Investidores não conseguem combater a crise climática sozinhos, aponta estudo da LSE
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A mobilização do mercado financeiro se tornou uma das principais apostas para acelerar o combate às mudanças climáticas na última década. Desde o Acordo de Paris, em 2015, bancos, gestoras de recursos e fundos de pensão passaram a anunciar compromissos para alinhar seus investimentos à meta de neutralidade de carbono. A expectativa era que a capacidade de direcionar bilhões de dólares em capital ajudasse a transformar as empresas e a economia global.
Mas essa estratégia tem limites. Uma pesquisa liderada por Tom Gosling, professor e diretor da Iniciativa em Finanças Sustentáveis do grupo de mercados financeiros da London School of Economics (LSE), no Reino Unido, argumenta que investidores não podem liderar, sozinhos, a transição para uma economia de emissões líquidas zero. O papel central, segundo o estudo, cabe aos governos, responsáveis por estabelecer políticas públicas, regras e incentivos capazes de orientar as decisões do mercado.
A análise reflete uma mudança de perspectiva em relação ao otimismo que marcou os anos seguintes ao Acordo de Paris, especialmente no período que antecedeu a COP26, realizada em Glasgow, na Escócia, em 2021. Naquele momento, havia uma expectativa crescente de que investidores não apenas financiassem a transição climática, mas também pressionassem as empresas a abandonar modelos de negócios intensivos em carbono.
Desde então, porém, três fatores tornaram essa expectativa mais difícil de sustentar: o distanciamento entre as metas climáticas e a trajetória real das emissões globais; os limites da influência dos investidores sobre as decisões empresariais; e a fragmentação do apoio político às medidas de combate às mudanças climáticas.
“Existia a narrativa de que os investidores podem decidir para onde vai o capital e, assim, transformar a economia. Mas não é assim que funciona”, afirma Gosling, em entrevista à LSE.
O limite do poder do dinheiro
Um dos exemplos citados pelo pesquisador para ilustrar o limite deste poder é o da petrolífera britânica BP. Em 2022, a empresa anunciou uma mudança de estratégia para ampliar sua atuação em energias renováveis, em um movimento que parecia sinalizar uma transformação do setor de petróleo e gás. A dificuldade de tornar essas atividades rentáveis, no entanto, levou a companhia a rever seus planos e voltar a priorizar os negócios ligados aos combustíveis fósseis. Para Gosling, o episódio ilustra como as decisões empresariais continuam condicionadas às perspectivas de retorno financeiro, mesmo quando há pressão de investidores por compromissos ambientais mais ambiciosos.
Isso não significa que o mercado financeiro seja irrelevante para a transição energética. O ponto é que a capacidade de influenciar uma empresa depende de fatores como incentivos econômicos, condições regulatórias e viabilidade comercial, aponta o pesquisador. Investidores podem pressionar conselhos de administração e cobrar mudanças, mas dificilmente conseguirão sustentar, por muito tempo, uma estratégia que contrarie os interesses econômicos percebidos pela companhia.
O cenário político também interfere nessa equação. Nos Estados Unidos, as disputas em torno das políticas climáticas tornaram o tema mais controverso para parte do mercado. Na Europa, embora os compromissos ambientais permaneçam relevantes, cresce a preocupação com a distância entre as metas anunciadas e os resultados concretos.
Vender ativos poluentes não significa reduzir emissões
Outro problema apontado pela pesquisa é a diferença entre diminuir a pegada de carbono de uma carteira de investimentos e reduzir efetivamente as emissões da economia.
Uma das estratégias adotadas por investidores consiste em vender participações em empresas com altas emissões para melhorar os indicadores climáticos de seus portfólios. Embora isso possa reduzir as emissões contabilizadas pelos investidores, não significa necessariamente que as empresas estejam poluindo menos. “Isso permite dizer que as emissões diminuíram. Mas, na realidade, outra pessoa comprou essas empresas. Elas continuam existindo. Você não mudou nada de fato”, explica Gosling.
A crítica questiona uma abordagem que privilegia o desempenho climático das carteiras sem necessariamente produzir transformações na economia real. Se um ativo intensivo em carbono apenas troca de proprietário, as emissões associadas às suas operações podem permanecer praticamente inalteradas.
Por isso, o estudo defende que a avaliação da atuação dos investidores considere não apenas indicadores financeiros e metas de descarbonização dos portfólios, mas também a capacidade de promover mudanças verificáveis nas operações das empresas.
Para chegar às conclusões, Gosling e sua equipe organizaram oficinas com mais de 60 participantes em importantes centros financeiros internacionais, incluindo Londres, Nova York, Amsterdã e Singapura. O grupo reuniu representantes de proprietários de ativos, como fundos de pensão, e gestores responsáveis pela aplicação desses recursos.
