Luiz Felipe Osório: “Trump pode provocar uma crise institucional se perder o Congresso”
Por Dafne Ashton — Brasil 247
247 – As eleições legislativas de 3 de novembro nos Estados Unidos podem abrir um novo período de instabilidade política no país, caso o Partido Republicano perca o controle do Congresso. A avaliação é do professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Luiz Felipe Osório, que participou do programa Brasil no Mundo, da TV Brasil. Segundo ele, uma derrota eleitoral não significa necessariamente o enfraquecimento da capacidade de mobilização de Donald Trump, que poderá intensificar os confrontos institucionais para preservar sua influência política.
O pleito, conhecido como eleição de meio de mandato, renovará as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, além de parte do Senado e de governos estaduais. A votação ocorre em um momento de desgaste da administração Trump, marcado por insatisfação com o custo de vida, questionamentos sobre a política externa e tensões entre o Executivo e setores da sociedade americana.
Para Osório, as eleições funcionarão como uma avaliação do segundo mandato do presidente republicano. O professor observa que, apesar da postura de enfrentamento adotada por Trump, seu governo enfrenta dificuldades para consolidar uma base majoritária de apoio na sociedade.
“O governo Trump, apesar do seu discurso muito impositivo e de medidas aparentemente duras e diretas, é um governo politicamente instável. Ele não detém a esmagadora maioria da população, muito pelo contrário”, afirmou.
Na avaliação do especialista, as medidas econômicas adotadas pela Casa Branca contribuíram para ampliar as contradições internas do governo. Ele destacou os efeitos das tarifas comerciais impostas a diferentes países, inclusive aliados históricos dos Estados Unidos, como parte de uma tentativa de recuperar a produção industrial transferida para outras regiões durante o processo de globalização.
Segundo Osório, Trump representa politicamente setores que perderam espaço econômico ao longo desse processo e que passaram a enxergar no discurso nacionalista uma possibilidade de recuperação de sua posição. Entretanto, as dificuldades para cumprir essas promessas alimentam a insatisfação social e pressionam o governo.
O professor considera provável que os republicanos percam a maioria na Câmara dos Representantes, embora o resultado no Senado permaneça mais incerto. Nesse cenário, Trump teria de enfrentar um Legislativo com maior capacidade de fiscalização e resistência às iniciativas presidenciais.
“A gente percebe que a probabilidade de ele perder a maioria na Câmara é grande”, afirmou Osório, ressaltando que o resultado eleitoral será determinante para compreender os próximos movimentos da administração americana.
A possibilidade de uma derrota republicana, entretanto, não deve ser interpretada como o início automático de uma desmobilização do trumpismo. Osório chama a atenção para a capacidade do presidente de transformar conflitos políticos em instrumentos de mobilização de seus apoiadores.
“Ainda que, porventura, ele venha a cacifar uma derrota nessas eleições de meio termo, ela não será uma derrota tão fragorosa como deixou outros presidentes tão amarrados”, avaliou.
O professor considera que a manutenção de uma base social mobilizada oferece a Trump condições para continuar disputando os rumos da política americana, mesmo diante de um Congresso controlado pela oposição. Nesse contexto, medidas de caráter autoritário poderiam ser apresentadas aos apoiadores como uma resposta à resistência das instituições.
“É uma derrota que vai ser muito disputada, que vai ter muito embate”, afirmou.
Durante o programa, o jornalista Jamil Chade também destacou os riscos de uma reação de Trump a um eventual revés nas urnas. Segundo ele, diferentemente de presidentes que aceitaram as limitações impostas por maiorias legislativas adversárias, Trump poderá recorrer a instrumentos do Executivo para confrontar o Congresso.
“Ele pode criar, na verdade, uma crise institucional nos Estados Unidos. Em vez de só se enfraquecer e lidar com esse enfraquecimento, ele pode abrir uma guerra contra o Congresso norte-americano”, alertou Chade.
Entre os cenários apresentados pelo jornalista estão a ampliação do uso de ordens executivas e a judicialização de decisões presidenciais, o que poderia produzir uma sucessão de disputas entre os poderes.
Osório acrescentou que a aproximação entre grandes empresários e o poder político também integra esse quadro de tensões. Ele mencionou a influência do financiamento eleitoral e as iniciativas de Trump para alterar mecanismos institucionais em benefício de seu campo político.
“Nesse contexto de crise, a roupagem institucional começa a ser desnudada, e determinadas relações vão ficando cada vez mais evidentes, principalmente essas relações muito diretas de grandes empresários, como Elon Musk, com o poder político central”, afirmou.
Para o professor, a conjuntura americana deve ser compreendida também a partir das transformações econômicas e sociais que atravessam o país. A deterioração das condições de vida de parcelas da população, associada às dificuldades de recuperação econômica, cria um ambiente no qual discursos de enfrentamento institucional encontram receptividade.
A capacidade de Trump de canalizar essas insatisfações ajuda a explicar, segundo Osório, por que uma derrota nas eleições legislativas não representaria necessariamente uma perda proporcional de sua força política.
O resultado de novembro também poderá comprometer as pretensões do presidente de prolongar sua permanência no poder. Osório lembrou que Trump vem defendendo a possibilidade de um terceiro mandato, atualmente impedido pela Constituição americana.
Para o especialista, a composição do novo Congresso terá papel decisivo na definição dos limites políticos do governo nos dois anos restantes de mandato. Mas a principal incógnita não será apenas a capacidade dos democratas de conter as iniciativas presidenciais, e sim a reação de Trump diante de uma eventual perda de poder.
Nesse cenário, a eleição de meio de mandato poderá deixar de ser apenas uma disputa pelo controle do Legislativo e se transformar em um novo capítulo do confronto entre o presidente e as instituições americanas, com repercussões sobre a estabilidade política dos Estados Unidos e suas relações com o restante do mundo.
Fonte: Brasil 247