Por que 60% dos alemães do Leste se sentem cidadãos de segunda classe?
Por Washington Araújo — Brasil 247
O Muro de Berlim caiu. A Alemanha Oriental desapareceu. A moeda mudou, as fronteiras sumiram, os mapas foram refeitos e uma geração inteira cresceu ouvindo que a reunificação encerrara uma das grandes fraturas europeias do século XX.
Trinta e seis anos depois, a narrativa oficial esbarra num dado duro demais para caber nas cerimônias: cerca de 60% dos alemães do Leste ainda se consideram cidadãos de segunda classe.
Steffen Mau conhece esse problema por dentro. Nascido em Rostock, na antiga RDA, professor da Universidade Humboldt de Berlim e pesquisador do Instituto Max Planck, ele mostrou recentemente no Le Monde que esse sentimento aparece com força entre jovens nascidos depois de 1990. Gente que jamais viu um posto de fronteira, nunca viveu sob a Stasi e nunca carregou um passaporte da Alemanha Oriental tornou-se mais enfática na defesa de uma identidade do Leste.
A reunificação resolveu o mapa muito antes de resolver a vida. Os pais desses jovens receberam uma ordem histórica clara: adaptem-se. O modelo político seria o do Oeste. A moeda, as empresas, as universidades, os tribunais, o mercado de trabalho, os padrões de prestígio e a interpretação pública do passado chegariam fundamentalmente do lado vencedor. Milhões fizeram o esforço exigido. Os filhos, três décadas depois, olharam para o saldo.
Compartilhar passaporte não garantiu participação equivalente no patrimônio, no poder ou no reconhecimento.
A Alemanha tornou-se uma só perante a Constituição; dentro das empresas, das fortunas familiares, dos centros de decisão e das biografias, a divisão continuou cobrando seu preço.
O Oeste venceu
Chamar esse movimento de nostalgia pela RDA seria uma maneira cômoda de evitar os fatos.
Depois de 1990, alemães ocidentais ocuparam grande parcela dos postos de comando no antigo Leste. Empresas foram vendidas, carreiras desapareceram, centros decisórios permaneceram no Oeste e centenas de milhares de jovens qualificados partiram em busca de trabalho.
Steffen Mau estima que essa transferência de mão de obra representou entre 80 bilhões e 100 bilhões de euros em produtividade e crescimento deslocados para a parte ocidental do país.
Durante décadas, a reunificação foi apresentada como uma história em que democracia e prosperidade atravessaram a antiga fronteira para resgatar milhões de alemães.
O Leste ganhou liberdade política, eleições competitivas, circulação e instituições democráticas. Perdeu, ao mesmo tempo, empresas, posições de comando, redes profissionais e boa parte da autoridade para interpretar sua própria experiência.
A RDA foi uma ditadura. Isso pertence aos fatos. Outra questão é transformar a condenação do regime em desvalorização da biografia de quem viveu nele.
Uma fábrica fechada aparece nos relatórios como reestruturação econômica; para quem trabalhou ali por vinte anos, significa desemprego, perda de posição social e desmanche de uma vida. Uma universidade reformada entra na estatística da modernização; para o professor afastado, representa carreira interrompida e autoridade perdida.
O Oeste incorporou um território e passou a definir o padrão de pertencimento. Ao Leste coube provar que merecia lugar pleno no novo país. O Estado desapareceu; a sensação de inferioridade ficou.
Ressentimento vota
A extrema direita percebeu essa reserva de frustração antes de boa parte do establishment alemão. A AfD cresceu nos antigos territórios orientais e converteu ressentimento social em capital eleitoral. Seria intelectualmente preguiçoso reduzir milhões de votos a racismo, xenofobia ou radicalização.
Esses elementos existem, claro que existem. Existe também uma longa experiência de perda de status econômico, institucional e simbólico que os partidos tradicionais demoraram demais para enfrentar.
A AfD entrou nessa fresta. Disse ao alemão oriental que sua frustração tinha endereço, que Berlim pouco o ouvia, que as elites ocidentais o tratavam como periferia dentro do próprio país. Misturou perdas reais com inimigos fabricados, ressentimentos legítimos com soluções autoritárias, medo econômico com nacionalismo. O método funciona porque encontra matéria-prima acumulada durante décadas.
Quem passou anos ouvindo que precisava alcançar o padrão do outro lado torna-se especialmente vulnerável ao político que aparece dizendo o contrário: vocês foram humilhados, agora chegou a vez de cobrar.
A democracia alemã paga por ter confundido modernização com igualdade e integração institucional com pertencimento.
Como professor de relações internacionais não é preciso pensar muito para entender que desprezo também produz voto.
Depois do Muro
O fenômeno mais revelador descrito por Mau está entre os jovens. Os filhos reivindicam uma identidade que os pais aprenderam a esconder. Não pedem a restauração da RDA. Exigem o direito de dizer que aquela origem importa, que a história de suas famílias merece lugar na história comum e que três décadas de desigualdade entre Leste e Oeste não cabem em discursos comemorativos.
Há nisso uma ironia histórica difícil de ignorar: a Alemanha Oriental morreu como Estado e sobreviveu como identidade. Sobreviveu porque a reunificação tratou depressa demais a experiência de milhões de pessoas como assunto encerrado.
O Brasil deveria compreender esse mecanismo sem grande esforço. Nossa história está cheia de atos jurídicos celebrados como encerramentos definitivos enquanto suas consequências atravessavam gerações.
A escravidão terminou em 1888; seus efeitos sobre patrimônio, terra, renda, educação e poder continuam legíveis. O país aboliu a instituição e preservou grande parte da estrutura social produzida por ela.
A Alemanha oferece uma lição ainda mais severa porque fez investimentos gigantescos no Leste. Reconstruiu cidades, estradas, ferrovias e escolas. Transferiu bilhões de euros. Elevou padrões materiais. Mesmo assim, a fratura resistiu, porque patrimônio, poder, prestígio e memória não se redistribuem por decreto.
Esse é o ponto em que a reflexão de Steffen Mau deixa de ser apenas alemã. Uma sociedade pode elevar salários e continuar comunicando a milhões de cidadãos, por decisões, hierarquias e ausências, que eles chegaram depois e ocupam um degrau abaixo. Pode derrubar a fronteira e conservar a diferença entre quem manda e quem precisa pedir lugar.
A Alemanha destruiu o Muro, unificou a moeda, reorganizou o Estado e transferiu bilhões para o Leste. Falhou em impedir que a reunificação fosse vivida, por uma parcela enorme da população, como incorporação sob comando alheio. Trinta e seis anos depois, 60% ainda se dizem cidadãos de segunda classe. Esse número deixou de ser resíduo histórico. Tornou-se acusação política.
Governos gostam de inaugurar reconciliações porque fotografias de assinatura ficam bem nos arquivos. A História cobra depois o que a solenidade deixou sem resposta. O preço aparece no patrimônio concentrado, na ausência dos centros de poder, no ressentimento acumulado e, por fim, nas urnas.
O Muro caiu em 1989. A Alemanha se reunificou em 1990. Em 2026, milhões ainda precisam lembrar ao próprio país que pertencem a ele por inteiro. A pergunta, portanto, já mudou: por que uma das democracias mais ricas do mundo aceitou durante 36 anos conviver com uma cidadania medida em dois níveis?
Fonte: Brasil 247