Governo prepara investimento de até R$ 3 bilhões em novo satélite brasileiro

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Por Otávio Rosso — Brasil 247

247 – O governo federal planeja investir até R$ 3 bilhões na construção, no lançamento e na implantação do novo Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas, o SGDC-2. Previsto para entrar em operação em 2035, o equipamento deverá ampliar a infraestrutura própria do Brasil para comunicações estratégicas, defesa e transmissão de dados, além de atender regiões remotas do território nacional. As informações são do jornal O Globo.

O projeto deve começar a receber recursos já em 2027, após o Ministério das Comunicações conseguir incluir ações relacionadas ao novo satélite no planejamento orçamentário dos próximos anos.

A previsão inicial é de quase R$ 315 milhões em investimentos nos próximos dois anos. Desse total, R$ 159,7 milhões ficariam sob responsabilidade do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em 2027 e outros R$ 155 milhões seriam destinados à Telebras em 2028.

O projeto ganhou uma dimensão estratégica adicional diante da crescente dependência mundial de sistemas privados de comunicação por satélite. A intenção do governo é manter uma infraestrutura sob controle brasileiro que possa atender áreas consideradas essenciais, entre elas defesa, segurança pública, saúde, educação, inclusão digital e comunicação em localidades de difícil acesso.

“A gente defende o futuro do Programa Espacial Brasileiro para garantir mais soberania digital, mais conectividade nas áreas remotas, principalmente nas áreas de defesa, nos pontos de fronteira e também para monitorar toda a nossa terra rara de mineração crítica. É importante que a gente consiga executar o futuro do Projeto Espacial com o novo SGDC”, afirmou ao Globo o ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho.

Satélite terá controle brasileiro

A Telebras busca parceiros privados para participar da execução do SGDC-2, mas pretende manter o controle integral do satélite e de sua operação. A estratégia está diretamente relacionada ao caráter de infraestrutura crítica atribuído ao projeto.

A estatal mantém atualmente relações com empresas do setor de comunicação por satélite, como Viasat, SES, Hughes, Hispasat e Eutelsat/OneWeb.

A própria Telebras abriu em 2026 um processo de solicitação de informações ao mercado, conhecido pela sigla RFI, destinado ao SGDC-2. A estatal chegou a prorrogar até 30 de setembro o prazo para receber respostas de interessados, etapa utilizada para reunir informações técnicas e comerciais que possam subsidiar o projeto.

“Soluções privadas e constelações de satélites têm seu papel e ajudam a ampliar a conectividade, mas o Estado brasileiro também precisa preservar capacidade própria em infraestrutura estratégica. É essa combinação que nos permite ampliar a cobertura, fortalecer nossa capacidade tecnológica e garantir soberania digital”, disse Siqueira Filho.

Uma das preocupações é a forte presença de empresas estrangeiras no mercado brasileiro de internet por satélite. Segundo o Globo, a Starlink concentra mais de 90% desse mercado na Amazônia Legal. A tecnologia atende localidades que não dispõem de infraestrutura terrestre de telecomunicações, mas também passou a ser utilizada por integrantes de atividades ilegais, como o garimpo clandestino.

Ao mesmo tempo, redes privadas de satélite também vêm sendo adotadas pelo poder público. Nas eleições de 2026, por exemplo, a Justiça Eleitoral utilizará uma solução contratada junto à Hughes, com terminais conectados à rede Starlink, para transmitir dados em locais sem meios convencionais de comunicação.

Cobertura de todo o território e da Amazônia Azul

Diferentemente da rede Starlink, formada por uma grande quantidade de equipamentos em órbita baixa, o SGDC-2 será geoestacionário. Isso significa que deverá permanecer a aproximadamente 36 mil quilômetros da superfície terrestre, em posição aparentemente fixa em relação ao planeta.

Satélites de baixa órbita ficam muito mais próximos da Terra e apresentam menor latência, mas individualmente alcançam regiões menores. Já um equipamento geoestacionário consegue cobrir uma extensa área a partir de uma única posição orbital.

O SGDC-2 deverá operar na posição de 57 graus Oeste e terá como requisito alcançar todo o território brasileiro e a chamada Amazônia Azul, área marítima sob jurisdição do país. A região Norte deverá receber atenção especial devido à forte dependência de comunicações por satélite e à menor disponibilidade de redes terrestres em diversos municípios.

A Agência Espacial Brasileira classifica a missão SGDC como estratégica para as telecomunicações e para o Programa Espacial Brasileiro. O projeto envolve órgãos como a Telebras, o Ministério da Defesa, a Agência Espacial Brasileira e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Capacidade pode chegar a 100 Gbps

Nas consultas feitas ao mercado, a Telebras indicou uma capacidade esperada entre 80 Gbps e 100 Gbps para o novo equipamento. O atual SGDC dispõe de aproximadamente 58 Gbps, segundo dados oficiais da estatal.

Mais do que aumentar a capacidade isolada de transmissão, porém, a estratégia prevê integrar o SGDC-2 a uma estrutura formada por diferentes tipos de satélites.

Entre os requisitos estudados está a possibilidade de comunicação com constelações localizadas em órbitas baixa e média, permitindo a combinação de diferentes tecnologias de telecomunicações conforme o tipo de serviço.

O planejamento também inclui suporte a sistemas de inteligência artificial, redes de sensores distribuídos e drones autônomos.

Outro objetivo é permitir comunicação direta entre o satélite e dispositivos, tecnologia conhecida como D2D, sigla em inglês para “direct-to-device”. Nesse modelo, determinados aparelhos podem se conectar a uma rede via satélite sem depender dos receptores terrestres utilizados tradicionalmente.

“O futuro da conectividade será construído pela combinação de diferentes tecnologias, modelos de negócios e capacidades. O nosso desafio é fazer com que toda essa inovação se traduza em mais oportunidades para os brasileiros, independentemente de onde eles vivam”, afirmou o ministro.

SGDC-1 está em operação desde 2017

O novo equipamento será o sucessor do SGDC-1, lançado em maio de 2017 e atualmente utilizado para serviços civis e militares. A troca deverá ocorrer próxima ao encerramento da vida útil prevista para o primeiro satélite.

O SGDC-1 é controlado exclusivamente por brasileiros, com centros de operação localizados em área militar. O equipamento utiliza a banda Ka para serviços de comunicação e a banda X para uso das Forças Armadas. Segundo a Telebras, o investimento total do governo federal no atual sistema foi de R$ 2,78 bilhões.

O satélite cobre todo o território nacional e a Amazônia Azul e também é empregado em políticas de inclusão digital. Entre elas está o programa Wi-Fi Brasil, destinado principalmente a comunidades e localidades com pouca ou nenhuma oferta de conectividade.

Inicialmente, a expectativa é que o SGDC-2 tenha vida útil mínima de 15 anos. A Telebras, no entanto, também avalia alternativas que permitam ciclos menores de substituição ou modernização, diante da velocidade das transformações tecnológicas no setor espacial.

Com a previsão de operação em 2035, o governo pretende fazer do novo satélite não apenas um substituto para o atual equipamento, mas uma peça central de uma infraestrutura de telecomunicações sob controle nacional, capaz de combinar conectividade, defesa e soberania sobre comunicações consideradas estratégicas.

Fonte: Brasil 247

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