Lula terá que reduzir abstenção e conquistar os eleitores que votaram em Flávio, mas preferem Alckmin
Por Leonardo Attuch — Brasil 247
O resultado do primeiro turno deixa uma mensagem bastante clara para o presidente Lula: para vencer em 25 de outubro, não bastará reconstruir a frente ampla de 2022. Será necessário ampliá-la.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 56,1 milhões de votos, ou 47,03% dos válidos, contra 53,9 milhões, ou 45,16%, de Lula. A diferença, de pouco mais de 2,2 milhões de votos, é significativa, mas está longe de ser intransponível.
Existe, no entanto, um número talvez ainda mais importante para compreender a próxima etapa da eleição: a abstenção. Dos 125,2 milhões de eleitores, 33,4 milhões deixaram de votar, numa abstenção de 21,08%. É nesse universo, somado aos eleitores das candidaturas eliminadas e aos votos que podem mudar de lado, que estará boa parte da disputa das próximas três semanas.
Lula terá três tarefas fundamentais.
Lula terá que vir mais ao centro
A primeira é compreender o recado das urnas. O Brasil de 2026 não é exatamente o Brasil de 2022, muito menos o de 2002. O eleitorado mudou, suas prioridades mudaram e a coalizão capaz de formar uma maioria nacional também precisa mudar.
Isso significa que Lula terá que caminhar mais claramente em direção ao centro político e econômico.
Nesse movimento, Geraldo Alckmin pode desempenhar um papel muito mais relevante do que teve no primeiro turno. O vice-presidente não deve ser apenas uma figura institucional da chapa. Pode tornar-se um dos principais personagens da campanha.
Há certamente brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro, mas que têm identificação política, econômica ou cultural maior com Alckmin do que com o bolsonarismo. São eleitores conservadores ou moderados em determinados temas, defensores da responsabilidade fiscal, da iniciativa privada, do empreendedorismo e de uma economia aberta ao investimento, mas que não necessariamente desejam uma radicalização política.
É justamente com esse Brasil que Alckmin pode dialogar.
Dar maior protagonismo ao vice-presidente significaria também sinalizar que um quarto mandato de Lula seria um governo ainda mais amplo. Isso poderia envolver a incorporação mais explícita de pautas econômicas liberais, combinadas com a preservação das políticas sociais que constituem uma das marcas históricas do lulismo.
Não se trata de abandonar a esquerda. Trata-se de construir uma maioria.
É preciso falar com quem perdeu a esperança
A segunda batalha está fora do universo dos votos válidos do primeiro turno.
A elevada abstenção revela milhões de brasileiros que, pelas mais diferentes razões, não compareceram às urnas. Naturalmente, nem todo abstencionista deixou de votar por desencanto político. Há dificuldades de deslocamento, problemas pessoais e inúmeros outros fatores.
Mas uma eleição presidencial com 33,4 milhões de ausentes também coloca diante das campanhas uma pergunta incontornável: quantas dessas pessoas simplesmente não encontraram motivação suficiente para votar?
Lula precisa falar diretamente com esse eleitor.
Não apenas com quem já está convencido. Não apenas com a militância. Não apenas com quem acompanha política todos os dias.
Será necessário chegar ao brasileiro que trabalha muito, ganha pouco, enfrenta dificuldades para pagar aluguel, supermercado, transporte e serviços e que, mesmo diante de indicadores econômicos positivos, talvez ainda não tenha percebido uma transformação concreta em sua vida.
A campanha terá que reconstruir esperança.
Para isso, o discurso precisará ser menos retrospectivo e mais voltado ao futuro. Não basta enumerar realizações. Lula terá que explicar o que pretende fazer nos próximos quatro anos e por que esse eleitor terá razões concretas para acreditar que sua vida poderá melhorar.
O confronto político será inevitável
A terceira tarefa será estabelecer com clareza as diferenças entre os dois projetos que chegaram ao segundo turno.
Uma campanha presidencial não é apenas uma apresentação de propostas. É também uma comparação entre alternativas.
Lula terá que confrontar politicamente Flávio Bolsonaro e apresentar ao eleitor os riscos que sua campanha identifica numa eventual volta da extrema-direita ao Palácio do Planalto.
Esse debate deverá ser feito com fatos, memória e propostas.
A campanha de Lula poderá recordar os conflitos institucionais ocorridos durante o governo de Jair Bolsonaro, discutir as posições defendidas por Flávio ao longo de sua trajetória e questionar quais seriam as consequências concretas de seu programa para a democracia, a economia, as políticas sociais, o meio ambiente e a inserção internacional do Brasil.
Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro certamente procurará transformar a eleição num plebiscito sobre o atual governo. Lula terá, portanto, que evitar uma campanha exclusivamente defensiva e conseguir deslocar o debate também para aquilo que cada candidatura representa para os próximos quatro anos.
Uma frente ampla ainda mais ampla
Em 2022, Lula venceu porque compreendeu que a coalizão necessária para derrotar Jair Bolsonaro teria que ser muito maior do que o campo tradicional da esquerda.
A escolha de Geraldo Alckmin para a vice-presidência simbolizou esse movimento.
Em 2026, a mesma lógica terá que ser levada ainda mais longe.
Lula precisará reunir trabalhadores e empresários, esquerda e centro, progressistas e liberais democráticos, movimentos sociais e setores produtivos. Precisará conversar com quem votou em outros candidatos, com quem não votou e até mesmo com uma parcela dos brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro no primeiro turno.
A matemática explica por quê.
A diferença entre os dois candidatos é de pouco mais de 2,2 milhões de votos, enquanto 33,4 milhões de brasileiros não compareceram às urnas e milhões escolheram outras candidaturas. O universo disponível para a disputa é, portanto, muito maior do que a distância que separou os dois primeiros colocados.
Mas a política explica ainda mais.
Para vencer, Lula terá que demonstrar que seu projeto não pertence apenas a um partido ou a um campo ideológico. Terá que convencer uma maioria de que pode novamente liderar uma coalizão nacional suficientemente diversa para representar o Brasil real de 2026.
A frente ampla que o elegeu em 2022 terá que ser ainda mais ampla em 2026.
Fonte: Brasil 247