O objetivo foi discutir o que os investidores conseguem fazer, na prática, para contribuir com o enfrentamento da crise climática. O resultado não representa um consenso formal entre os participantes, mas fundamenta uma análise independente sobre os caminhos possíveis para a atuação do setor financeiro.
A principal recomendação é substituir compromissos genéricos e padronizados por estratégias direcionadas a oportunidades específicas de redução de emissões. Em vez de exigir que todas as empresas transformem integralmente seus modelos de negócios, investidores deveriam identificar onde sua influência pode gerar resultados concretos.
Uma petrolífera, por exemplo, pode resistir a uma exigência de abandonar sua atividade principal, mas estar mais propensa a reduzir vazamentos de metano em suas operações. A medida não resolve, por si só, o problema das emissões associadas aos combustíveis fósseis, mas pode produzir ganhos climáticos mensuráveis.
A abordagem proposta pela LSE exige que investidores desenvolvam uma compreensão clara de como suas decisões podem gerar impacto. Isso inclui identificar os obstáculos à descarbonização, avaliar as condições econômicas e regulatórias de cada setor e priorizar intervenções com maior potencial de resultado.
Cinco caminhos para ampliar a contribuição dos investidores
O relatório identifica cinco frentes em que o mercado financeiro pode fortalecer sua atuação climática.
A primeira é aproximar as prioridades dos proprietários de ativos das decisões dos gestores de investimentos. Fundos de pensão e outros investidores institucionais podem ter interesse de longo prazo na redução dos riscos climáticos, mas essas prioridades nem sempre aparecem nos mandatos e nas metas de quem administra seus recursos.
A segunda é ampliar a participação dos investidores na formulação de políticas públicas. Para os pesquisadores, o setor financeiro ainda utiliza pouco sua capacidade de influenciar o debate regulatório, apesar de sua importância para o funcionamento dos mercados e para o financiamento da transição energética.
A terceira frente é aumentar os investimentos em mercados emergentes, onde uma parcela significativa da transformação econômica e energética ainda precisa acontecer. Nesse caso, os entraves nem sempre estão na falta de capital, mas também em questões institucionais, de governança e de familiaridade dos investidores com esses mercados.
A quarta recomendação é incorporar melhor os riscos físicos das mudanças climáticas às decisões financeiras. Eventos extremos, como ondas de calor, enchentes e secas, podem afetar ativos, cadeias produtivas e a capacidade de pagamento de empresas. Segundo a análise, esses riscos precisam receber mais atenção, para além daqueles associados às mudanças regulatórias e às políticas de descarbonização.
Por fim, na quinta, o estudo sugere repensar as grandes coalizões internacionais de investidores. Embora tenham ajudado a disseminar compromissos climáticos, algumas dessas iniciativas se tornaram difíceis de coordenar. Colaborações menores, organizadas por setor, região ou problema específico, podem facilitar a definição de prioridades e a obtenção de resultados.
A transição depende de governos e mercados
A pesquisa também aponta diferenças importantes entre as regiões analisadas. Enquanto o debate climático se tornou mais politicamente sensível nos Estados Unidos, investidores europeus enfrentam o desafio de aproximar compromissos ambiciosos da realidade econômica. Em Singapura, os participantes demonstraram uma visão mais pragmática, na qual a colaboração entre governos e investidores é tratada como parte habitual do funcionamento da economia.
Essa diversidade reforça a ideia de que não existe um único modelo de atuação climática aplicável a todos os mercados. As estratégias precisam considerar as condições políticas, institucionais e econômicas de cada região.
Para Gosling, reconhecer os limites do mercado financeiro não significa abandonar a ambição climática, mas sim compreender que a alocação de capital, por si só, não substitui decisões políticas capazes de mudar os incentivos econômicos.
Governos têm instrumentos para estabelecer padrões de emissões, criar mecanismos de precificação do carbono, definir regras para os setores produtivos e incentivar tecnologias de baixo carbono. Essas medidas podem tornar investimentos sustentáveis mais atrativos e reduzir a vantagem econômica de atividades altamente poluentes.
Sem esse ambiente, a atuação dos investidores tende a encontrar obstáculos. Com políticas consistentes, por outro lado, o capital privado pode ajudar a financiar projetos, acelerar a adoção de tecnologias e pressionar empresas a cumprir exigências ambientais.
A conclusão do estudo é que investidores devem ocupar um papel menos central no discurso sobre a transição climática, mas mais efetivo na prática. Em vez de serem tratados como protagonistas capazes de resolver a crise por meio de decisões financeiras, eles precisam atuar como parceiros de uma transformação conduzida por políticas públicas.
Como resume Gosling, quando os governos recuam, há um limite para o que os investidores conseguem fazer. Eles não podem substituir o poder público, mas ainda podem manter a questão climática na agenda e contribuir para acelerar as mudanças necessárias.
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Fonte: umsoplaneta