Por Redação Brasil 247 — Brasil 247

Por Giorgio Trucchi (*) – A vitória eleitoral de Bernardo Arévalo e seu Movimento Semente, em junho de 2023, despertaram em grande parte da população a esperança de que uma Guatemala menos desigual se tornasse realidade. Parte da população urbana e rural havia se mobilizado junto com ele para defender uma vitória que o chamado “pacto dos corruptos” queria parar a qualquer custo. O pacto é uma aliança informal, transversal e impune do poder político, econômico, judicial e militar, cujo objetivo é a cooptação das instituições, o controle do país e o saqueio de fundos públicos.

Por cerca de 100 dias, estruturas de governança comunitárias originárias —como a dos 48 cantões de Totonicapán, os municípios de Sololá e Sacapulas, e setores do povo Ixil, Ch’orti’, Xinka, Mam e Garifuna—, junto com organizações camponesas e manifestaram-se nas ruas contra as tentativas dos órgãos de justiça para anular as eleições e declarar ilegal o movimento/partido de Arévalo.

A justiça social, o desenvolvimento inclusivo, a luta contra a corrupção e o resgate das instituições democráticas eram os eixos centrais do programa eleitoral do novo presidente. Questões que repercutiam profundamente e que o levaram a vencer no segundo turno (em agosto de 2023), apesar da baixa participação eleitoral (45%, com uma redução de 16% em relação ao primeiro turno).

Um sopro de ar fresco para uma nação marcada por conflitos armados sangrentos, profunda divisões raciais e um modelo econômico imposto pelas classes dominantes (os ladinos). Um sistema fortemente neoliberal, extrativista e agroexportador e oligárquico que, embora garanta grande estabilidade macroeconômica, gera uma desigualdade social profunda. Quase 60% da população vive abaixo da linha da pobreza (Pesquisa Nacional sobre as Condições de Vida – Encovi, 2023), uma porcentagem que sobe para 75% entre a população indígena e que atinge picos de 90% em Departamentos como Alta Verapaz (Instituto Nacional de Estatísticas, 2024).

A esse panorama soma-se uma taxa de trabalho informal que ultrapassa 70%; uma situação grave de desnutrição infantil crônica afeta cerca de 44% das crianças menores de cinco anos; e forte dependência de famílias guatemaltecas das remessas familiares do exterior. Em 2026, esses valores atingiram um recorde de quase 18 bilhões de dólares, sustentando, praticamente, o consumo interno. A uma situação que, no entanto, poderia se deteriorar progressivamente devido às restrições à imigração por parte dos EUA: na verdade, durante os primeiros oito meses deste ano, as deportações para a Guatemala aumentaram 47,5% em comparação com o mesmo período do ano passado, com um total de mais de 46 mil pessoas repatriadas.

A profunda dependência estrutural dos Estados Unidos —basta ver que 73% das exportações para este país desfrutam de “tarifas zero”, vinculando, estreitamente, a competitividade agrícola e industrial da Guatemala às políticas de Washington— andam lado a lado com a política diplomática estabelecida pelo presidente Arévalo, com o objetivo de consolidar a Guatemala como parceiro confiável e aliado estratégico de Washington. Sem dúvida, é uma enorme espada de Dâmocles com a bandeira das estrelas e listras que pende ameaçando o destino do país.

Enquanto grandes empresas desfrutam de grandes benefícios fiscais, o Estado continua sendo um dos mais fracos do continente. Com uma carga tributária de apenas 11-12% do PIB –um dos menores do mundo–, as instituições públicas enfrentam enormes dificuldades para financiar políticas sociais e investimentos estruturais em benefício da população.

Democratização as instituições e pagar a enorme dívida do Estado em termos de memória e de direitos humanos era outra das grandes expectativas colocadas no novo governo. De fato, ao falar da Guatemala, a memória remonta, imediatamente, para as mais de 200 mil vítimas do chamado “conflito armado interno”, —com mais de 45.000 desaparecidos—, 85% das quais eram da etnia Maya (Relatório “Nunca Más”, do projeto interdiocesano REMHI, de 1998; “Guatemala: Memória do Silêncio”, da Comissão para Esclarecimento Histórico das Nações Unidas, de 1999).

A política da “terra arrasada”, descrita pela Comissão da ONU como genocídio, resultou em 626 massacres perpetrados por forças governamentais, violência sexual sistemática contra as mulheres maias, o infanticídio de milhares de crianças, o deslocamento interno de quase 1,5 milhão de pessoas e o exílio de mais de 150.000 guatemaltecos.

Uma enorme carga de responsabilidade para Arévalo, que, apesar de ter tido que enfrentar desde o início, a sabotagem política institucional, uma situação difícil e um aparato judiciário abertamente hostil, nunca demonstrou a capacidade ou, talvez, a vontade de colocar em prática as promessas de mudanças contidas em seu programa governamental.

