Lula III, o legado
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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O governo é marcado pela expansão das transferências de renda, o pleno emprego e o desafio da reindustrialização
A avaliação do desempenho econômico do terceiro mandato do presidente Lula comporta um diagnóstico relativamente claro. O controle das contas públicas pode ser considerado razoável, sobretudo quando comparado aos anos anteriores. Os déficits primários ficaram, em média, abaixo de 1% do Produto Interno Bruto por ano, patamar inferior ao observado durante o governo Temer e o início da gestão Bolsonaro. Esse dado costuma ser ofuscado no debate público, que tende a tratar a política fiscal do período como sinônimo de descontrole, mas os números do resultado primário não sustentam essa leitura.
A distorção decorre, em grande medida, da confusão entre resultado primário e resultado nominal. O choque de juros promovido pelo Banco Central em 2025 foi violento e elevou o déficit nominal para perto de 10% do PIB. A conta precisa, porém, ser lida corretamente. Trata-se de algo como 1 trilhão de reais em despesas com juros ante cerca de 100 bilhões de déficit primário. Em outras palavras, o desequilíbrio nominal é, essencialmente, um problema de política monetária, não de expansão descontrolada do gasto primário. Quando a taxa básica permanece em níveis tão elevados por tanto tempo, o custo de rolagem da dívida pública torna-se o principal fator de pressão sobre as contas do governo, independentemente do esforço feito do lado das receitas e das despesas correntes. É claro que com esse tamanho de déficit nominal algum ajuste terá de ser feito em 2027.
O desequilíbrio nominal das contas públicas é, essencialmente, um problema de política monetária, não de expansão descontrolada do gasto primário
O traço mais marcante do período Lula III foi o forte aumento das transferências sociais, estimado em algo em torno de 400 bilhões de reais por ano. É importante registrar que esse movimento não começou em 2023. Foi durante o governo Bolsonaro que o benefício do Bolsa Família subiu para 600 reais, sob o nome de auxílio emergencial, e que chegou a custar cerca de 300 bilhões durante a pandemia. Com a PEC da Transição de governo, o custo do programa se consolidou na casa dos 150 bilhões de reais anuais. Somado ao Benefício de Prestação Continuada e ao conjunto mais amplo de benefícios sociais, esse volume de recursos ativou fortemente a economia pelo lado da demanda.
Há, portanto, uma linha de continuidade entre os dois governos que o debate polarizado frequentemente ignora: a ampliação das transferências de renda como instrumento de sustentação do consumo das famílias. As transferências sociais podem ser apontadas como o grande motor econômico do Lula III. Por se dirigir a famílias de renda mais baixa, com alta propensão a consumir, esses recursos se convertem rapidamente em gastos no comércio e nos serviços, com efeito multiplicador relevante sobre a atividade. O recente aumento de 20 bilhões de reais no Bolsa Família representa apenas mais um passo dessa estratégia, aplicada de maneira consistente desde o início do mandato.
Suporte maior. Programas como o Bolsa Família, recém-reajustado, contaram com 400 bilhões de reais – Imagem: Sergio Amaral/MDS
Os resultados foram positivos em várias dimensões. O Brasil voltou ao pleno emprego, com a menor taxa de desemprego em décadas, e cresceu, em média, 3% ao ano, desempenho muito superior ao registrado no período Temer-Bolsonaro. A inflação está controlada. A combinação de transferências mais robustas, valorização do salário mínimo e mercado de trabalho aquecido sustentou a renda e o consumo das famílias. A desigualdade de renda caiu e o País saiu do mapa da fome. Como era de se esperar, esse dinamismo pressionou a inflação. A economia fechou o hiato de ociosidade, o mercado de trabalho ficou apertado e os preços subiram. O Banco Central reagiu e levou a taxa Selic a 15%. Esse efeito, contudo, não constitui a questão central. Ele é, antes, o sintoma de uma limitação mais profunda, a capacidade de oferta da economia brasileira cresce pouco, e qualquer aceleração da demanda logo esbarra nesse teto.
O problema fundamental do País continua a ser o da sofisticação produtiva, da complexidade econômica e do aumento da produtividade. A taxa de investimento segue estagnada em torno de 16,5% do PIB, nível baixíssimo para uma economia que pretende convergir para o padrão de renda das nações desenvolvidas. Na Índia, essa taxa é de 30%, no Vietnã, também de 30%, na China, chega a 45%. Sem investimento em máquinas, equipamentos, infraestrutura e tecnologia, não há como ampliar de forma consistente a capacidade produtiva nem elevar a produtividade do trabalho. O Brasil permanece uma economia excessivamente concentrada em serviços de baixa complexidade e commodities, como petróleo, minério de ferro, soja e demais produtos do agronegócio, sem avanço relevante na indústria de transformação.
