir mais.”

A indústria naval apareceu como outro componente dessa política. Segundo ela, mais de 70 embarcações já foram contratadas dentro do programa de renovação de frota e os investimentos da companhia contribuíram para elevar novamente o número de empregos no setor.

Chambriard afirmou que a indústria naval brasileira chegou a ter aproximadamente 83 mil empregos diretos antes de sofrer uma retração que levou o contingente para algo entre 15 mil e 17 mil trabalhadores. Atualmente, segundo os números apresentados na palestra, são cerca de 71 mil postos.

A presidente citou ainda a expansão das atividades em estaleiros nacionais envolvidos na construção de módulos para plataformas. Em algumas dessas unidades, disse, o contingente teria passado de aproximadamente 3,5 mil trabalhadores para algo entre 12 mil e 13 mil.

Apesar da defesa da expansão dos investimentos, Chambriard dedicou parte da apresentação à necessidade de controle de custos. A carteira da Petrobras para o período 2026-2030 prevê US$ 109 bilhões em investimentos, mas os projetos são submetidos a critérios de financiamento e retorno.

“Não tem futuro sem disciplina de capital nessa empresa”, afirmou.

Para ela, essa preocupação se torna ainda maior porque os projetos de petróleo podem levar sete a dez anos para maturar, enquanto a Petrobras não controla duas variáveis fundamentais de sua receita: o preço internacional do barril e a taxa de câmbio.

Chambriard relacionou essa discussão à experiência de ativos vendidos pela companhia no passado. Citou a Liquigás e a BR Distribuidora e argumentou que a elevação excessiva de custos pode reduzir a rentabilidade, criar justificativas para alienações futuras e ameaçar empregos.

“Cada vez que se pensar em botar custo num ativo, pensa que a derivada segunda pode ser a venda desse ativo e a destruição de emprego de boa qualidade”, disse.

Ao projetar as próximas décadas, a presidente da Petrobras rejeitou a ideia de uma escolha simples entre petróleo e fontes renováveis. Sua proposta é combinar a manutenção da produção de hidrocarbonetos com uma expansão gradual das fontes de baixo carbono e a redução das emissões das operações existentes.

Segundo Chambriard, cerca de 54% da matriz energética brasileira já é formada por fontes renováveis, proporção superior à média mundial apresentada por ela. A Petrobras pretende contribuir para ampliar essa participação, mas a executiva ressaltou que a transição exigirá investimentos e avanços tecnológicos capazes de reduzir o custo das novas fontes.

“A gente quer fazer isso tudo na velocidade possível para que essa energia caiba no bolso da sociedade brasileira”, afirmou.

A companhia projeta que, em 2030, pelo menos dois pontos percentuais de sua oferta energética sejam provenientes de novos projetos de baixo carbono. Para 2050, a ambição é elevar essa participação para algo entre 7% e 12%.

O problema, segundo Chambriard, está na escala financeira dessa transformação. Ela afirmou ter calculado que uma carteira capaz de entregar por meio de fontes de baixo carbono quantidade equivalente de energia à atual exigiria elevar substancialmente o investimento quinquenal. Como comparação, citou um salto de aproximadamente US$ 110 bilhões para US$ 175 bilhões.

“Projeto de baixo carbono, por unidade de entrega de energia, é muito, muito mais caro”, declarou.

Por isso, a presidente atribuiu ao centro de pesquisas da Petrobras um papel decisivo. Para ela, o desafio das próximas décadas será semelhante ao enfrentado no desenvolvimento do pré-sal: transformar tecnologias inicialmente caras em projetos economicamente viáveis.

“Nós vamos precisar fazer tudo de novo agora para as renováveis serem econômicas”, afirmou.

A dimensão do desafio aparece nas projeções para 2050. Chambriard calcula que a Petrobras precisará incorporar aproximadamente 9 bilhões de barris de óleo equivalente para compensar o declínio dos campos atuais e sustentar sua produção. Paralelamente, para que entre 7% e 12% da energia entregue pela companhia venha de fontes de baixo carbono, será necessária uma capacidade de geração renovável que ela comparou a aproximadamente duas vezes a produção anual da Eletrobras.

“Metade de uma Petrobras em duas décadas e meia ou duas Eletrobras em duas décadas e meia”, resumiu.

Para Chambriard, esse esforço não pode ser separado da discussão sobre o desenvolvimento econômico brasileiro. Ela argumentou que o consumo energético por habitante no Brasil ainda está abaixo da média mundial e que elevar a renda e as condições de vida exigirá ampliar a oferta total de energia, mesmo enquanto o país reduz a intensidade de carbono de sua matriz.

A presidente afirmou que o Brasil consome aproximadamente 50 gigajoules por habitante ao ano, ante uma média mundial de cerca de 72. Na sua avaliação, aproximar o país dos padrões das economias desenvolvidas exigirá um aumento expressivo da oferta energética nas próximas décadas.

“Energia é igual a desenvolvimento econômico e social. Bem-estar social depende de energia”, afirmou.

Nesse cenário, a Petrobras pretende continuar respondendo por aproximadamente um terço das necessidades energéticas brasileiras. Chambriard disse que o restante exigirá planejamento público, financiamento e participação de outras empresas e instituições. Ela contou ter levado essa discussão ao presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, destacando a necessidade de estruturar mecanismos de financiamento para os investimentos de longo prazo.

“Estamos segurando o nosso terço. Precisamos que alguém se responsabilize pela construção desse norte que vai gerar os outros dois terços, porque os três terços é o Brasil que a gente quer”, afirmou.

Na conclusão da palestra, Chambriard defendeu que segurança energética e política climática sejam planejadas de maneira conjunta. Para ela, garantir abastecimento ignorando emissões seria incompatível com as necessidades ambientais, mas uma política climática que desconsidere disponibilidade, preço e demanda energética também enfrentaria limites econômicos e sociais.

“A gente não pode ter um plano climático descasado de um plano de segurança energética e também não pode ter um plano de segurança energética que emita tudo possível”, afirmou.

A estratégia apresentada pela presidente da Petrobras para as próximas décadas, portanto, combina exploração de novas reservas, expansão do refino, recuperação da indústria naval e de fertilizantes, investimentos em infraestrutura e avanço gradual das fontes de baixo carbono. O objetivo declarado é preservar o peso da estatal no sistema energético brasileiro mesmo depois do pico de produção do pré-sal.

“Esse é o desafio para que a gente mantenha a importância da Petrobras nas próximas décadas”, afirmou Chambriard. “A Petrobras não tem medo de desafio. Nós estamos aqui para isso.”

Fonte: Brasil 247

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