Jão encanta e confunde fãs em show teatral de nova turnê, com Erika Hilton

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A Gazeta

Show da turnê 'Memórias Póstumas' de Jão, no Nubank Parque, em São Paulo

Show da turnê ‘Memórias Póstumas’ de Jão, no Nubank Parque, em São Paulo
Guilherme Luis/Folhapress
Jão atrasou em meia hora o combinado com os fãs. Mas, quando o show começou, às 20h30 desta sexta, uma gritaria eufórica explodiu no estádio Nubank Parque, na zona oeste de São Paulo. Finalmente o espetáculo começaria.

Daí, de novo, frustração. Quem surgiu no palco foi uma mulher, não o cantor. A plateia ficou calada, sem entender. Tratava-se de Isabel Teixeira, atriz que hoje vive a vilã de “Quem Ama Cuida”, a novela das nove. Fez um discurso teatral sobre a criação do mundo, reza, vida e morte. Falou das contradições do ser humano, de paciência, de virtudes. Enquanto ela declamava o texto, os fãs se entreolhavam. Uns desistiram de gravar.

Sete minutos depois, música finalmente soou nas caixas de som. Dessa vez era Jão mesmo. De terno preto, ele surgiu cantando “Aurora”, até agora a música mais bem-sucedida do seu disco mais recente, “Memórias Póstumas”. O trabalho lançado em julho agora dá partida a uma suposta turnê que não tem outras datas confirmadas.

“Aurora” foi escolha boa para animar a plateia. Jão é hábil com espetáculos e montou um palco que toma quase toda a extensão do gramado do estádio. Eram duas passarelas com um imenso círculo no meio. Havia água no chão do palco, o que deixou o show meio cinematográfico.

Jão terminou a primeira música encharcado após os bailarinos chutarem água em sua direção. Em certo momento, foi chamado de gostoso pela plateia. Respondeu dizendo que estava mais gostoso que nunca.

O formato do palco, posto no meio do estádio, permitiu que os fãs rodeassem a estrutura, em vez de terem de se enfileirar diante de um palanque posicionado no fundo, como de costume. Dessa forma, Jão pôde se aproximar de uma quantidade maior de fãs, algo que o britânico Harry Styles também fez recentemente em São Paulo.

O show seguiu com uma mistura de músicas novas e antigas, esquema tradicional de turnês de música pop. Jão cantou “Doce”, lançada em 2021, e a mais antiga, “A Rua”, do seu disco de estreia, de 2018. Em seguida, apresentou “Memórias Póstumas”, em que fala de morte e ossos.

Luto é tema central no disco novo de Jão, que se afastou dos fãs e das redes sociais por cerca de um ano quando encerrou sua turnê anterior. Nesse período, o cantor perdeu o pai, para quem dedica várias músicas do novo projeto.

“Esse disco me fez olhar para os detalhes. O pão, o ‘bom dia’. Antes eu achava que tudo precisava ser sentido de um jeito absurdo, mas tudo pode ser sentido também no real, na reza. Essa música é sobre os detalhes de uma pessoa. Da minha pessoa”, Jão disse antes de “Tudo me Lembra”. Na canção, ele fala de imagens que o fazem lembrar da família.

Popular entre os jovens, Jão construiu uma carreira sólida com letras confessionais e melodias que grudam na cabeça. Em um dos seus primeiros sucessos, fez adolescentes gritarem que não querem morrer sozinhos. Depois, emplacou nas rádios “Idiota”, sobre se sentir abobado quando apaixonado.

Isabel Teixeira, a atriz, interrompeu o show mais quatro vezes. Numa delas, falou sobre o lobo, animal que Jão tem como símbolo por causa do seu primeiro álbum, chamado “Lobos”. Enquanto Teixeira declamava características do bicho, dançarinos com fantasias de lobo caminhavam pelo palco. Parte do público seguia fazendo cara de incompreensão.

Havia uma certa artificialidade no discurso de Teixeira, que emendava fatos e histórias sem aparente conexão. Era mais difícil ainda entender a interseção entre o texto e o show. Não contribuiu que o microfone dela ficasse abafado quando o volume dos instrumentos aumentava. Isso destruiu o ar dramático que a atriz, competente, tentava empregar ao texto. Teixeira afirmou em entrevista recente estar impressionada com o novo disco de Jão.

A personagem dela é uma espécie de entidade que observa e inveja a humanidade. Em outro momento, agora com Jão no palco, ela discute a função de medicamentos, do sono, do pensamento. A sensação é de que Jão quis provar no show a sua habilidade na escrita com uma colagem de frases complicadas.

Mas seu poder está mesmo é nas canções. Quando cantou “Ainda te Amo”, ele fez as crianças e adolescentes da plateia berrarem versos como “eu bato meu carro, aprendo a roubar” e “eu arranjo briga, bebo em algum bar”.

Mais animado ainda foi o momento dedicado a “Meninos e Meninas”, que se tornou uma espécie de hino para pessoas bissexuais, como o próprio Jão se identifica. No meio da performance, apareceu no palco a deputada federal Erika Hilton, uma das figuras mais conhecidas da nova geração da esquerda política. Ao fim da canção, ela homenageou a comunidade LGBTQIA+ e disse amar Jão.

“Eu quis criar um show íntimo para essas 50 mil pessoas”, ele afirmou a certa altura do show. “Tenho orgulho das coisas que fizeram sucesso e das que fracassaram.”

Jão afirmou que tinha receio de cantar o disco novo e ter de relembrar as sensações que as músicas lhe causaram quando as escreveu. Já muito à vontade com palcos imensos, ele terminou o show sem aparentar desconforto algum.

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Fonte: A Gazeta

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