Lula diz que adversários defendem bilionários em debate sobre juros abusivos de cartões
Por Aquiles Lins — Brasil 247
247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta sexta-feira (2) que seus adversários políticos passaram a defender “os bilionários donos de operadoras” de cartões de crédito depois de ele levantar a necessidade de mudanças para combater juros elevados e o endividamento das famílias.
A manifestação ocorreu após a repercussão de declarações dadas por Lula na quinta-feira (1º) sobre a possibilidade de restringir a concessão de cartões. Nesta sexta, o presidente esclareceu que não pretende limitar a quantidade que cada brasileiro poderá possuir e afirmou que o alvo são cartões enviados sem solicitação e os juros cobrados dos consumidores.
“Ontem falei da preocupação com o cartão de crédito, pois os juros são indecentes. Hoje meus adversários acordam para defender os bilionários donos de operadoras desses cartões. Claro que sei da importância do crédito para a vida das famílias. Cada cidadão tem o direito de ter quantos cartões de crédito quiser”, escreveu Lula.
“O que não aceito é que bancos enviem para a casa das pessoas sem que elas tenham solicitado. Vamos acabar com essa prática e com os juros abusivos no Brasil”, acrescentou.
A declaração esclarece o alcance da proposta apresentada pelo próprio presidente na véspera. Durante entrevista ao Flow Podcast, Lula havia dito que discutia com o Banco Central uma forma de impedir os bancos de conceder mais de um cartão por pessoa, declaração que provocou críticas de adversários.
Oposição reage à declaração inicial
Entre as reações, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou vídeos nas redes sociais para criticar Lula. Em uma das postagens, escreveu: “Lula quer proibir o pobre ter mais de 1 cartão de crédito. Enquanto isso a mulher dele:”, em referência às viagens internacionais da primeira-dama Janja da Silva.
Em outro vídeo, divulgado com a frase “Tira a mão do meu cartão”, o parlamentar associou a discussão aos gastos públicos e afirmou que uma eventual restrição deveria atingir a primeira-dama. “A gente deveria proibir o cartão de crédito, sabe para quem? Era para a esposa dele”, declarou.
Nikolas também relacionou sua crítica aos gastos do governo com cartões corporativos e encerrou o vídeo com um ataque eleitoral a Lula.
A reação ocorreu a partir da declaração inicial de Lula sobre limitar a concessão de cartões. No esclarecimento desta sexta, o presidente descartou a restrição à quantidade de cartões mantidos pelo consumidor e afirmou expressamente que “cada cidadão tem o direito de ter quantos cartões de crédito quiser”.
Lula mira juros do rotativo
A preocupação apresentada pelo presidente está concentrada no custo do crédito e no impacto do endividamento sobre as famílias. O crédito rotativo, acionado quando o consumidor não paga integralmente a fatura no vencimento, permanece entre as modalidades mais caras do sistema financeiro brasileiro.
Segundo dados do Banco Central, a taxa média do rotativo chegou a 449,4% ao ano em agosto.
Na entrevista de quinta-feira, Lula criticou a facilidade com que instituições financeiras oferecem crédito e relatou o caso de uma família que, segundo ele, acumulou uma dívida de R$ 80 mil.
“Esses dias conheci um pai de um menino autista que recebeu o quarto cartão de crédito em casa e gastou R$ 80 mil e estava com uma dívida de R$ 80 mil. Nós precisamos fazer uma reformulação na economia brasileira. Galípolo sabe que precisamos moralizar um pouco essa questão de crédito, não é possível a gente permitir que a sociedade seja endividada da forma mais irresponsável possível”, declarou.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, já havia manifestado preocupação com a utilização recorrente de linhas emergenciais e caras pelas famílias. Em março, defendeu a criação de alternativas mais adequadas aos consumidores.
“Nossa dimensão do BC é como a gente consegue construir alternativas para o cliente ter uma opção mais adequada à situação dele”, afirmou Galípolo, destacando a necessidade de “produzir arranjos mais saudáveis para quem está buscando crédito”.
Uso do rotativo alcança patamar recorde
A discussão ocorre em meio ao crescimento expressivo do crédito rotativo. De acordo com dados do Banco Central divulgados pelo G1, as concessões nessa modalidade somaram R$ 311 bilhões nos primeiros oito meses de 2026, maior volume da série histórica para o período.
No mesmo intervalo de 2025, foram R$ 266 bilhões. Em todo o ano passado, o volume chegou a R$ 403 bilhões, indicando que o montante acumulado até agosto de 2026 já se aproximava do registrado nos 12 meses anteriores.
O crescimento representa uma mudança significativa em relação aos anos anteriores. Entre 2012 e 2020, as concessões anuais do rotativo não haviam ultrapassado R$ 225 bilhões. Nos anos seguintes à pandemia, o volume avançou até superar R$ 400 bilhões em 2025.
O alcance do problema também aparece na quantidade de consumidores expostos à modalidade. O Brasil tinha cerca de 101 milhões de usuários de cartão de crédito no início de 2026. Aproximadamente 40 milhões estavam no crédito rotativo em janeiro.
A inadimplência chegou a 63,5% na modalidade, segundo os dados citados pelo G1, o que reforça a preocupação com a utilização recorrente do cartão para financiar despesas mensais.
Dívidas já têm limite para juros e encargos
Desde janeiro de 2024, uma regra aprovada pelo Congresso limita o crescimento das dívidas do rotativo. O total de juros e encargos financeiros não pode ultrapassar 100% do valor original da dívida.
Na prática, uma dívida inicial de R$ 100 pode gerar no máximo outros R$ 100 em juros e encargos abrangidos pela regra.
A limitação não significa que a taxa anual do rotativo esteja fixada em 100%. O teto determina quanto os encargos podem acumular sobre uma dívida específica, enquanto a taxa divulgada pelo Banco Central representa o custo anualizado da modalidade.
Além das regras para o rotativo, o governo vem tentando ampliar alternativas de crédito mais barato. O crédito consignado destinado aos trabalhadores do setor privado, por exemplo, liberou R$ 130 bilhões até junho deste ano.
Ao esclarecer sua proposta nesta sexta, Lula concentrou o discurso em duas medidas: impedir o envio de cartões sem solicitação dos clientes e enfrentar os juros elevados. Ao mesmo tempo, rejeitou a interpretação de que pretenda estabelecer um limite para a quantidade de cartões que cada consumidor poderá possuir.
Fonte: Brasil 247