Honra entre ladrões e o lado certo da vida errada
A Gazeta
Redes Sociais
Esqueci minha senha
Acesse aqui
Acesse aqui
Publicado em 20 de Setembro de 2026 às 04:30
Públicado em
Colunista
Quem já assistiu ao filme que tem o mesmo título desta coluna, disponível gratuitamente no YouTube, já sabe por que não teve nota muito alta no IMDb.
No entanto, quem presta um pouco mais de atenção ao que pensam e dizem os criminosos percebe que não se trata de indivíduos que rejeitam todo e qualquer conceito de honra, moral ou valores; apenas assumem um conjunto de regras de comportamento limitado e específico de um subgrupo, em vez daquelas mais abrangentes adotadas pela sociedade em geral. Um exemplo bem conhecido é a extrema rejeição aos condenados por crimes sexuais.
Pois é, matar, roubar, tirar o último centavo de um aposentado, agredir um idoso, tudo pode; apenas uma única categoria de crime eles “não aceitam” e se consideram no direito de agredir e até tirar a vida de alguém que muitas vezes nem foi a julgamento.
Veja Também
E tem mais, claro. De vez em quando um criminoso diz estar “do lado certo da vida errada”, seja lá o que isso significa. Ultimamente, deram para levar isso ao ponto de criar “tribunais do crime”, nos quais são julgados não apenas integrantes da própria quadrilha, como de quadrilhas rivais ou qualquer outro, inclusive quem vive do trabalho honesto.
Organizações criminosas costumam ter códigos mais amplos que os bandidos em geral, como se pode ver nos inúmeros “estatutos” de facções apreendidos pela polícia. E nada é considerado mais grave que a “caguetagem”.
Nem mesmo cidadãos honestos podem comunicar às autoridades públicas violações de que tenham tido conhecimento, nem prestar depoimento, fornecer informações etc. Nenhuma forma de colaboração com aplicadores da lei é admissível, sob nenhuma hipótese ou justificativa.
A Cosa Nostra se autodenomina “L’Onorabile Società” e seus integrantes, “homens de honra”. Em geral não se aceita violência contra parentes não envolvidos na atividade, qualquer desvio de dinheiro pode levar à morte etc., mas a regra de ouro é a “omertà” (“humildade” no dialeto napolitano), mal traduzida para o português como “lei do silêncio”.
Um mafioso jamais pode falar sobre seus próprios crimes e muito menos sobre o que tenham feito os demais, em nenhuma ocasião, diante de ninguém estranho à máfia e, claro, especialmente diante da polícia ou do Judiciário.
Não há “desonra” maior que expor a organização ou um colega específico à execração pública, mesmo que isso não renda condenação criminal.
Se um mafioso quebra a “omertà”, não tem essa de se autopenitenciar cortando uma falange do próprio dedo mínimo, como os yakuza. E, aí, a regra de não atingirem membros inocentes de sua família não vale. Que o diga dom Tomaso Buscetta. Não tem defesa, perdão nem prescrição.
Para falar a verdade, nem mesmo os cidadãos de bem ou jornalistas podem expor o que sabem sobre os crimes dos mafiosos sem sofrerem as mesmas consequências. Ai de quem “dedura” um mafioso…
Henrique Herkenhoff
É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos
Tópicos Relacionados
Notou
alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a
corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua
mensagem
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta
A Gazeta integra o
Privacidade e segurança
Privacidade e segurança
© 1996 – 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados
Fonte: A Gazeta