Lula na ONU: a multipolaridade contra a lei da selva

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Por Redação Brasil 247 — Brasil 247

Na abertura da 81ª Assembleia Geral da ONU, Lula fez da tribuna nova-iorquina o palco de uma disputa que não tem os Estados Unidos como alvo evidente. Sem citar Donald Trump uma única vez, o presidente brasileiro descreveu com precisão o mundo que o unilateralismo estadunidense está construindo.

O diagnóstico é duro. Lula afirmou que a ONU vive o momento mais crítico desde que ocupou aquela tribuna pela primeira vez, em 2003, com um Conselho de Segurança paralisado pelo direito de veto e uma credibilidade internacional em queda livre.

É nesse cenário de perigoso vácuo institucional que a manipulação se instala. Lula nomeou o fenômeno sem meias palavras: tarifas usadas como armas de coerção e chantagem, uma Organização Mundial do Comércio “respirando por aparelhos” e governos que capitulam diante da força bruta.

O presidente foi direto ao afirmar que essas concessões à lei do mais forte já passaram dos limites. Sua contraposição foi clara: diante do unilateralismo, advogou pelo multilateralismo; diante da subordinação, pela soberania.

É aqui que se revela o estadista, não o nacionalista reativo. Lula não apresentou a defesa da soberania como recusa ao mundo, mas como pré-condição para participar dele em pé de igualdade — a soberania como alicerce de uma ordem baseada em regras, não como substituto dela.

A frase “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” resumiu essa recusa à hierarquia imperial nas Américas. A expressão não é original de Lula: ecoa o título do livro de Paulo Nogueira Batista Jr., que já tratava da subordinação latino-americana à hegemonia estadunidense. Ao repeti-la na tribuna da ONU, Lula filiou seu discurso a uma tradição de pensamento crítico sobre as assimetrias de poder no continente.

Nessa mesma linha, ele rejeitou tanto a tutela militar quanto a ingerência em processos eleitorais de vizinhos, citando Venezuela, Nicarágua, Cuba e Haiti como territórios onde potências externas insistem em interferir. Referência, aliás, ainda mais relevante diante da iminência de eleições no Brasil.

No mesmo movimento, porém, Lula recusou o isolacionismo. Ao tratar do crime organizado transnacional, defendeu cooperação entre Estados — como o centro de policiamento internacional criado em Manaus com os nove países amazônicos — em vez de vigilância militar unilateral, numa oposição explícita à lógica de porta-aviões patrulhando águas alheias.

A crítica ao tarifaço contra a economia brasileira reforçou o argumento. Mesmo sob pressão comercial direta de Washington, Lula destacou que o país baterá novo recorde de exportações neste ano — um dado usado para desmontar a lógica de que a subordinação é o único caminho viável.

O discurso também projetou um horizonte de acordos e instituições multilaterais como alternativa concreta à imposição unilateral. Lula citou o Grupo de Amigos da Paz, criado com a China para mediar a guerra na Ucrânia, e defendeu a diplomacia como única saída possível para os conflitos em curso — inclusive a guerra em Gaza, tratada com dureza ao mencionar o genocídio cometido pelo regime sionista de Benjamin Netanyahu e os ataques ao Tribunal Penal Internacional.

Na área climática, essa visão de futuro compartilhado ganhou contornos concretos. Lula cobrou a retomada da agenda ambiental, hoje ausente do G7 e do G20, e apresentou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado na COP30 em Belém, como prova de que crescimento econômico e redução de emissões são compatíveis — outro terreno em que cooperação internacional, não força unilateral, produz resultado.

O apelo à regulação das big techs e à defesa do Pix contra pressões de multinacionais amplia essa mesma disputa para o campo digital. Lula descreveu um neoliberalismo digital sem limites promovido por tecno-oligarcas com poderes superiores aos de muitas nações, sem freios éticos, cobrando regras multilaterais via ONU e seu Painel Científico sobre Inteligência Artificial, em vez de deixar o mundo — uma vez mais — à mercê da lei do mais forte. Lula desenhou, portanto, a arquitetura de um mundo multipolar em que a defesa intransigente dos interesses brasileiros caminha junto com o investimento em leis, acordos e instituições — o oposto exato da lei da selva que ele vê, sob a perigosa égide da decadente potência do Norte, se espalhar pelo sistema internacional.

Fonte: Brasil 247

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