Há 77 anos nascia a China que transformaria a ordem mundial
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – Há exatamente 77 anos, em 1º de outubro de 1949, Mao Zedong proclamava, diante de uma multidão reunida na Praça Tiananmen, em Pequim, a fundação da República Popular da China. Era o nascimento de um Estado que emergia de décadas de invasões estrangeiras, guerras, ocupação japonesa, fragmentação territorial e guerra civil. Sete décadas depois, aquela China empobrecida e predominantemente rural tornou-se uma das maiores potências econômicas, industriais, científicas e tecnológicas da história.
O 1º de outubro tornou-se o Dia Nacional da China e uma das datas fundamentais da história contemporânea. A transformação ocorrida desde 1949 alterou não apenas a vida de mais de 1,4 bilhão de chineses, mas também a própria estrutura da economia mundial.
Em 2025, o Produto Interno Bruto chinês ultrapassou pela primeira vez 140 trilhões de yuans, alcançando 140,19 trilhões — aproximadamente US$ 20 trilhões — e crescendo 5% em relação ao ano anterior. A China permanece como a segunda maior economia do mundo.
Mais do que uma história de crescimento econômico, os 77 anos da República Popular representam uma das maiores transformações sociais já registradas. Segundo o Banco Mundial, aproximadamente 800 milhões de chineses deixaram a pobreza extrema nas últimas quatro décadas, respondendo por quase três quartos da redução mundial da extrema pobreza nesse período.
De país devastado a potência industrial
Quando a República Popular foi fundada, a China carregava as marcas de um longo período de instabilidade.
O país havia atravessado as Guerras do Ópio no século XIX, intervenções de potências estrangeiras, o enfraquecimento e a queda da dinastia Qing, conflitos entre diferentes forças políticas, a invasão japonesa e uma prolongada guerra civil.
A vitória das forças lideradas por Mao Zedong e a proclamação da República Popular representaram, para o novo governo, sobretudo a recuperação da soberania nacional e a reunificação de grande parte do território chinês sob um Estado central.
Nas décadas seguintes, a China construiu uma extensa base industrial, ampliou o acesso à educação e à saúde e realizou enormes investimentos em infraestrutura. Esse processo também atravessou períodos de graves turbulências e políticas que produziram elevados custos humanos e econômicos, especialmente o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural.
A história da ascensão chinesa, portanto, não foi linear.
1978 muda novamente a China
Uma segunda transformação decisiva começou no final dos anos 1970.
A partir de 1978, sob a liderança de Deng Xiaoping, a China iniciou sua política de reforma e abertura, combinando planejamento estatal, empresas públicas estratégicas, investimento em infraestrutura, atração de capital estrangeiro, expansão do setor privado e crescente integração ao comércio mundial.
O resultado foi uma expansão econômica de velocidade extraordinária.
Segundo o Banco Mundial, desde o início das reformas o crescimento chinês ficou, durante décadas, em média acima de 9% ao ano. O país passou da condição de economia de baixa renda para a de renda média-alta.
Milhões de pessoas migraram do campo para as cidades. Novos centros industriais surgiram. Ferrovias, portos, aeroportos, rodovias e posteriormente redes de trens de alta velocidade integraram um território de dimensões continentais.
A China transformou-se na grande plataforma industrial da economia global.
A fábrica do mundo sobe a cadeia tecnológica
A transformação chinesa, porém, entrou em uma nova etapa.
A estratégia deixou de depender apenas da produção industrial intensiva em mão de obra e passou a priorizar setores de maior conteúdo tecnológico.
Telecomunicações, veículos elétricos, baterias, energia solar, energia eólica, robótica, inteligência artificial, computação avançada, biotecnologia, indústria aeroespacial e exploração espacial tornaram-se áreas estratégicas.
Os números de 2025 ilustram essa mudança. A produção chinesa de veículos de novas energias chegou a 16,5 milhões de unidades, crescimento de 25,1% em um único ano. A geração proveniente de hidrelétricas, energia nuclear, eólica e solar aumentou 14,4%.
Ao mesmo tempo, o setor de transmissão de informação, software e tecnologia da informação cresceu 11,1% em 2025, mais que o dobro da expansão do PIB.
A antiga “fábrica do mundo” procura agora ocupar também a fronteira mundial da inovação.
Uma potência comercial
O tamanho da integração chinesa à economia internacional pode ser medido pelo comércio.
Em 2025, as importações e exportações de mercadorias da China alcançaram 45,47 trilhões de yuans, crescimento de 3,8%. As exportações chegaram a 26,99 trilhões de yuans.
Outro indicador revela uma mudança importante na geografia econômica mundial: 51,9% do comércio exterior chinês já ocorreu com países participantes da Iniciativa Cinturão e Rota em 2025.
A China tornou-se o principal parceiro comercial de dezenas de países e ocupa posição particularmente importante nas relações econômicas com o Sul Global.
