Goiás tem 20 leitos de cuidados paliativos e uma única residência médica na área

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Por João Reynol — Jornal Opção

Goiás tem 20 leitos de cuidados paliativos e uma única residência médica na área

Em toda a rede de saúde de Goiás, o estado conta com apenas 20 leitos exclusivos para cuidados paliativos. Desse total, dez estão concentrados no Hospital Estadual Alberto Rassi (HGG), em Goiânia, e outros sete na Santa Casa de Misericórdia da capital.

A informação foi apresentada ao Jornal Opção pelo médico Iuri Matias Schreiner, presidente da Academia Estadual de Cuidados Paliativos de Goiás (AECP-GO). Segundo ele, apesar do número reduzido de leitos exclusivos, a assistência também ocorre por outros modelos dentro das unidades de saúde, principalmente por meio de interconsultas.

“Hoje, no estado de Goiás, a gente tem 20 leitos exclusivos de cuidados paliativos, sendo que dez deles estão concentrados aqui no HGG. A gente tem outros sete leitos, se eu não me engano, na Santa Casa”, explicou.

Segundo o especialista, Goiás registra cerca de 450 interconsultas por mês, modalidade em que uma equipe especializada avalia o paciente internado, mas o acompanhamento principal permanece sob responsabilidade de outra especialidade, como cardiologia, oncologia ou terapia intensiva.

O modelo é predominante porque a maioria dos serviços não dispõe de leitos exclusivos para cuidados paliativos. Para Schreiner, porém, essa estrutura exige que profissionais de diferentes áreas também tenham conhecimentos básicos sobre a abordagem paliativa.

Um dos principais desafios para a expansão dos cuidados, segundo o médico, é justamente o desconhecimento sobre o tratamento entre os próprios profissionais de saúde. Ainda existe, segundo ele, uma associação equivocada entre cuidados paliativos e a suspensão de tratamentos ou intervenções.

“Infelizmente, tem muitas pessoas que falam que praticam cuidado paliativo, mas não é. Acham que cuidado paliativo é só falar que não vai para UTI, que não vai entubar”, afirmou.

Médico Iuri Matias Schreiner | Foto: Reprodução

Schreiner explica que os cuidados paliativos podem ser oferecidos simultaneamente a tratamentos com finalidade curativa. A abordagem pode, por exemplo, auxiliar no controle da dor, na nutrição e na qualidade de vida de pacientes que ainda passarão por cirurgias ou tratamentos oncológicos.

Formação ainda é desafio

Outro obstáculo apontado pelo presidente da AECP-GO está na formação dos profissionais. Segundo Schreiner, os cuidados paliativos passaram a integrar as diretrizes curriculares dos cursos de Medicina apenas nos últimos anos, o que ajuda a explicar a falta de conhecimento entre médicos formados anteriormente.

“Muitos profissionais ainda acreditam que os cuidados paliativos são apenas para o paciente que está morrendo. Eles não entendem que o cuidado paliativo pode ajudar em um acompanhamento no momento de sofrimento daquele paciente com uma condição grave de saúde”, afirmou.

A formação especializada também permanece restrita. Segundo o médico, o HGG mantém a única residência médica na área em Goiás, com apenas uma vaga por ano. O próprio Schreiner foi o primeiro médico formado pelo programa, que atualmente prepara sua segunda especialista.

O cenário estadual aparece no Atlas dos Cuidados Paliativos no Brasil 2025, elaborado pela Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP). O levantamento considera como programa uma equipe organizada e dedicada à área, podendo abranger modalidades como internação, interconsulta hospitalar, ambulatório, atendimento domiciliar e hospice.

Em Goiás, foram mapeados 18 programas de cuidados paliativos, o equivalente a 0,24 programa por 100 mil habitantes. Do total, 12 estão localizados em Goiânia e seis no interior. Onze pertencem ao setor público, quatro ao privado e três funcionam em modelo misto.

Na comparação regional, Goiás possui mais programas do que Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, que contam com sete cada. A disponibilidade de leitos, entretanto, varia: Mato Grosso possui 20 e Mato Grosso do Sul, 49. Já o Distrito Federal apresenta a maior estrutura do Centro-Oeste, com 22 programas e 83 leitos dedicados.

O próprio Atlas ressalta que a expansão identificada nacionalmente não representa necessariamente, na mesma proporção, aumento da oferta assistencial. O número de estruturas mapeadas no Brasil passou de 234 serviços, em 2022, para 423 programas em 2025, mas parte desse crescimento decorre da formalização de iniciativas já existentes e de mudanças na metodologia do levantamento.

Doenças cardiovasculares lideram demanda

Embora os cuidados paliativos sejam frequentemente associados ao câncer, as doenças cardiovasculares representam a principal demanda pela assistência, segundo Schreiner. Entre elas estão insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral (AVC) e doenças arteriais que podem levar, por exemplo, à necessidade de amputações.

“Por mais que a gente pense que o câncer é o principal, a maior parte dos pacientes que precisa de cuidados paliativos está relacionada a causas cardiovasculares”, explicou.

Em seguida aparecem os pacientes oncológicos. Doenças pulmonares, renais e hepáticas, além das demências, também estão entre as condições que podem demandar acompanhamento paliativo.

Para Schreiner, ampliar o acesso depende não apenas da criação de novos leitos e serviços especializados, mas também de uma mudança na compreensão sobre a própria finalidade da assistência. Em vez de representar apenas os cuidados nos últimos momentos de vida, a abordagem busca reduzir o sofrimento e preservar a qualidade de vida de pessoas que convivem com condições graves de saúde.

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Fonte: Jornal Opção

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