Inter (INBR32) ainda não viu o pior: inadimplência deve subir no 3T26; CEO revela de onde vem a pressão
Por Camille Lima — Seu Dinheiro
Quem aposta na recuperação das ações do Inter (INBR32) ainda terá de lidar com um velho conhecido nos próximos resultados: a inadimplência. O banco digital espera que o índice de atrasos volte a subir no terceiro trimestre de 2026, em meio à maturação da carteira de crédito e aos efeitos do ciclo de juros elevados.
A piora já era esperada pelo comando do banco. Em conversa com jornalistas na sede do Inter, em Belo Horizonte, o CEO da operação brasileira, Alexandre Riccio, afirmou que o atual ciclo de inadimplência ainda precisa ser atravessado antes que os indicadores voltem a melhorar.
“É um ciclo de inadimplência maior que temos que passar por ele. Não tem mudança nos planos de longo prazo do Inter”, afirmou.
Essa perspectiva ajuda a explicar parte da pressão que as ações do Inter vêm sofrendo desde o início do ano na bolsa norte-americana. Para Riccio, porém, a reação dos investidores tem sido mais intensa do que os fundamentos operacionais do banco justificariam.
“Falando de mercado, a reação pode parecer extrema em função de prazos muito longos de perspectivas de resultados. É uma incerteza que movimenta mais o preço do que o dia a dia sólido de execução do banco”, disse.
Por dentro da inadimplência no Inter
No último trimestre, a carteira de crédito cresceu 29% em relação ao mesmo período do ano
anterior, sustentada por uma alta de 11% no volume de empréstimos por cliente ativo.
O índice de inadimplência acima dos 90 dias subiu de 5,1% no 1T26 para os atuais 5,3%. Os atrasos de curto prazo, de 15 a 90 dias, também subiram de 4,6% para 4,8% até o fim de junho.
Segundo Riccio, a composição da carteira de crédito do Inter, que chegou a de R$ 55,4 bilhões, ajuda a mitigar uma deterioração mais acentuada.
Isso porque cerca de dois terços do crédito do Inter têm algum tipo de garantia, enquanto um terço é formado por operações sem colateral.
Acontece que é justamente nesta última fatia que está o principal foco de preocupação: o cartão de crédito.
O produto apresenta risco maior, admite o executivo, ao mesmo tempo em que vem ganhando espaço na carteira do banco. A estratégia, segundo ele, é fazer com que esse crescimento venha acompanhado de maior rentabilidade.
Mesmo com a pressão sobre a qualidade dos ativos, o Inter mantém a meta de crescer acima da média do mercado. A expectativa é encerrar 2026 com expansão de 25% a 30%, segundo Riccio.
Consignado privado também pesa nos indicadores
Além do cartão, outro ponto de atenção é o consignado privado, cuja carteira vem crescendo rapidamente dentro do Inter e atingiu R$ 2,8 bilhões no último trimestre.
De acordo com Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, a carteira ainda passa por uma fase de maturação, o que naturalmente eleva a inadimplência dos contratos.
“O dado do terceiro trimestre ainda mostrará uma pequena alta refletindo a maturação do consignado privado e o cenário macro recente”, afirmou.
O produto apresenta hoje uma taxa de inadimplência próxima de 10%, segundo dados do Banco Central. Parte desse número, porém, não estaria relacionada a uma deterioração efetiva da capacidade de pagamento dos clientes, mas a problemas operacionais próprios da nova modalidade, segundo a economista.
Entre eles, Vitória cita a escrituração pelas empresas, os repasses e a necessidade de revinculação do empréstimo ao trabalhador por meio da Dataprev e do eSocial quando há mudança de emprego.
“A ausência de revinculação imediata faz com que a troca de emprego vire inadimplência operacional temporária, e não inadimplência por desemprego real”, disse.
Segundo a economista, as correções no sistema começaram a rodar em setembro e a expectativa é de que os problemas sejam regularizados entre outubro e novembro.
Para o Inter, a resolução desses gargalos pode ajudar a reduzir a inadimplência e, ao mesmo tempo, preservar a atratividade do produto.
“É um produto excelente para o trabalhador brasileiro, custando de duas a quatro vezes menos que o crédito aberto sem garantia. A resolução dos gargalos operacionais vai reduzir a inadimplência e baixar ainda mais as taxas ofertadas”, afirmou Riccio.
Quando a inadimplência deve começar a virar?
Vitória afirma que a explicação para a deterioração dos indicadores de inadimplência também passa pelo efeito defasado da política monetária.
Segundo ela, historicamente, o impacto do pico da Selic sobre a inadimplência dos bancos aparece com uma defasagem de cerca de nove meses.
“Como a queda da Selic está mais lenta do que o esperado e o governo trouxe estímulos fiscais e creditícios, o ciclo acabou se prolongando. O pico de inadimplência está se fazendo agora no terceiro trimestre, mas já começamos a ver nos nossos indicadores uma marginal melhora com a queda gradual da Selic”, afirmou.
O problema é que, para o investidor, ainda existe uma variável importante no horizonte, que é o caminho dos juros daqui para frente.
A trajetória da Selic continua sujeita às incertezas em torno do cenário fiscal, da inflação e das eleições presidenciais de outubro.
Por isso, embora o Inter já identifique sinais iniciais de melhora em seus indicadores, Vitória afirma que o horizonte para a qualidade dos ativos ainda não está totalmente definido.
“Nesse cenário, a queda da Selic continua, talvez com uma pausa, mas vemos espaço para queda. A inadimplência segue essa queda, deveria continuar reduzindo nos próximos meses”, afirmou.
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Fonte: Seu Dinheiro