Indefinição no STF sobre Moraes trava debate eleitoral e favorece Flávio Bolsonaro, avalia campanha de Lula
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – A campanha à reeleição do presidente Lula (PT) avalia que a indefinição no julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre as suspeitas envolvendo o ministro Alexandre de Moraes tem prejudicado os planos de alterar a pauta da disputa eleitoral, favorecendo o discurso do pré-candidato oposicionista Flávio Bolsonaro (PL), segundo reportagem do jornal O Globo. Integrantes do governo e estrategistas petistas enxergam com preocupação o prolongamento da crise na Corte, que tomou o centro do debate político e impediu que a corrida presidencial se concentre na comparação de programas e propostas de governo ou no contraste entre as gestões do atual presidente e de Jair Bolsonaro (PL).
A avaliação no entorno do Palácio do Planalto é de que a associação entre Lula e Alexandre de Moraes tornou-se inevitável, dado o papel do magistrado como relator do processo sobre a tentativa de golpe de Estado de 2023, que culminou na prisão de Bolsonaro. Embora a crise institucional no Judiciário não tenha sido provocada pelo governo federal, aliados reconhecem que o desgaste à imagem da Suprema Corte acaba por respingar no próprio presidente Lula, que governou com o apoio de grande parte dos ministros ao longo deste terceiro mandato.
O foco da sessão extraordinária de terça-feira (15) no STF era deliberar sobre a abertura de uma investigação contra Moraes, com base em um relatório da Polícia Federal no qual o ministro é apontado como interlocutor do banqueiro Daniel Vorcaro. O julgamento, no entanto, acabou polarizado no debate sobre a análise conjunta de um pedido de investigação direcionado ao ministro André Mendonça, indicado ao cargo por Jair Bolsonaro.
A condução da sessão por magistrados da ala aliada a Moraes foi interpretada por integrantes do governo federal como “um presente” para a candidatura de Flávio Bolsonaro, informa Bela Megale, do jornal O Globo. As maiores críticas internas voltaram-se para o comportamento do decano Gilmar Mendes e do ministro Flávio Dino, ex-ministro da Justiça do governo Lula. O enfrentamento direto de Dino ao presidente do STF, Edson Fachin, marcado por interrupções, e a decisão do magistrado de solicitar vista do processo foram vistos como atitudes que fortaleceram a narrativa da oposição.
Com o pedido de vista feito por Dino, a conclusão do julgamento pode ser suspensa por até 90 dias corridos, prazo regimental que, ao se encerrar, libera o processo automaticamente para retomada da análise em plenário, independentemente da apresentação do voto pelo ministro. Interlocutores governistas admitem que a atitude de Dino — por ser próximo ao presidente e ter sido por ele indicado ao cargo — dificulta o esforço da campanha de desvincular Lula do desgaste institucional. Por outro lado, a atuação do ministro Cristiano Zanin, também indicado por Lula, foi considerada mais adequada por integrantes do Executivo por sua postura sóbria, embora tenha votado alinhado ao grupo de Moraes.
Para a coordenação da campanha do PT, o cenário ideal previa o avanço das investigações contra Alexandre de Moraes no próprio tribunal. A abertura formal do processo permitiria a Lula adotar uma postura pública clara de apoio às apurações, distanciando-se de uma figura que conselheiros políticos já consideram “tóxica” no contexto eleitoral.
Apesar da interrupção do processo no STF, uma ala do governo defende que o presidente siga com a estratégia de descolamento do magistrado. Na noite de terça-feira, em entrevista concedida à TV Record, Lula elevou o tom ao comentar indiretamente o caso. O presidente afirmou que “não há ninguém que possa fugir do julgamento quando tem suspeita de acusação contra ele” e defendeu restrições severas à atuação de parentes de magistrados no Poder Judiciário: “quem for ministro não pode querer ficar rico. As pessoas não podem estar no Poder Judiciário e um filho advogando, a mulher advogando, o pai advogando na própria Suprema Corte”.
Enquanto Flávio Bolsonaro utilizou seu espaço na propaganda eleitoral na TV para criticar o Supremo em uma transmissão gravada com estética semelhante à de um pronunciamento oficial, a campanha de Lula optou por ignorar o julgamento do STF em suas inserções na TV e nas redes sociais. A estratégia definida pela equipe do PT consiste em priorizar temas como saúde, segurança pública, custo de vida, educação e soberania, destacando falas em que o presidente enfatiza a posição de que qualquer suspeita deve ser investigada, “doa a quem doer”.
Aliados do governo recomendam, porém, cautela na condução do discurso para evitar que mudanças bruscas de posicionamento sejam interpretadas pela opinião pública como “artificiais” ou “oportunistas”. A recomendação de assessores é calibrar as declarações públicas conforme o desenrolar dos fatos, havendo defensores da tese de que Lula passe a citar nominalmente Alexandre de Moraes ao reiterar a defesa do princípio de que todos devem ser investigados.
Fonte: Brasil 247