Lojistas de bairro cortam atacadistas e apostam em importação direta para criar marca própria

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Por Allan RavagnaniCarta Capital

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Com 78% das buscas por e-commerce nas mãos de plataformas asiáticas, pequenos varejistas compram direto de fábricas e apostam em marca própria

A importação direta de fábricas chinesas virou saída para o pequeno varejo brasileiro, pressionado por plataformas asiáticas que concentram 78% das buscas por e-commerce no país, aponta estudo. Lojistas de rua e de shopping cortam atacadistas, compram pequenas quantidades e lançam produtos com marca própria para escapar da guerra de preços.

Elaborado pela Klavi e pela EY, o estudo mostra que os brasileiros gastaram cerca de R$ 130 bilhões no ano passado em marketplaces asiáticos, entre eles Shopee, Shein, AliExpress e Temu. Com esse volume, o lojista que vende os mesmos itens dos aplicativos viu a margem de lucro derreter.

Em resposta, pequenas e médias empresas passaram a trocar atacadistas locais, que embutem custos na cadeia, por fábricas na China. Especialistas chamam o movimento de internacionalização do próprio CNPJ, com a meta de criar marca própria, o chamado private label, e sair da disputa por preço.

Rodrigo Giraldelli, CEO da China Gate, empresa de assessoria de importação empresarial, afirma que a ideia de que importar exige contêineres inteiros deixou de valer para o pequeno lojista.

Segundo o executivo, o comerciante percebeu o risco de vender item idêntico ao dos marketplaces. “O pequeno varejista entendeu que, se ele vende exatamente a mesma capinha de celular ou a mesma blusa sem marca que está no aplicativo asiático, ele perde a venda”, diz.

A virada do último ano, de acordo com Giraldelli, veio com a importação direta fracionada. “Hoje, o lojista junta seu capital, importa pequenas cargas direto da fábrica chinesa, mas exige que o produto venha com a sua logo, sua embalagem e seu padrão de qualidade”, descreve.

Com logo e embalagem próprias, o produto deixa de disputar preço com item idêntico ao dos marketplaces. O comerciante passa a controlar padrão de qualidade e apresentação da mercadoria.

Na leitura de Giraldelli, a mudança altera o papel do lojista na cadeia. “Ele deixou de ser um mero revendedor e virou dono de uma marca. É a transição da sobrevivência para a escala”, resume.

Além da pressão dos marketplaces, o ambiente interno empurrou a troca de fornecedores. Com inflação e oscilação cambial, comprar de distribuidores no Brasil aperta o capital de giro do lojista.

De acordo com Giraldelli, o intermediário local precisa embutir custos de operação, impostos e lucro no preço. Ao acessar fornecedores na Ásia por meio de assessorias, a PME reduz o custo da mercadoria em até 50%, mesmo com impostos de nacionalização, frete e tarifas aduaneiras pagos de forma legal, afirma o executivo.

O ganho de margem financia três frentes. “Essa margem recuperada é o que permite ao lojista investir em marketing, melhorar o ponto de venda e, principalmente, blindar seu caixa”, analisa Giraldelli.

Giraldelli também comenta a disputa com as plataformas estrangeiras. “Não é mais o grande engolindo o pequeno. É o pequeno, ágil e bem assessorado, criando produtos exclusivos que o algoritmo do marketplace estrangeiro não consegue canibalizar”, afirma.

O movimento de importação ganha reforço com a formalização de empreendedores. Dados do Sebrae mostram que 3,4 milhões de pequenos negócios abriram nos sete primeiros meses do ano, alta de quase 14% sobre o mesmo período do ano anterior. O avanço amplia o número de CNPJs que podem recorrer à importação direta para abastecer o estoque.


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Fonte: Carta Capital

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