Justamente por essa razão, a menos que um ano das próximas eleições gerais (junho de 2027), o panorama dessa nação da América Central parece cada vez mais complexo e se agitam os fantasmas de um possível golpe de Estado.

“Sem dúvida, Arévalo encontrou grandes obstáculos em seu caminho; no entanto, tem ficado clara a diferença que existe entre proclamar lutas ideológicas desde um gabinete em comparação com assumir a responsabilidade pela liderança política de um país. A incapacidade demonstrada na prática para coordenar ações e estratégias com os movimentos e setores que o apoiaram, junto com a falta de vontade para dar protagonismo e participação aos setores historicamente mais vulneráveis, teve efeitos devastadores para o governo”, explica a Pagine Esteri, o coordenador do Conselho Político dos Sindicatos Globais da Guatemala, Francisco Mendoza.

Essa situação tem alimentado a crescente agitação entre a população e os movimentos aliados. Ao mesmo tempo, o executivo não conseguiu incidir no desmantelamento dos grupos de poder —frequentemente ligados ao crime organizado—, que continuam a controlar o Estado, o aparato econômico e político do país. A esse panorama soma-se uma complexa conjuntura internacional, cujos efeitos econômicos pesam sobre as nações da América Central por meio do aumento do custo dos combustíveis e, portanto, dos bens que atendem as necessidades básicas. Um cenário ainda mais agravado devido aos impactos das mudanças climáticas e a uma seca severa, diante dos quais o governo de Arévalo se vê sem as ferramentas adequadas para aliviar a repercussões que atingem em toda a sociedade. Os protestos dos últimos dias foram reprimidos com várias prisões e sua suposta ligação com o crime organizado —tese levantada pelo chefe de Estado— não se sustenta.

“O governo está perdendo grande parte de sua credibilidade e do apoio político da população, o que gerou frustração e desencanto, distanciando ainda mais os cidadãos da política. Esse cenário é inserido em um contexto eleitoral fragmentado com mais de trinta opções políticas –embora há quem especule que chegam a ser cinquenta– os chamados “partidos de papelão”. O mais provável, portanto, é uma oferta ampla, porém cada vez menos significativa, em comparação com uma participação em constante declínio, especialmente entre os jovens. O cenário perfeito para que grupos de poder oligárquico retomem o controle absoluto do país”, afirma Mendoza.

De acordo com as últimas pesquisas, a porcentagem de desaprovação do governo Arévalo superou 52%, enquanto a situação de segurança piora com o aumento significativo de mortes violentas, especialmente os feminicídios, a extorsão, os roubos de armamento militar e as fugas de prisões.

Para Jubenal Quispe (Ollantay Itzamná), pesquisador, antropólogo e ativista social, o cenário era amplamente previsível. “Arévalo respondeu aos interesses dos democratas estadunidenses e contou com o apoio da OEA (Organização dos Estados Americanos) e das ONGs financiadas pela USAID. Representava a simulação de uma alternativa progressista no coração da América Central, útil para desmontar o movimento popular e devolver a Guatemala, quatro anos depois, ao status quo de antes. Espero estar errado, mas as próximas eleições confirmarão exatamente isso: um governo ainda mais ancorado nos grupos de poder e pactado com a linha trumpista e filo-sionista do Escudo das Américas”, declara a Pagine Esteri.

Porém, nem tudo deve ser descartado. Segundo o analista, dentro da máquina governamental existem figuras comprometidas em sinalizar mudanças, especialmente na área de projetos sociais; esforços que, no entanto, continuam sendo apenas uma gota em um oceano de continuidade.

“Basta observar o enfoque geopolítico, em perfeita harmonia com o passado: as portas totalmente abertas à penetração estadunidense e israelense, tanto em âmbito militar de reação rápida como no de investimentos estratégicos em logística portuária —uma medida destinada a conter a crescente presença da China no setor— como também ao apoio político e diplomático para suas respectivas posições nas organizações multilaterais. Inclusive, os fundos da USAID já foram substituídos por recursos de Israel, cada vez mais ativo com projetos e financiamento, numa tentativa bem-sucedida de penetrar e controlar o tecido social, neutralizando os conflitos e as demandas sociais”.

A consequência —explica o ativista— é a perda total de confiança nas instituições: os cidadãos sentem que o Estado está ausente, exceto quando se trata de explorá-los. “Portanto, torna-se impossível até mesmo pensar em construir um projeto político em uma situação de desconexão entre o aparato institucional e a sociedade”. Uma trajetória que, conclui Quispe, só tem servido para apaziguar os setores populares comprometidos com a luta contra-hegemônica.

[Fonte: PagineEsteri (italiano). Publicado em Nova Nicarágua e Mais Informações Lista: Guatemala, a Mudança Traída de Arévalo

Revisão da versão em português: Rose Lima].

Fonte: Brasil 247

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