Imagem: Adam Gray/AFP
A literatura de complexidade econômica mostra que o desenvolvimento está associado à capacidade de um país produzir bens diversificados e sofisticados, que exigem conhecimento acumulado, redes de fornecedores e capacitações tecnológicas difíceis de replicar. Setores industriais e de serviços intensivos em tecnologia tendem a gerar empregos de maior produtividade e salários mais elevados, além de encadeamentos com o restante da estrutura produtiva. A especialização em recursos naturais, por sua vez, deixa a economia vulnerável aos ciclos de preços internacionais e oferece poucas oportunidades de aprendizado tecnológico. Nesse terreno, decisivo para o desenvolvimento de longo prazo, o desempenho recente deixa a desejar.
Isso não significa que nada tenha sido feito. A Nova Indústria Brasil representou um esforço conceitual e de formulação de política pública muito importante e merece reconhecimento. O programa acaba, no entanto, morrendo na praia. Com a Taxa de Longo Prazo, o custo do crédito do BNDES passou a acompanhar os juros de mercado. Com a Selic levada a 15% ao ano para conter a pressão de demanda e a inflação, o BNDES passou a emprestar a taxas de 17% ao ano ou mais. Nessas condições, poucos projetos industriais se mostram viáveis, e a política industrial perde força. O resultado aparece nos números: a indústria brasileira está praticamente estagnada. Há aqui uma contradição de fundo. A mesma expansão da demanda que gerou empregos e crescimento levou o Banco Central a apertar os juros, o que encareceu justamente o financiamento dos investimentos capazes de ampliar a oferta.
O problema fundamental do País continua a ser o da sofisticação produtiva, da complexidade econômica e do aumento da produtividade
Faltou também foco do governo nessa agenda. O investimento público gira em torno de 70 bilhões de reais ao ano, montante modesto diante das necessidades de infraestrutura e inovação. A facilidade com que se aprova um aumento de 20 bilhões de reais no Bolsa Família contrasta com a dificuldade de direcionar os mesmos 20 bilhões ao setor produtivo, seja em política industrial, seja em investimento público. Transferir renda é relativamente simples. Estimular o consumo por meio da valorização do salário mínimo também. Desenvolver o País tecnologicamente, aumentar a produtividade e tornar mais complexa a estrutura produtiva é muito mais difícil: exige coordenação entre Estado e setor privado, horizonte de longo prazo e resultados que raramente aparecem em um único mandato.
Mas é justamente esse segundo caminho que gera desenvolvimento econômico verdadeiro. É ele que eleva o salário real de forma sustentável e melhora a qualidade de vida da população. Segundo a pesquisa Pnad do IBGE, a renda média do trabalho no Brasil está em 3.750 reais, quando deveria estar perto de 7,5 mil, o dobro, ao menos. Alcançar esse patamar só será possível com mais produtividade, tecnologia, investimento e complexidade econômica. As transferências de renda cumprem papel essencial no combate à pobreza e na redução da desigualdade, mas não substituem a transformação da estrutura produtiva como fonte de aumento duradouro dos rendimentos.
Esforço insuficiente. A Nova Indústria Brasil, sob a batuta do ministério de Alckmin, é uma iniciativa interessante, mas limitada diante da urgência de ampliar a taxa de investimento – Imagem: Miguel Angelo/CNI, Evaristo Sá/AFP e Claúdio Vieira/Prefeitura de São José dos Campos
O legado do Lula III na economia combina, assim, avanços sociais e macroeconômicos relevantes, como o pleno emprego, o crescimento acima da média recente e a ampliação da rede de proteção social, com uma lacuna estrutural que permanece aberta. O desafio segue colocado para o próximo governo. Sem aumentar a sofisticação produtiva, a produtividade, a complexidade e o investimento, o Brasil está fadado a permanecer naquilo que os economistas chamam de armadilha da renda média, com o risco permanente de aceleração da inflação sempre que a economia crescer um pouco mais. •
Publicado na edição n° 1434 de CartaCapital, em 14 de outubro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Lula III, o legado’
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Fonte: Carta Capital