Grande Reversão da China e Grande Bifurcação com a Europa

0

Por Fernando Nogueira da Costa — Brasil 247

Para comparar o Ocidente com o Oriente, em busca de entendimento do mundo contemporâneo, a perspectiva histórico-institucional de longo prazo do livro Two Paths to Prosperity: Culture and Institutions in Europe and China, 1000–2000 (2026), escrito por Greif, Mokyr & Tabellini, revela dependências de trajetórias.

Por volta do ano 1000 d.C., durante a Dinastia Song, a China era uma civilização muito mais avançada em tecnologia, renda e capacidade estatal diante da Europa. Esta se encontrava politicamente fragmentada e sem infraestrutura estatal. 

Contudo, cerca de nove séculos depois, as posições se inverteram totalmente. A Europa liderou a Revolução Industrial e a expansão institucional, enquanto a China estagnou e perdeu capacidade fiscal. Foi a Grande Reversão Histórica.

A historiografia tradicional atribui essa divergência à fragmentação política europeia, porque gerou competição entre Estados e impediu o sufocamento de inovadores, em contraste com o Estado unitário e autocrático chinês. Os autores reconhecem a importância desse fator, mas argumentam a fragmentação territorial por si só não explicar o desenvolvimento europeu, porque outras regiões do mundo (como a Índia) também eram fragmentadas e não se industrializaram. Há limites da explicação apenas pela fragmentação política.

A tese central deles compara clãs e corporações. A explicação dos autores foca nas organizações sociais não-estatais, emergentes em cada civilização, para sustentar a cooperação local e prover bens públicos (como segurança, obras, arbitragem e auxílio mútuo) fora do âmbito do Estado. 

Um clã é um grupo de pessoas unidas por laços de parentesco, ancestralidade ou por um forte interesse comum. Os membros descendem do mesmo antepassado. Este pode ser real, histórico ou até simbólico/mítico (como um animal totêmico). Entre os “filhos” ou “descendentes” há forte lealdade, proteção mútua e uma identidade coletiva forte entre os dotados desse sentimento de união.

Na China, o clã ou a linhagem tiveram o papel-chave, porque a cooperação organizou-se em redes de parentesco patrilinear. Na Europa, predominou a corporação: a cooperação desenvolveu-se por meio de associações formais de indivíduos sem laços de parentesco, unindo pessoas por interesses comuns — como guildas, ordens monásticas, fraternidades, universidades e cidades autônomas.

Daí se distinguem as heranças dos sistemas de valores morais entre o comunitário chinês e o universalista europeu. Na China, o neo-confucionismo tornou-se a cultura dominante, promovendo um sistema moral comunitário, baseado na lealdade filial, respeito aos anciãos e culto aos ancestrais. Nesse sistema, os laços de confiança e obrigações morais concentravam-se fortemente nos parentes.

Na Europa, a partir do início da Idade Média, a Igreja Católica combateu ativamente as estruturas de parentesco estendido, proibindo casamentos consanguíneos, poligamia etc., resultando na prevalência da família nuclear. Isso estimulou um sistema moral universalista, facilitando normas de conduta e cooperação entre estranhos.

Outra bifurcação foi o das instituições políticas e da regra da lei. As corporações europeias desenvolveram normas internas de governança, baseadas em consentimento, devido processo legal, representação e direitos de membros. Essas práticas corporativas moldaram o surgimento do direito civil/comercial e das instituições parlamentares europeias (Rule of Law ou Estado de Direito). Na China, a estrutura hierárquica e familiar dos clãs complementou e estabilizou um regime imperial autocrático, no qual a lei funcionava como um instrumento administrativo de cima para baixo.

Isso teve impacto na revolução industrial e no conhecimento útil. Na Europa, o avanço e a preservação do conhecimento foram impulsionados por corporações autônomas : universidades, sociedades científicas e cidades. Formou-se uma rede privada, um mercado competitivo de circulação de ideias (“República das Letras”) e o Iluminismo Industrial, porque aproximou sábios e fabricantes. Na China, a educação era controlada pelo Estado e direcionada para a aprovação nos exames imperiais, focando no estudo dos clássicos confucianos, para manter a estabilidade social, pouco transbordando para a tecnologia produtiva.

