Jardim Pantanal chega ao quinto dia de alagamentos e moradores cobram respostas do poder público
Por Emanuela Godoy — TVT News
A população do Jardim Pantanal, na Zona Leste de São Paulo, chegou nesta quarta-feira (16) ao quinto dia consecutivo enfrentando os efeitos das enchentes provocadas pelas fortes chuvas que atingiram a região. Leia em TVT News.
Mesmo com a redução do nível da água, moradores ainda precisavam atravessar trechos alagados para sair de casa, trabalhar e acessar serviços. A situação também deixou lama, mau cheiro, perdas materiais e dificuldades para a circulação de veículos.
O alagamento começou na madrugada de sábado (12). A região, localizada na várzea do Rio Tietê, convive historicamente com problemas de enchentes. A atual ocorrência, porém, chama atenção por acontecer em setembro e permanecer por vários dias.
Segundo informações apresentadas em representação protocolada pela bancada do PT na Câmara Municipal de São Paulo, o acumulado de chuva entre 11 e 12 de setembro chegou a 148,1 milímetros, volume 124,7% superior aos 66 milímetros esperados para todo o mês.
Moradores ainda enfrentam água nas ruas
Na Rua Tite de Lemos, um dos equipamentos construídos para auxiliar na drenagem da região apresentava, na manhã desta quarta-feira, vazão em apenas dois dos quatro canos existentes. A situação foi registrada por imagens de televisão e gerou questionamentos sobre o funcionamento e a manutenção do sistema.
A Prefeitura informou que o nível elevado do Rio Tietê compromete a capacidade de vazão dos sistemas de drenagem. O município também mantém operações de bombeamento em diferentes pontos do bairro, entre eles as ruas Serra do Grão Mogol, Tite de Lemos, Tietê, Antônio Dias Moura e Serra de Apodi.
Caminhões foram mobilizados para retirar a água das ruas. Ainda assim, alguns trechos permaneciam inacessíveis para veículos. A dificuldade também afetou a coleta de lixo.
Moradores relataram perdas de móveis e outros objetos dentro das casas. Parte da população deixou as residências, enquanto outras famílias permaneceram nos imóveis mesmo com a presença da água.
A Escola Estadual Cristina de Castro Paes, localizada a cerca de três quilômetros da região, foi transformada em abrigo e chegou a receber 12 famílias.
A situação levou moradores a organizar alternativas próprias para circulação e atendimento. Segundo relatos apresentados nos textos de apoio, uma embarcação obtida por meio de doação passou a ser utilizada para transportar pessoas que tinham dificuldade de atravessar as áreas alagadas, entre elas idosos, pessoas acamadas e moradores que precisam de atendimento médico.
Bancada do PT pede investigação ao Ministério Público


Diante da enchente, o vereador Alessandro Guedes (PT), líder da bancada do partido na Câmara Municipal e ex-presidente da CPI do Pantanal, protocolou representação no Ministério Público de São Paulo (MP-SP) pedindo providências sobre a situação.
O documento questiona, entre outros pontos, o cumprimento de uma decisão judicial definitiva relacionada às enchentes.
O processo nº 1001059-56.2014.8.26.0053, com trânsito em julgado em 22 de janeiro de 2026, determina que o município apresente planos de curto, médio e longo prazo para enfrentar os alagamentos, sob multa diária de R$ 10 mil, limitada a R$ 1,8 milhão. Segundo a representação, os prazos estabelecidos para março, maio e julho venceram sem que as determinações fossem cumpridas.
A representação também questiona a operação da Barragem da Penha. Segundo boletim citado no documento, às 12h de 11 de setembro as seis comportas estavam fechadas.
O pedido apresentado ao MP inclui os registros de operação, manobras e dados de telemetria, além da análise dos efeitos sobre as áreas localizadas a montante, entre elas o Jardim Pantanal.
A SP Águas nega que a operação da barragem tenha provocado os alagamentos.
CPI apontou necessidade de ações permanentes
A situação atual ocorre poucos meses após a conclusão dos trabalhos da CPI das Enchentes do Jardim Pantanal e Região, instalada na Câmara Municipal para investigar as causas dos alagamentos e buscar soluções para o território. A comissão encerrou os trabalhos no primeiro semestre de 2026.
O relatório final citado nos textos de apoio defende maior integração entre Prefeitura e Governo do Estado e acompanhamento permanente do sistema hidráulico.
Entre as recomendações estão a criação de uma estrutura administrativa específica para o Jardim Pantanal, o reforço de recursos para obras de micro e macrodrenagem, a modernização do sistema de drenagem urbana e a execução de obras de controle de cheias.
O documento também propõe a limpeza e o desassoreamento de córregos e rios, incluindo o córrego Itaim; estudos para novos reservatórios de retenção; recuperação ambiental de áreas degradadas e da funcionalidade da várzea do Tietê; além do fortalecimento do planejamento habitacional.
Outra recomendação é a criação de uma coordenação permanente envolvendo Prefeitura, Governo do Estado, União, concessionárias, órgãos ambientais, saneamento, habitação, Defesa Civil e fiscalização.
Proposta de gabinete de crise exclusivo
Diante da nova enchente, foi apresentada ainda a proposta de criação de uma Sala de Situação ou Gabinete de Crise específico para o Jardim Pantanal, União de Vila Nova, Jardim Helena e Vila Itaim.
A estrutura seria integrada ao gabinete geral da Prefeitura, mas teria acompanhamento permanente da região enquanto houvesse situação de risco. A proposta prevê participação de órgãos municipais, como Defesa Civil, CGE, SIURB, SEHAB e Subprefeitura de São Miguel Paulista, além de diálogo com órgãos estaduais responsáveis pelo sistema hidráulico.
A ideia é que sejam divulgados boletins operacionais periódicos, com informações sobre o nível do Rio Tietê, a situação da Barragem da Penha, funcionamento das comportas, pôlderes e bombas, previsão de chuva, medidas emergenciais, recursos disponíveis e orientações às famílias.
Para os moradores, a demanda envolve não apenas a retirada da água depois das enchentes, mas também informações sobre o que está sendo feito enquanto a população permanece exposta ao risco.
Recupera Pantanal prevê remoções e obras
A Prefeitura iniciou em 2025 o programa Recupera Pantanal, que prevê R$ 700 milhões em investimentos até 2029. Entre as ações está a remoção de 4.344 imóveis para ampliar áreas permeáveis e recuperar ambientalmente o território.
Segundo o município, 789 famílias haviam sido retiradas de áreas de risco desde dezembro de 2025 até o balanço divulgado nesta semana, enquanto 1.021 famílias foram cadastradas em programas de assistência social.
Também são citados R$ 59,8 milhões em obras de microdrenagem e pavimentação no Jardim São Martinho. De acordo com a Prefeitura, 77,2% das galerias previstas já foram concluídas e estão em operação.
O Jardim Pantanal tem cerca de 45 mil moradores e enfrenta enchentes recorrentes por estar em uma área de várzea do Rio Tietê. A permanência da água durante vários dias evidencia, segundo as propostas apresentadas pela CPI, a necessidade de combinar medidas emergenciais com obras de drenagem, manutenção, planejamento urbano, habitação e proteção social.
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Fonte: TVT News