Amarcord
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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Renata de Almeida recorda, em livro, personas, política, peripécias e filmes que atravessaram os 50 anos da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Um festival de cinema é feito de filmes e convidados, mas também de peripécias e teimosia. Talvez por isso, embora não deixe de celebrar o próprio evento, o livro Antes Que Me Esqueça (Cosac, 256 págs., 103 reais), escrito por Renata de Almeida para marcar os 50 anos da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, seja também um inventário daquilo que deu errado – no festival, na sua vida e no País, cujos solavancos sempre se fazem sentir na cultura. “Entendi que só teria sentido fazer um livro dos 50 anos se fosse eu a escrevê-lo. Para isso, tive de me abrir um pouco. Não gosto de me expor, mas fiz 60 anos, e acho que esta é uma história de muitos renascimentos”, disse a diretora da Mostra a CartaCapital, numa entrevista concedida no dia seguinte ao primeiro turno das eleições.
Por acontecer em fins de outubro, a Mostra começa logo depois do primeiro turno e está em sua última semana quando o segundo turno acontece. É inevitável, portanto, que o recente resultado das urnas devolva a Renata lembranças de 2018.
Naquele ano, às vésperas da abertura, telefonemas anônimos passaram a chegar ao número fixo do escritório do evento, num prédio baixinho, sem elevador, em Pinheiros. Eram ameaças, sobretudo, de natureza homofóbica, que deixaram a equipe sobressaltada. Para não dizer apavorada.
Na mesma edição, a 42ª, alguém escreveu numa lousa disponibilizada ao público: Ustra vive! “É um assombro alguém enaltecer um torturador em qualquer lugar, mas ali parecia ainda mais fora de contexto e nos dava uma ideia de para onde o mundo caminhava”, escreve Renata, em Antes Que Me Esqueça.
Foi só a partir da criação da Lei Rouanet que a Mostra passou a colocar legendas eletrônicas nos filmes e ter um júri internacional
Política e cinema, como se vê ao longo do livro – que traz um texto para cada uma das 50 edições –, sempre se roçam. O estado de coisas do País e, cada vez mais, do mundo se deixa ver na tela, por meio dos filmes, mas também nas dificuldades maiores ou menores para a realização do evento e até mesmo no humor do público.
À 14ª edição, realizada no ano do Plano Collor, compareceu uma plateia, nas palavras de Renata, amarga: “Apesar de ótimos filmes de diretores como Clint Eastwood, Pedro Almodóvar, Gus Van Sant, David Lynch, Nanni Moretti e Manoel de Oliveira (…) lembro-me de múltiplas reclamações”.
A 50ª Mostra, que acontece de 15 a 29 de outubro em 57 salas – nas quais serão projetados 380 títulos –, é a 38ª realizada por Renata. Ela entrou no festival na 13ª edição, recém-chegada de Nova York, quando a seleção tinha 87 longas e ocupava seis cinemas. “A grande novidade era a máquina de fax, que tornava a produção menos dependente do telex”, conta.
A Mostra fora criada em 1977 pelo jornalista Leon Cakoff, com quem Renata se casaria e teria dois filhos. Foi no hospital, no nascimento do primeiro deles, em 1998, que o casal soube da vitória de Central do Brasil no Festival de Berlim. E seria a quatro dias da abertura da 35ª edição, em outubro de 2011, que Cakoff morreria em decorrência de um câncer.
Naquele ano, centenário do compositor italiano Nino Rota, foi exibida no Parque do Ibirapuera a cópia restaurada de Amarcord (1973), de Federico Fellini – título que, no dialeto da Romanha, significa “eu me lembro”.
Telas. A primeira edição do evento aconteceu no vão livre do Masp, em 1977. Em 2020, durante a pandemia, a mostra foi digital e teve sessões num cine drive-in. À esquerda, o pôster feito por James Gray, diretor do filme Tigre de Papel, que abre a 50ª Mostra – Imagem: Mário Miranda Filho/Agência Foto e Acervo Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
A vida de Renata foi, portanto, não só atravessada, mas forjada pela Mostra – com seus filmes, seus colaboradores, seus convidados, seus dramas, seus erros, seus grandes feitos e seus causos divertidos. E é essa vida, no fim, que o livro condensa em 50 capítulos que têm o evento como fio narrativo.
Quando a Mostra completou 30 anos, Cakoff também escrevera um livro, que Renata nunca havia lido. Ao lê-lo, para refletir sobre o seu, descobriu que a primeira parte, a melhor delas, era pessoal. Na segunda, dedicada aos filmes, algo se perdia. E foi assim que ela decidiu que o seu, se fosse para existir, teria de ser pessoal.