Houve coevolução e feedback positivo. Pequenas diferenças culturais e organizacionais iniciais por volta do ano 1000 d.C. geraram um processo de reforço mútuo entre cultura, organizações sociais e instituições estatais, amplificando as divergências ao longo do tempo até culminar na Grande Bifurcação.

A expressão “Grande Divergência” é insuficiente para analisar o milênio entre 1000 e 2000 d.C.. O fenômeno é descrito mais adequadamente como “Grande Reversão”, pois a China passou de líder econômica e tecnológica, na Dinastia Song, para uma situação de estagnação. Além disso, ocorreu a “Grande Bifurcação”, pois as duas civilizações seguiram caminhos opostos em instituições políticas, estruturas familiares, urbanização, educação e sistemas morais.

Entre 1000 e 1890, a urbanização chinesa permaneceu estagnada, em proporção à população total, enquanto a Europa vivenciou uma expansão urbana contínua. Além disso, as cidades europeias constituíram-se como corporações autônomas (comunas), dotadas de autogoverno e liberdade econômica, enquanto as cidades chinesas funcionavam primariamente como centros administrativos e militares subordinados à burocracia imperial.

Houve divergência demográfica e familiar. Na China, a família estendida e o casamento precoce/universal prevaleceram. Na Europa, a consolidação do padrão europeu de casamento, caracterizado por casamento tardio, menor fertilidade e alta taxa de celibato feminino, reduziu as pressões malthusianas e promoveu o surgimento de famílias nucleares.

Os autores apontam os limites do determinismo geográfico: explicações baseadas estritamente em geografia como a abundância de carvão ou a posse de colônias. O conhecimento e os incentivos institucionais para extrair e aplicar recursos foram determinantes, e a divergência decorreu da interação sinérgica e complementar entre cultura, organizações não estatais e instituições ao longo do tempo.

Os sistemas de valores morais influenciam a emergência de diferentes organizações sociais não estatais: clãs vs. corporações. Essas organizações, por sua vez, moldam a evolução cultural de uma sociedade através de mecanismos de retroalimentação positiva (feedback loops). Contrapõem-se entre moralidade comunitária e universalista.

A moralidade comunitária ou limitada caracteriza a China por um forte altruísmo e obrigação moral direcionados estritamente aos parentes, com rápida queda do sentimento moral, enquanto a distância social aumenta. A moralidade universalista ou generalizada é o caso da Europa. As normas morais, a confiança e a conduta ética aplicam-se de forma mais homogênea a amigos e estranhos, sem dependência de laços de sangue. Promovida pelo enfraquecimento das redes de parentesco estendido na Europa, devido à Igreja Católica, essa cultura facilita a cooperação impessoal entre indivíduos sem laços de consanguinidade.

Na China, a cooperação era mantida por lealdade interna e punições informais (como o ostracismo) em uma estrutura da qual os membros praticamente não têm opção de saída. A sociedade europeia era formada por redes sobrepostas e abertas (um indivíduo podia pertencer a várias corporações), exigindo regras explícitas, contratos, governança consensual e proteção aos direitos dos membros.

A corporação é potencialmente mais eficaz na entrega de bens públicos específicos e adaptados às necessidades dos membros, pois compete no mercado e enfrenta a ameaça constante de saída dos seus integrantes. Contudo, por reunir estranhos, enfrenta maiores custos formais de aplicação de regras (enforcement) e problemas de agência.

O clã reduz os custos de enforcement ao alavancar o altruísmo recíproco entre parentes e o alto custo psicológico de trair a própria família. Entretanto, é menos flexível e menos direcionado para incentivar a inovação fora da linhagem.

Resultado: pequenas diferenças culturais iniciais por volta do ano 1000 d.C. desencadearam um processo duradouro de bifurcação cultural, social e institucional, levando a China e a Europa a trajetórias históricas e econômicas irreversivelmente divergentes até a Revolução Industrial, no fim do século XVIII, confirmar a decadência do longo Império chinês. Daí a necessidade da Revolução Comunista na China, em 1949, para tirar o atraso histórico.

Fonte: Brasil 247

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *