Por Joaquim de CarvalhoBrasil 247

No início desta campanha eleitoral, manifestei-me contrariamente à participação de Lula nos debates do primeiro turno. Havia razões para isso. Presidente da República, à frente das pesquisas e com uma administração para defender, Lula correria o risco de entrar numa arena em que praticamente todos os adversários teriam nele o alvo principal.

Debate eleitoral não é entrevista. Tampouco é o ambiente ideal para discutir questões complexas. É uma disputa de frases curtas, interrupções, provocações e imagens destinadas a circular nas redes sociais.

Mas política exige a capacidade de olhar para a realidade quando a realidade muda.

E ela mudou.

A possibilidade de Lula comparecer ao debate da TV Globo, marcado para 1º de outubro, três dias antes da eleição, precisa ser analisada à luz de um dado que o sociólogo e especialista em pesquisas Marcos Coimbra vem destacando: há uma quantidade excepcionalmente elevada de eleitores que, na pesquisa espontânea, ainda não indicam um candidato à Presidência.

O Datafolha realizado entre 8 e 10 de setembro ajuda a dimensionar o fenômeno. Na pesquisa estimulada, apenas 4% apareciam como indecisos. Mas, quando os entrevistadores não apresentavam os nomes dos candidatos, 23% não sabiam em quem votar. Entre as mulheres, eram 29%; entre os jovens de 16 a 24 anos, 30%.

É um contingente enorme numa eleição disputada.

Isso significa que a reta final pode ter um peso maior do que normalmente teria. E o debate da Globo será o último grande acontecimento eleitoral transmitido para uma audiência nacional antes da abertura das urnas.

Há ainda uma segunda mudança importante.

Flávio Bolsonaro chega à reta final da campanha pressionado por revelações sobre suas relações com personagens que aparecem nas investigações dos casos Banco Master e INSS.

A mais recente foi publicada pela revista piauí : em 19 de janeiro de 2025, Flávio Bolsonaro viajou de Fort Lauderdale, na Flórida, para Brasília em um jato executivo cuja estrutura de propriedade tinha participação de Willer Tomaz e da Prime You, empresa da qual Daniel Vorcaro era sócio naquele momento.

Willer Tomaz, amigo de Flávio, é investigado pela Polícia Federal no inquérito sobre as fraudes envolvendo descontos de aposentados e pensionistas do INSS.

Segundo a reportagem, estavam no avião Flávio, sua mulher, Fernanda Bolsonaro, as duas filhas do casal e Willer Tomaz.

Há um detalhe cronológico que torna o episódio jornalisticamente ainda mais relevante.

O voo ocorreu em 19 de janeiro de 2025. O cronograma para o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro que está sob investigação, previa um primeiro pagamento de US$ 2 milhões no dia seguinte, 20 de janeiro. Segundo as investigações e reportagens já publicadas, Daniel Vorcaro acabaria destinando pelo menos R$ 65 milhões ao projeto.

Willer Tomaz aparece ainda em outra conexão.

Flávio utilizou durante a campanha um apartamento em São Paulo pertencente a uma empresa de Willer. Antes disso, o imóvel havia pertencido a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e apontado pela Polícia Federal como operador financeiro do ex-banqueiro. Zettel comprou o apartamento por R$ 5,5 milhões em abril de 2025 e o vendeu por R$ 3,5 milhões à empresa de Willer em fevereiro deste ano.

São fatos que naturalmente poderão aparecer no debate eleitoral — acompanhados, necessariamente, das respostas e explicações dos envolvidos.

É nesse contexto que a Folha informou que Lula passou a reavaliar sua estratégia e considera participar do debate da Globo.

A discussão dentro da campanha parece perfeitamente compreensível. De um lado, permanecem os riscos que existiam desde o início: como presidente e candidato à reeleição, Lula provavelmente enfrentará questionamentos de vários adversários e terá de defender quatro anos de governo em respostas necessariamente curtas.

Do outro, existe agora um eleitorado ainda não consolidado e uma sucessão de fatos novos envolvendo seu principal adversário.

Há também uma peculiaridade interessante nas regras estabelecidas pela Globo.

A emissora convidou Lula, Flávio Bolsonaro, Augusto Cury e Ronaldo Caiado. Segundo a Folha, as campanhas devem responder ao convite até sexta-feira, dia 25. Mas a confirmação não obriga o candidato a comparecer: mesmo depois de confirmar, ele poderá desistir.

Flávio, por sua vez, também ainda não confirmou presença e, segundo a Folha, sua participação está condicionada à decisão de Lula.

Forma-se, portanto, um pequeno jogo de espera.

E talvez esteja aí um dos aspectos mais interessantes dessa reta final: Lula não precisa necessariamente antecipar publicamente tudo o que pretende fazer.

Uma confirmação formal à emissora, se ocorrer, não precisa transformar-se imediatamente no principal assunto de sua campanha. E, pelas próprias regras divulgadas, a decisão definitiva pode permanecer aberta até muito perto do debate.

O suspense, neste caso, também passa a fazer parte da notícia.

Em 2022, ele participou do debate na Globo no primeiro turno, e ficou frente a frente com Jair Bolsonaro e também com o aventureiro Padre Kelmon, um nanico, e se saiu bem contra os dois adversários.

Agora, como presidente candidato à reeleição, poderá encontrar diante de si o filho do ex-presidente, Flávio Bolsonaro, justamente quando novas reportagens expõem relações deste com personagens investigados nos casos Master e INSS.

No começo da campanha, avaliei que Lula tinha mais a perder do que a ganhar comparecendo aos debates.

Hoje, a pergunta precisa ser refeita.

Não porque debate seja necessariamente bom ou ruim para quem lidera uma disputa, mas porque o eleitorado que ainda não consolidou sua escolha pode transformar os últimos dias numa etapa particularmente importante desta eleição.

O debate da Globo acontecerá em 1º de outubro.

As urnas serão abertas três dias depois.

Entre uma data e outra haverá pouquíssimo tempo para corrigir erros — mas tempo suficiente para uma imagem, uma pergunta ou uma resposta repercutirem pelo país inteiro.

Talvez por isso a pergunta sobre a presença de Lula tenha se tornado, ela própria, um dos acontecimentos políticos desta reta final.

E não podemos esquecer que Lula é bom de debate.

Fonte: Brasil 247

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