Mas o pessoal, quando o assunto são os 50 anos de um evento cultural, é inevitavelmente coletivo. E, neste caso, envolve também grandes nomes do cinema brasileiro e mundial, seja na assinatura dos cartazes – que tiveram, entre seus autores, Fellini, Michelangelo Antonioni e Akira Kurosawa –, seja nas retrospectivas, nos júris internacionais ou nos convidados.
Quentin Tarantino, por exemplo, era um diretor estreante quando veio a São Paulo exibir Cães de Aluguel (1992). Ele devorou todos os catálogos de Mostras anteriores e viu tantos filmes quanto pôde.Também estava na cidade a atriz Maria de Medeiros, apresentando A Morte do Príncipe (1991). Os dois se conheceram na Mostra e, dois anos depois, ela estaria em Pulp Fiction – “e nós jantaríamos com eles na mesa da Palma de Ouro”, descreve Renata.
É com humor, e rasgos de ironia, que Renata relembra episódios que mostram que um festival de cinema não se faz sem certa dose de caos e sem saltos no escuro
Quem também esteve por aqui, e ficou na rua, mais especificamente no vão livre do Masp, foi Pedro Almodóvar. Ele veio acompanhado das atrizes Marisa Paredes e Rossy de Palma para apresentar A Flor do Meu Segredo (1995). Antes do longa-metragem, a organização decidiu exibir um curta que, simplesmente, foi projetado de ponta-cabeça.
É com humor, e rasgos de ironia, que Renata relembra episódios que demonstram que, sem uma dose de caos e saltos no escuro, não se faz um festival de cinema, e também nos devolvem a outros tempos. Tempos em que os filmes chegavam em pesadíssimos rolos e em que não havia celular.
Seria inimaginável, hoje, algo como o que se passou com o cineasta iraniano Abbas Kiarostami, membro do júri em 1994. De repente, no escritório, então localizado em outro predinho sem elevador, na Alameda Lorena, toca o interfone e o diretor sobe três lances de escada carregando sua mala. A pessoa encarregada de buscá-lo no aeroporto não tinha aparecido.
Outra coisa que a Mostra espelha são as políticas para a cultura. É reveladora, nesse sentido, a descrição dessa mesma Mostra, a de 1994, do ponto de vista do financiamento e da estruturação do evento.
Aquele foi o ano em que a Mostra usou pela primeira vez a Lei Rouanet. “Era algo tão novo que, na reunião com a American Express, foi preciso explicar para o marketing e o financeiro da empresa como funcionava a lei”, lembra. Os recursos permitiram criar uma competição para novos realizadores, formar um júri, oferecer passagens para convidados e fazer legendagem eletrônica, até então inédita no Brasil.
Visitas ilustres. Alguns dos mais célebres realizadores internacionais, como os iranianos Abbas Kiarostami e Jafar Panahi e o israelense Amos Gitai, e artistas como o chinês Ai Weiwei estão entre as centenas de convidados – Imagem: Mário Miranda Filho/Agência Foto, Milton Mansilha/Agência Foto e Cláudio Pedroso/Agência Foto
A lei, no entanto, é hoje para Renata uma fonte de inquietação: “A Rouanet nasceu com um viés liberal, nem tudo era perfeito, mas, hoje, as deformações atingiram um grau absurdo. As empresas tratam esse dinheiro como verba de marketing”.
O cenário, segundo ela, piorou depois do governo Bolsonaro. Em resposta aos ataques sofridos pela lei, o Ministério da Cultura passou a exigir contrapartidas que, muitas vezes, não podem ser realizadas. Os patrocinadores, por sua vez, aumentaram as exigências de exposição de marca e buscam coisas novidadeiras às quais possam se vincular – e aparecer. “É muito ruim a cultura de um país depender do marketing”, diz, na entrevista.
Nada disso, porém, aparece no livro como lamento. Renata diz emocionar-se ao ver a renovação do público e as transformações pelas quais a Mostra passou – uma delas é o Encontro de Ideias, um evento de mercado que reúne profissionais do setor e convidados internacionais.
“Acho que você não pode perder o frescor, esse olhar atento às coisas novas e às novas possibilidades”, diz Renata, enquanto dá forma, não apenas no livro, mas num acervo digital, a essa história que é dela, do cinema e da cidade. •
Publicado na edição n° 1434 de CartaCapital, em 14 de outubro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Amarcord’
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Fonte: Carta Capital