Ásia, África, América Latina e Oriente Médio passaram a representar parcelas crescentes das relações econômicas chinesas.
É uma mudança de enorme significado histórico. Durante séculos, os grandes fluxos de capital, tecnologia e comércio internacional estiveram organizados principalmente em torno das potências ocidentais. A ascensão chinesa contribuiu para deslocar progressivamente esse centro de gravidade em direção à Ásia.
A maior redução da pobreza da história recente
Nenhum indicador sintetiza melhor a dimensão social dessa transformação do que a pobreza.
Estudo produzido pelo Banco Mundial em conjunto com instituições chinesas estima que quase 800 milhões de pessoas deixaram a extrema pobreza na China em quatro décadas.
Poucos processos históricos modificaram as condições materiais de vida de uma população tão numerosa em período comparável.
A industrialização, a urbanização, os investimentos em infraestrutura, a expansão do emprego, a elevação da produtividade agrícola e políticas públicas específicas de redução da pobreza contribuíram para esse resultado.
O desafio chinês agora é diferente. O próprio Banco Mundial aponta que o país entrou em uma fase em que crescimento de alta qualidade, produtividade, envelhecimento populacional, proteção social e transição ambiental ganham importância crescente.
O desafio ambiental
O modelo de industrialização acelerada também produziu custos ambientais elevados.
Durante décadas, a dependência do carvão, a expansão urbana e o crescimento da indústria fizeram da China um dos maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta.
Pequim passou então a realizar investimentos gigantescos na transição energética.
Em 2025, as emissões de dióxido de carbono por unidade de PIB recuaram 5%, segundo o Escritório Nacional de Estatísticas chinês. A geração de eletricidade por fontes consideradas limpas — hidrelétrica, nuclear, eólica e solar — alcançou 4,25 trilhões de quilowatts-hora.
A China estabeleceu ainda as metas de atingir o pico de suas emissões de carbono antes de 2030 e alcançar a neutralidade de carbono antes de 2060.
A contradição é significativa: o país ainda depende fortemente de combustíveis fósseis, mas simultaneamente construiu a maior cadeia industrial do planeta em várias das tecnologias necessárias à transição energética.
China e o Sul Global
A ascensão chinesa também transformou a política internacional.
Pequim ampliou sua presença em organismos multilaterais e passou a defender reformas na governança global que aumentem a representação dos países em desenvolvimento.
A criação e expansão dos BRICS, a Iniciativa Cinturão e Rota, o Novo Banco de Desenvolvimento e outras instituições e mecanismos de cooperação fazem parte desse processo.
Para os países do Sul Global, a ascensão da China criou novas possibilidades de financiamento, comércio, infraestrutura e investimento, ao mesmo tempo em que abriu debates sobre dependência econômica, assimetrias comerciais, endividamento e competição industrial.
Essa relação será uma das questões decisivas do século XXI.
Brasil e China
Para o Brasil, essa transformação tem significado especial.
China e Brasil construíram nas últimas décadas uma parceria econômica e política de grande dimensão. A China tornou-se o principal destino de produtos brasileiros e uma fonte relevante de investimentos em setores como energia, infraestrutura, mineração, indústria e tecnologia.
Os dois países também passaram a atuar conjuntamente nos BRICS e em outras instâncias multilaterais.
A relação sino-brasileira representa, nesse sentido, uma das expressões mais importantes de uma mudança maior: o crescimento das relações econômicas e políticas Sul-Sul.
Em um mundo marcado por disputas comerciais, guerras, sanções e competição tecnológica, Brasil e China também compartilham interesse na preservação de espaços multilaterais capazes de reduzir a lógica de blocos rígidos.
O mundo de 1949 não existe mais
Quando Mao Zedong proclamou a República Popular, em 1949, os Estados Unidos emergiam da Segunda Guerra Mundial como a principal potência econômica do planeta. A Europa reconstruía suas cidades. A Guerra Fria começava. Grande parte da África permanecia sob domínio colonial.
A China era pobre, rural e tinha participação limitada na economia mundial.
Setenta e sete anos depois, o cenário é radicalmente diferente.
A China tornou-se a segunda maior economia mundial, um dos principais centros industriais e comerciais do planeta e uma potência decisiva em áreas que vão de energia limpa e veículos elétricos à inteligência artificial e ao espaço.
O mundo também se tornou mais multipolar. Índia, Brasil e outras economias emergentes ampliaram sua presença internacional, enquanto o Sul Global passou a reivindicar maior participação nas decisões sobre finanças, comércio, tecnologia e segurança.
É nesse contexto que o 1º de outubro ultrapassa as fronteiras chinesas.
A data marca o nascimento de um Estado cuja trajetória acabaria se tornando um dos acontecimentos determinantes da história moderna.
A China que nasceu em 1949 não apenas transformou a si própria. Aos 77 anos, sua ascensão continua transformando o mundo.
Fonte: Brasil 247