Jaishankar defende o BRICS e o Sul Global e exige reforma da ONU: “Quem se opõe não se importa com ela”
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – Em meio às intensas discussões da semana de alto nível da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, o ministro das Relações Exteriores da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, fez uma defesa contundente da reestruturação da governança multilateral global, do protagonismo dos BRICS e da centralidade das demandas do Sul Global. Participando de painel promovido pelo think tank Observer Research Foundation (ORF), Jaishankar rechaçou a tese de que contestar a atual paralisia da ONU significaria enfraquecer o organismo: na visão do diplomata indiano, são justamente as potências que travam a abertura do sistema que o empurram para o anacronismo e a irrelevância.
“Aqueles que querem a reforma da ONU são os que realmente se importam com ela. Eu diria a vocês: quem se opõe à reforma são aqueles que não ligam para a ONU. Eles apenas usam a organização, mas não se importam com o seu futuro”, afirmou Jaishankar diante de uma plateia internacional de ministros, diplomatas e analistas.
A declaração deu o tom de um debate que expôs a insatisfação crescente das nações em desenvolvimento com uma arquitetura desenhada em 1945, dominada por membros permanentes com poder de veto, enquanto tragédias humanitárias, como o massacre em Gaza, e crises econômicas globais escancaram a inação do Conselho de Segurança.
Negociação com base em texto e superação do veto: o caminho para reformar a ONU
Indo além dos discursos diplomáticos de praxe, o chefe da diplomacia de Nova Délhi defendeu que a reforma da ONU precisa entrar em uma fase técnica e executiva imediata, por meio de negociações baseadas em texto formal (text-based negotiations).
“Se estamos falando sério sobre reformas, precisamos de negociações sobre um texto formal. Sem um texto, não é negociação — é apenas ganhar tempo. Todas as propostas devem constar desse documento para que possamos chegar a uma resolução democrática”, explicou.
Jaishankar também atacou a exigência de uma “unanimidade ilusória”, usada por potências tradicionais como pretexto para travar transformações profundas:
“Você não atinge reformas por unanimidade. Em uma democracia, as decisões são tomadas pela maioria, pelo voto. Esse é o caminho: todos colocam suas perspectivas na mesa e os países deliberam.”
O BRICS como contraponto não-ocidental ao G7
Ao responder a provocações sobre um suposto choque de sobrevivência entre blocos emergentes e a própria ONU, Jaishankar rejeitou qualquer leitura de soma zero e situou o BRICS como o motor que revigora e democratiza a ordem internacional de baixo para cima.
“Essa é uma falsa escolha. O próprio documento dos BRICS reafirma que a ONU é central para o sistema internacional. O que os BRICS oferecem é uma plataforma para o pensamento alternativo. No fundo, é uma plataforma não-ocidental — assim como o G7 representa o Ocidente”, argumentou.
O chanceler lembrou que a força do bloco reside no reflexo direto da redistribuição de poder no mundo moderno:
“A verdadeira prova dos BRICS foi a sua expansão recente. Dobramos o número de membros, mas a procura era tão grande que poderíamos ter quadruplicado facilmente. Há uma fila de países querendo entrar porque o BRICS congrega visões, crenças e contribuições não-ocidentais cujo peso no debate global não para de crescer.”
Sul Global e a nova diplomacia: confiança contra retórica
Questionado sobre as diretrizes que devem orientar a política externa contemporânea — dividida entre interesses pragmáticos, valores declarados e confiança mútua —, Jaishankar desmistificou o apelo a “valores” abstratos frequentemente instrumentalizados pelas potências hegemônicas.
“Valores são frequentemente pregados, mas não praticados. A confiança, por outro lado, é empírica e baseada no histórico real de ações. Se você fez algo bom e contribuiu, as pessoas se lembram. Se agiu com deslealdade, as pessoas também não esquecem”, sustentou.
Para o chanceler, essa lógica valoriza a estatura moral dos países em desenvolvimento:
“A confiança é um conceito democrático: um país não precisa ser um gigante militar ou financeiro para ser confiável. Nações pequenas que agem de forma íntegra e decente conquistam enorme confiança.”
Inteligência Artificial e a hegemonia tecnológica: o protagonismo das pessoas
Diante do risco de que a corrida tecnológica por capacidade de processamento, supercondutores e infraestrutura energética de Inteligência Artificial crie uma bipolaridade estrita entre Washington e Pequim, Jaishankar rejeitou visões deterministas e reposicionou o Sul Global no centro da disputa:
“Faltou uma palavra na lista de chips, energia e capital: pessoas. A tecnologia precisa ser desenvolvida por pessoas e para pessoas. De onde virão as aplicações práticas e os casos de uso reais da IA? Do mundo real, da maioria da população global.”
Para o diplomata indiano, os países do Sul não serão meros espectadores passivos:
“Reconhecemos a liderança técnica inicial de certas potências, mas o mundo atual é muito mais democrático e articulado. O restante do planeta não vai aceitar simplesmente ser governado pelo avanço tecnológico alheio. O peso demográfico e as necessidades concretas das nossas sociedades ditarão os rumos da aplicação dessa tecnologia.”
Unidade contra o colonialismo e o imobilismo
As ponderações de Jaishankar encontraram forte ressonância entre as demais autoridades presentes na mesa, incluindo a chanceler da Jamaica, Kamina Johnson Smith, o ministro do Suriname, Albert Ramdin, e o representante de Gana, Samuel Okudzeto Ablakwa.
Ablakwa elogiou a atuação da diplomacia indiana ao viabilizar o ingresso definitivo da União Africana no G20 e criticou duramente a ausência permanente do continente africano no Conselho de Segurança da ONU: “Não faz sentido que um continente de 1,4 bilhão de pessoas permaneça excluído, submetido a um mecanismo de veto que paralisa o mundo diante de horrores como o de Gaza. A ONU precisa aprender com a iniciativa da Índia e romper com essa estrutura anacrônica”.
Em Nova York, a fala de S. Jaishankar consolidou a constatação de que a reconfiguração da governança multilateral não é mais uma concessão negociável pelas antigas potências coloniais, mas uma exigência mandatória da maioria global para garantir que o sistema internacional sobreviva aos desafios do século XXI.
Fonte: Brasil 247