Mafalda, a menina que há 62 anos questiona um mundo que ainda não encontrou as respostas

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Por Redação Brasil 247 — Brasil 247

247 – Há 62 anos, em 29 de setembro de 1964, aparecia pela primeira vez nas páginas da imprensa argentina uma menina de seis anos que passaria a fazer algumas das perguntas mais incômodas do século XX. Seu nome era Mafalda.

Criada pelo cartunista argentino Joaquín Salvador Lavado Tejón, o Quino, Mafalda nasceu em Buenos Aires, mas rapidamente deixou de pertencer apenas à Argentina. Tornou-se uma personagem universal e, ao mesmo tempo, profundamente latino-americana.

Mafalda queria entender por que havia guerras, por que existiam pobres e ricos, por que os governos não conseguiam resolver os problemas mais elementares das pessoas e por que os adultos pareciam aceitar como naturais tantas coisas evidentemente absurdas.

Sua força estava justamente nessa inversão: era uma criança interrogando um mundo construído pelos adultos.

A primeira tira de Mafalda foi publicada em 29 de setembro de 1964 na revista argentina Primera Plana. A personagem havia sido concebida anteriormente para uma campanha publicitária que acabou não sendo realizada. Quino recuperou a ideia e transformou aquela menina em protagonista de uma obra que atravessaria fronteiras e gerações.

Uma criança diante do mundo

Mafalda cresceu simbolicamente em uma época marcada pela Guerra Fria, pela ameaça nuclear, pela Guerra do Vietnã, pelas ditaduras latino-americanas, pelas lutas de libertação nacional e pelas profundas transformações culturais dos anos 1960.

O mundo estava permanentemente presente em suas tiras.

Um dos objetos mais associados à personagem era justamente o globo terrestre. Mafalda o observava, cuidava dele e se angustiava com sua condição. Para ela, o planeta parecia um paciente permanentemente enfermo pela ação dos próprios seres humanos.

A política internacional entrava na sala de estar de sua família pelo rádio, pela televisão e pelos jornais. E Mafalda reagia às notícias com a perplexidade de quem ainda não havia aprendido a considerar normal a irracionalidade do mundo.

Esse olhar permitiu a Quino abordar temas extraordinariamente complexos com poucas palavras.

Mafalda desconfiava do poder, questionava a autoridade, repudiava a guerra e se indignava com a injustiça social. Ao mesmo tempo, sonhava com paz, democracia e igualdade.

Não era uma personagem partidária. Era, sobretudo, uma personagem crítica.

Uma pequena latino-americana

Embora tenha conquistado leitores em dezenas de países, Mafalda nasceu de uma experiência histórica muito particular: a da classe média urbana latino-americana dos anos 1960.

A Argentina vivia sucessivas crises políticas e golpes militares. A América Latina era atravessada por enormes desigualdades sociais e por disputas entre projetos políticos antagônicos.

Quino transformou esse ambiente em humor.

Ao redor de Mafalda, criou um pequeno universo que representava diferentes formas de olhar para a sociedade.

Manolito estava fascinado pelo comércio e pelo dinheiro. Susanita sonhava com casamento, filhos e uma vida convencional. Felipe era imaginativo, inseguro e atormentado pelas obrigações escolares. Libertad, pequena até no tamanho, carregava no próprio nome uma visão radicalmente política do mundo.

Juntos, os personagens permitiam a Quino discutir capitalismo, consumo, burocracia, educação, machismo, desigualdade, liberdade e democracia sem transformar suas tiras em tratados políticos.

Quino decidiu parar

Talvez uma das decisões mais importantes de Quino tenha sido saber quando encerrar sua criação.

Em 1973, depois de menos de uma década de publicação regular, ele decidiu parar de produzir as tiras de Mafalda.

A personagem, portanto, não envelheceu.

Permaneceu para sempre uma menina olhando para um planeta complicado demais e perguntando aos adultos por que eles não conseguiam administrá-lo melhor.

Quino continuou produzindo humor gráfico por décadas e tornou-se um dos mais importantes cartunistas da língua espanhola. Morreu em 30 de setembro de 2020, aos 88 anos, apenas um dia depois do aniversário da primeira publicação de Mafalda.

Perguntas que sobreviveram às respostas

Parte da permanência de Mafalda decorre de uma circunstância desconfortável: muitos dos problemas que Quino colocou diante de sua personagem continuam sem solução.

As guerras não desapareceram.

A desigualdade permanece.

A ameaça nuclear continua existindo.

A fome convive com uma capacidade inédita de produção de riqueza e alimentos.

O racismo, o autoritarismo e a intolerância continuam presentes em diferentes sociedades.

E a humanidade acrescentou à lista de preocupações de Mafalda problemas que nos anos 1960 apenas começavam a ser percebidos em toda sua dimensão, como a crise climática.

Por isso, uma tira desenhada há mais de meio século frequentemente parece ter sido criada para comentar acontecimentos atuais.

A atualidade de Mafalda

Mafalda sobrevive porque Quino compreendeu algo essencial sobre o humor: uma boa pergunta pode ser mais poderosa do que uma resposta.

Sua personagem não oferecia programas de governo nem soluções acabadas. Ela simplesmente recusava a ideia de que injustiças, guerras e desigualdades deveriam ser aceitas como parte inevitável da vida.

Era uma menina que ainda não havia aprendido a resignação.

Sessenta e dois anos depois de sua estreia, talvez esteja aí a razão de sua permanência.

Governos mudaram, regimes políticos desapareceram, tecnologias transformaram radicalmente a comunicação e gerações inteiras nasceram depois que Quino desenhou sua última tira regular.

Mas Mafalda continua diante de seu globo terrestre, olhando para o mundo com espanto.

E muitas das perguntas que fazia aos adultos em 1964 ainda esperam respostas em 2026.

Fonte: Brasil 247

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