Lula decidiu reajustar Bolsa Família após ouvir mulheres sobre custo de vida
Por Aquiles Lins — Brasil 247
247 – Uma reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com um grupo de mulheres, realizada há cerca de três semanas, teve peso na decisão do governo de acelerar o reajuste do Bolsa Família diante das queixas sobre o custo de vida e o orçamento doméstico, segundo relatos de auxiliares do presidente.
As informações foram publicadas pela Folha de S.Paulo nesta sexta-feira (18). De acordo com a reportagem, Lula ouviu durante o encontro que, apesar de medidas adotadas pelo governo para ampliar a renda disponível, como a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil, permanece entre parte da população a percepção de que o dinheiro não é suficiente para cobrir as despesas até o fim do mês.
O diagnóstico levou o núcleo do governo a acelerar as discussões não apenas sobre o Bolsa Família, mas também sobre ações relacionadas aos preços dos combustíveis, ao endividamento das famílias e às apostas online.
O reajuste de 15,04% foi oficializado na quinta-feira (17). O valor mínimo garantido por família passará de R$ 600 para R$ 691, enquanto o benefício médio estimado aumentará de R$ 675 para R$ 777. Os novos valores começarão a ser pagos em 19 de outubro. A correção corresponde à inflação acumulada pelo INPC entre março de 2023 e agosto de 2026, segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.
Custo de vida entrou no centro das preocupações
Segundo os relatos obtidos pela Folha, Lula demonstrava incômodo com o fato de a avaliação do governo não avançar na proporção esperada pelo Palácio do Planalto mesmo após iniciativas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e o programa Gás do Povo.
Integrantes do governo passaram a atribuir parte desse quadro à percepção cotidiana das famílias sobre os preços e o endividamento. A dificuldade para fazer a renda durar durante todo o mês ganhou espaço também na campanha presidencial, em um momento em que temas econômicos passaram a ocupar parcela relevante do debate eleitoral.
O Datafolha divulgado nesta semana apontou estabilidade na avaliação do governo, com 34% classificando a gestão como ótima ou boa, 42% como ruim ou péssima e 23% como regular.
As discussões sobre o reajuste permaneceram concentradas no alto escalão nas últimas semanas, segundo a Folha. Um integrante da campanha de Lula afirmou ao jornal que só foi informado da medida na semana anterior ao anúncio, quando a decisão política já havia sido tomada e os estudos técnicos estavam em estágio avançado.
Até mesmo setores do Palácio do Planalto que não participavam diretamente das negociações teriam tomado conhecimento do assunto apenas por rumores dois dias antes da divulgação.
Governo optou por anúncio discreto
Aliados discutiram internamente qual deveria ser o grau de exposição política do reajuste diante da proximidade das eleições e da possibilidade de questionamentos sobre eventual utilização eleitoral do programa.
O formato escolhido foi uma cerimônia restrita, transmitida por vídeo e sem discurso de Lula. Parte dos aliados, contudo, defendia maior divulgação da medida por considerar o aumento de forte alcance social.
Além da decisão política, o governo atribui a viabilidade do reajuste à abertura de espaço no Orçamento. Segundo o Ministério do Planejamento, uma revisão nas projeções de despesas previdenciárias reduziu em R$ 11,5 bilhões a estimativa de gastos em 2026. O aumento do Bolsa Família terá impacto calculado em R$ 5,8 bilhões neste ano e em R$ 22,7 bilhões por ano em 2027 e 2028.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, rejeitou a comparação com o aumento concedido em 2022 pelo então presidente Jair Bolsonaro, que elevou o benefício de R$ 400 para R$ 600 no ano em que disputava a reeleição.
“O ajuste será incorporado ao Orçamento, sem aumento global de despesas, sem dar calote em precatório, sem necessidade de crédito extraordinário e sem prejuízo das nossas metas de resultado primário”, afirmou Durigan à Folha.
“O fato de estarmos organizando as contas públicas, com a superação de um déficit de cerca de 2 pontos percentuais do PIB, nos dá espaço fiscal para fazer essa recomposição inflacionária no Bolsa Família”, acrescentou.
Três modelos de reajuste foram analisados
Antes da definição, o governo estudou pelo menos três formas de atualizar os benefícios. A escolhida foi a correção linear, que aumenta o piso pago às famílias e alcança um número maior de beneficiários.
Outras alternativas em discussão envolviam a atualização do Benefício de Renda de Cidadania, calculado por integrante da família, ou a ampliação das parcelas adicionais destinadas a núcleos familiares com crianças, adolescentes, gestantes e nutrizes.
Segundo a Folha, técnicos consideravam essas duas possibilidades mais direcionadas às famílias numerosas. O governo, porém, decidiu aplicar a inflação acumulada ao conjunto dos valores do programa.
Endividamento e bets estão na próxima etapa
Depois do Bolsa Família, o Palácio do Planalto pretende avançar em medidas relacionadas ao endividamento das famílias e às plataformas de apostas online.
Lula já manifestou publicamente posição crítica às bets e defendeu restrições mais duras ao setor. A definição sobre novas iniciativas, no entanto, deve ocorrer após o retorno do presidente da viagem a Nova York para participar da Assembleia Geral das Nações Unidas.
Outra frente considerada pelo governo é o custo dos combustíveis. Na última semana, foram editadas medidas para ampliar a subvenção ao diesel, reduzir tributos incidentes sobre gasolina e etanol e conceder incentivos a refinarias.
Com a atualização anunciada nesta semana, o Bolsa Família terá sua primeira recomposição pela inflação desde a retomada do atual desenho do programa, em março de 2023. A nova parcela estará disponível a partir de 19 de outubro, conforme o calendário oficial de pagamentos.
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Legenda: Lula decidiu acelerar o reajuste do Bolsa Família após ouvir relatos sobre o peso do custo de vida no orçamento doméstico; piso do benefício passará a R$ 691 em outubro
Fonte: Brasil 247