Lula discursa na ONU: ‘Brasil não cabe no quintal de ninguém’
Por Redação — Brasil de Fato
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
No audio source provided.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) discursou na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) nesta terça-feira (22), em Nova York. Em um discurso cercado por expectativas, o presidente brasileiro criticou, indiretamente, as tentativas de interferência do governo Donald Trump nos países da América Latina, defendeu a soberania brasileira e aproveitou para tratar das eleições presidenciais de outubro, dizendo que o eleitorado brasileiro vai decidir “entre democracia e negacionismo”.
Em contraponto claro a Washington, Lula foi direto: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, disse o presidente brasileiro, fazendo alusão às diretrizes atuais da política externa estadunidense. Trump e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, já usaram a expressão “este é o nosso hemisfério” para conceituar que os países ocidentais devem obediência aos EUA.
No discurso, Lula apontou para o “recrudescimento de tentações hegemônicas”. “Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomente o desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculo para uma maior integração entre os vizinhos”, disse o petista, afirmando que a democracia “está novamente em xeque”.
Ele citou o caso da Venezuela, afirmando que “o povo venezuelano merece definir o próprio destino”. Sobre Cuba, Lula disse que “o mundo assiste estarrecido à punição imposta por um embargo econômico e cerco energético ilegais”.
“Quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas como armas de coerção e chantagem, as consequências são nefastas. Temos os minerais críticos e as terras raras que o mundo precisa para a transição energética. Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro, e é em benefício dele que serão exploradas”, destacou Lula.
Por tradição, o Brasil é o primeiro país a discursar na reunião anual mais importante da entidade. O rito foi estabelecido no marco da criação da própria ONU, ao fim da Segunda Guerra Mundial, e tem a ver com a importância que o Brasil teve no processo de articulação das Nações Unidas. O diplomata Oswaldo Aranha presidiu a primeira sessão da Assembleia Geral da ONU, tendo sido um dos principais nomes à frente do processo de criação do estado de Israel.
Neste 2026, em que Lula discursou pela décima vez no evento, o petista disse que estava sendo movido por um sentimento de “indignação”. “A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel”, afirmou.
Há anos, o governo brasileiro cobra uma reforma mais robusta no Conselho, que exprime a ordem mundial imediatamente posterior ao período pós-guerra. Na fala, Lula disse que “as concessões à lei do mais forte já passaram do limite”, em recado direto ao governo Trump.
No discurso em Nova York, o presidente brasileiro também alertou para as ameaças feitas ao Tribunal Penal Internacional (TPI) em um momento em que Washington, segundo informações da imprensa estadunidense, pode impor sanções ao principal tribunal internacional.
“Perseguir o Tribunal Penal Internacional e os seus integrantes é um estímulo” para a continuidade de crimes, reforçou Lula. “Ameaçar civilizações de extinção não trará estabilidade para o Oriente Médio. Famílias de todo o mundo pagam pelo aumento dos preços de combustíveis, fertilizantes e alimentos. Não haverá vencedores no campo de batalha”, afirmou o brasileiro, alertando para os perigos de guerras como as dos EUA e Israel contra o Irã, bem como entre Rússia e Ucrânia.
Não é incomum que presidentes brasileiros, ao discursarem em anos eleitorais, façam menção ao pleito. No discurso de Lula desta terça-feira, não foi diferente. Levando ao púlpito da ONU uma das pautas mais caras do eleitorado brasileiro, Lula falou sobre segurança pública e mencionou que o Brasil “não subestima o desafio do crime organizado”. Ele fez questão de dizer que o Brasil não aceitará ingerência estrangeira, em crítica velada à postura que os EUA têm tido.
“Não vamos terceirizar a responsabilidade das nossas fronteiras. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação. Esse é o espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos”, afirmou Lula.
O petista também reconheceu que, internamente, “o crime se aproveitou da falta de coordenação” entre estados e União, mas listou as políticas públicas de combate à criminalidade. “Estamos enfrentando todos os escalões da criminalidade, inclusive os magnatas do crime. O combate à corrupção continuará implacável, doa a quem doer”, disse Lula.
O presidente brasileiro também disse que seria uma “omissão histórica não enfrentar o desafio da regulamentação das big techs e da inteligência artificial. Um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão do neoliberalismo digital. A indústria bilionária das bets transformou o vício em lucro. O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio. Não vamos ceder à pressão de multinacionais que querem privatizar o nosso Pix”, afirmou.
Ao final do discurso, Lula avaliou que existe em todo o mundo “um anseio legítimo por mudanças”, mas destacou: “Mudar não é retroceder, mudar não é subtrair direitos, não é reeditar a teoria da supremacia racial e da submissão feminina, não é recolonizar o Sul Global”.
Lula concluiu dando um recado ao Brasil. Segundo o presidente, o pleito de outubro vai definir se o país “vai avançar rumo a um futuro com mais oportunidade ou regressar a um passado de exclusão”. “Sabemos que alguns abusam dessa liberdade [de expressão] para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país. Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém, ninguém nos afastará desse caminho”, disse.
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
Fonte: Brasil de Fato