Guerra com o Irã leva Trump a enfrentar desconfiança na Assembleia da ONU

0

Por Redação Brasil 247Brasil 247

247 – Donald Trump retornará à Assembleia Geral das Nações Unidas sob crescente desconfiança internacional, após quase sete meses de guerra com o Irã, o fortalecimento dos houthis no Mar Vermelho e a persistência de dúvidas sobre a capacidade nuclear de Teerã. O presidente dos Estados Unidos discursará na terça-feira (22), em Nova York, diante de líderes preocupados com a instabilidade no Oriente Médio e a disparada dos preços da energia.

Segundo a Reuters, Trump deve tentar apresentar a campanha militar como uma vitória, embora o conflito tenha se transformado em uma prolongada guerra de desgaste. A ofensiva não alcançou os objetivos anunciados pela Casa Branca, consumiu parte dos estoques de mísseis do Pentágono e ampliou as tensões entre Washington e seus aliados.

Há um ano, no mesmo púlpito da ONU, o presidente norte-americano afirmou que o bombardeio realizado pelos Estados Unidos contra instalações nucleares iranianas havia “destruído tudo completamente”. Trump também declarou que a ação teria contribuído para estabelecer a paz entre Israel e o Irã.

O cenário agora é diferente. Apesar das severas perdas militares e econômicas impostas ao país, o governo iraniano mantém sua capacidade de reação, dificulta o transporte de petróleo pelo Estreito de Ormuz e preserva influência sobre forças aliadas na região.

Teerã também ampliou sua margem de pressão com o avanço dos houthis no Iêmen. Os combatentes derrotaram forças ligadas ao governo iemenita apoiado pela Arábia Saudita, avançaram pela costa do Mar Vermelho e tomaram ilhas próximas à entrada do Estreito de Bab el-Mandeb.

A região é uma das principais rotas comerciais do planeta. O controle de posições estratégicas nas proximidades do estreito permite aos houthis ameaçar o tráfego marítimo e oferece ao Irã mais um instrumento para afetar o abastecimento mundial de petróleo.

A ofensiva representou um revés para a Arábia Saudita e expôs as limitações dos Estados Unidos para proteger seus parceiros no Golfo. Ao mesmo tempo, colocou Trump diante da possibilidade de uma nova operação militar, em um momento no qual as Forças Armadas norte-americanas já estão pressionadas pelo confronto com o Irã.

“Estamos vendo o que acontece quando um presidente inicia uma guerra por opção, sem antecipar as consequências não intencionais”, afirmou Aaron David Miller, ex-assessor para o Oriente Médio de governos republicanos e democratas.

Aliados rejeitam participação na guerra

Governos europeus e asiáticos recusaram os pedidos de apoio feitos por Trump. Esses países alegam que não foram consultados antes do início da guerra e enfrentam os efeitos econômicos do conflito, sobretudo a elevação dos custos de energia.

Em resposta à Reuters, um alto funcionário do governo Trump afirmou que Washington está concentrado em interesses de segurança, como garantir a liberdade de navegação no Mar Vermelho, “ao mesmo tempo que capacita nossos parceiros regionais a assumir a liderança na gestão e na resolução dos desafios de segurança regional”.

O impacto da guerra também alcançou a política interna norte-americana. A alta dos preços da gasolina e a queda nos índices de aprovação de Trump podem prejudicar o Partido Republicano nas eleições legislativas de novembro, quando estará em disputa o controle do Congresso.

Trump fez campanha com a promessa de evitar o envolvimento dos Estados Unidos em novos conflitos externos. Durante o discurso na ONU em 2025, apresentou-se como um pacificador, declarou ter encerrado diferentes guerras e voltou a reivindicar o Prêmio Nobel da Paz.

Na ocasião, o republicano destacou o envio de bombardeiros B-2 para lançar bombas de aproximadamente 13,6 toneladas contra instalações iranianas, três meses antes. O presidente afirmou que o ataque havia “demolido” a capacidade de enriquecimento de urânio de Teerã.

“Nenhum outro país na Terra poderia ter feito o que fizemos”, declarou Trump.

Especialistas, no entanto, concluíram que os bombardeios provocaram um grave atraso no programa nuclear iraniano, mas não o eliminaram. O estoque de urânio altamente enriquecido, próximo do nível necessário para fins militares, teria permanecido enterrado depois dos ataques norte-americanos de junho de 2025.

Alegação de ameaça nuclear é contestada

Trump entrou diretamente na ofensiva israelense contra o Irã em 28 de fevereiro, sob a alegação de que existia uma ameaça nuclear iminente aos Estados Unidos. Analistas contestaram a afirmação de que Teerã estivesse perto de produzir uma arma atômica. O governo iraniano, por sua vez, sempre negou buscar esse objetivo.

Mesmo depois da morte de importantes dirigentes iranianos em ataques aéreos, o país respondeu com ofensivas contra vizinhos do Golfo e bases norte-americanas instaladas nesses territórios. Para especialistas ouvidos pela Reuters, Washington subestimou a capacidade de resistência do Irã.

A porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, sustentou que somente Trump “teve a coragem” de enfrentar o programa nuclear iraniano. Ela afirmou que o presidente alcançou todos os seus objetivos e que a economia do Irã está sendo sufocada pelo reforço das sanções e pelo bloqueio marítimo imposto pelos Estados Unidos.

A avaliação é contestada pela continuidade da ameaça nuclear e pelo impasse militar. Sem uma vitória decisiva no campo de batalha, Trump procura ampliar a pressão econômica para obrigar Teerã a aceitar uma saída negociada.

Avanço houthi amplia dilema militar

A retomada da ofensiva houthi agravou a dificuldade estratégica da Casa Branca. Os Estados Unidos não podem ignorar o risco de fechamento de um segundo corredor marítimo importante, mas Trump demonstra resistência a iniciar outra operação militar de alto risco.

O presidente recusou pedidos da Arábia Saudita por uma intervenção direta contra os houthis, que haviam firmado um cessar-fogo com Washington no ano passado. A decisão afetou a confiança dos países do Golfo nas garantias de segurança oferecidas pelos Estados Unidos.

Autoridades norte-americanas se reuniram com representantes houthis em Omã no último fim de semana. De acordo com cinco pessoas informadas sobre as conversas, o grupo declarou que suas ações tinham como alvo o transporte marítimo saudita e que não pretendia atacar embarcações dos Estados Unidos.

“Os Estados Unidos claramente enfrentam limitações de capacidade militar, mas, ainda assim, o custo da inação provavelmente aumentará as tensões entre os aliados do Golfo”, disse Jonathan Panikoff, ex-vice-oficial nacional de inteligência para o Oriente Médio.

Trump deverá reunir-se com líderes dos países do Golfo à margem da Assembleia Geral, segundo o site Axios. Os encontros ocorrerão em um ambiente marcado por questionamentos sobre a disposição de Washington de proteger seus aliados e sobre a condução da guerra.

Na quarta-feira (16), ao comentar as perspectivas para o conflito, o presidente declarou: “Esperamos estar perto do fim”. Trump já apresentou diferentes previsões sobre a duração da ofensiva, inicialmente prometida como uma campanha de poucas semanas.

Analistas consideram, porém, que a guerra poderá continuar para além das eleições legislativas. “O Irã não está prestes a deixá-lo escapar dessa situação enquanto tiver tanta influência para prejudicá-lo nas eleições de meio de mandato e transformá-lo em um presidente sem força política”, escreveu Brett Erickson, analista geopolítico e sócio-gerente da Obsidian Risk Advisors, na rede social X.

Fonte: Brasil 247

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *